Mesmo querendo eu não vou me enganar. Eu conheço meus passos. Eu vejo meus erros.

Essa noite acordei de madrugada com crise de ansiedade. Sentia que não podia respirar, mas respirava normalmente. Senti calor extremo embora o ar condicionado estivesse ligado e minha temperatura estivesse 36.1ºC. Senti uma náusea terrível, mas não consegui sequer forçar o vômito. Entrei no google pra checar se eu tava tendo um infarto, mas depois lembrei de ataque de pânico.

Eu tenho muito trabalho para essa semana, mas nada fora desse mundo. Tive problemas com meu carro, mas nada que eu não tenha dinheiro para pagar. Ontem fiz almoço, vi jogos de futebol e meu time venceu. Mas ainda assim acordo com uma sensação de morte iminente.Eu tenho passagem comprada pra ver minha família, grana o suficiente para pagar minhas contas, capacidade suficiente para exercer o meu trabalho. Mas aí vem o meu corpo e dá um ataque de pânico duas e meia da manhã de domingo pra segunda-feira. Como é que eu explico pro meu corpo que tá tudo bem, que não precisa ter ataque de ansiedade?

Não é a primeira vez, mas é bem raro esse tipo de episódio. Uma vez tive na faculdade em pleno divórcio dos meus pais, que foi terrível. E pra piorar o carro da minha mãe tinha pegado fogo com nós duas em uma avenida movimentada.Cheguei na faculdade, tava em sala de aula e veio dificuldade de respirar, fiquei pálida. Fui pra enfermaria e tudo normal. Pânico.

Depois, tipo em 2015, perdi um vôo que era no dia 4 (uma terça) mas fui pega-lo na quarta-feira (dia 5). Pra entrar na sala de embarque me avisaram "isso foi ontem". Enquanto checava com a empresa área se algo podia ser feito (e podia, era passagem cara comprada na mesma semana porque eu tava indo apagar um incêndio em Recife, então tinha condições especiais), o meu big boss me ligou pra botar a pressão na viagem. Fiz a viagem e fui direto pra uma reunião. Ela foi horrorosa. Cheguei no hotel, deixei minhas coisas e fui sentar na beira da praia. Senti um perigo eminente. Algo ia acontecer comigo. Será que me iam assaltar? Será que eu ia ficar bem? Não podia respirar. Achei que fosse desmaiar. Pânico.

Agora estou em trabalho remoto há 7 meses, trabalhando desesperadamente, sem folga ou férias, lidando com problemas da vida e sem nenhum ponto de escape. Sem mencionar uma pandemia que já matou 140 mil pessoas e que eu tenho que me cuidar para não me contaminar, um governo que pretende acabar com esse país e todas as dores da vida que não pára de passar. Não vejo ninguém desde março. É. Não tá tudo bem assim. Pânico.

But if this ever changing world, in which we live in, makes you give in and cry. Say live and let die.

Hoje é aniversário da minha mãe.

Meu plano era comemorá-lo ao lado dela, já que ontem seria feriado na cidade onde trabalho. Quis o mundo, o universo, a vida, o acaso, a China, a nossa irresponsabilidade, o Bolsonaro, que não. Inclusive ontem sequer foi feriado. Ele foi adiantado lá pra junho, quando achavam que no final de setembro tudo estaria controlado e que faria sentido tirar do trabalhador todos os feriados prolongados que o calendário de 2020 prometia.

Não que hoje eu fosse pra BH num bate e volta, né. Inclusive, saudades, BH. Não a vejo desde o início de janeiro.

Não vejo minha família todo esse tempo também, o que em tempos de internet não parece tão difícil, mas eu, pelos meus planos lá em janeiro, iria pra BH em abril, julho e agora em setembro. Sinto falta das minhas pessoas. Inclusive das pessoas que conquistei aqui. Em 2020 não vivi sequer na Bahia. Estou flutuando em um espaço paralelo, trabalhando por um mundo real, mas minha vida mesmo vai passando entre capítulos de série e noites mal dormidas de ansiedade. É tudo num apartamento pequeno. E idas eventuais no supermercado.

Essa noite eu dormi na cama de hóspedes e acordei com dor nas costas. Ontem tava pensando que essa cama nunca foi tão pouco usada. Minha casa é um destino popular, embora longe de tudo em Salvador. Quando eu voltar a ter hóspedes vou sugerir dormir na cama debaixo do bicama. Muito melhor. Que cama horrível.

Tenho passagem pra BH já pra dezembro. Vou passar o mês todo. Abraça gato, abraça cachorro e abraça mãe. Vou trabalhar também. E ter sonhadas férias. Que também não existiram no meu vocabulário nesse 2020.

Eu tenho saudades de uma vida inteira (menos de acordar todos os dias às 5:20 da manhã).

Talvez por um buraquinho

Muitas das minhas amigas são mães e quando eu as vejo com suas crias, normalmente penso: como é que elas dão conta?

Como dão conta de cuidar de si, de ter um trabalho e ralar tanto, de cuidar da casa, do seu relacionamento e ainda serem responsáveis pela existência completa de serzinhos totalmente dependentes?

Ser mãe é algo que me dá muito medo. Não consigo entender racionalmente porque alguém decide sê-lo. Confesso que nunca sonhei em ser mãe. Vez ou outra, transbordando de amor, tenho curiosidade de como seria uma criança metade eu e metade meu amor. Mas isso passa porque a vida é difícil como é agora. Como voluntariamente adicionar complicações? Minha mãe também me pressiona pela idade. Já tenho 35. A idade seria agora. Isso me apavora completamente. Daí penso que divertido seria criar uma criança bilíngue.

Não sei se tenho medo, se ele vira vontade, se esta é fruto da pressão. Mas o fato é único: por enquanto me falta coragem de trazer uma criança no mundo.

Não é nem pelo o mundo. Ele é péssimo e sempre foi. E ainda assim eu tive uma infância feliz e segura. Não é pelos meus genes. Minha família é até boa da cabeça. Como será que é um bebê 50% andino?

Tenho medo de me arrepender de não ter. Arrepender de ter é certeza. Mas aí já foi feito e acabou chorare.

https://youtu.be/2vQcNKXp-1w

Que pena eu não sou o que você quer de mim

Gastei posts nesse blog, sessões de terapia e muitas lágrimas. Uma amiga, que eu achava que era muito amiga, casou e não me convidou. Escrevedo assim parece até coisa mimada, mas considerando que nossas amigas em comum foram madrinhas, a coisa fica muito séria. Eu não sei o que eu fiz, não sei o que rolou e isso me deixou bem triste. E isso já tem anos. Na época até mandei um email perguntando e nada. Ou seja, assunto passado, não quis responder e eu que lamba minhas feridas. Mas minha amiga não é. Tirei de todas as redes sociais e vida que segue.

Enfim, como éramos, de verdade, muito próximas, sempre me aparece lembrança do facebook com ela. E finalmente esse ano tive o bom senso de deletar assim que aparece. Deus me livre de ficar lidando com esse DEMONHO de memória toda a vida. Mas eis que dia desses eu estava no linkedin e começou a me aparecer as coisas com que essa pessoa interagia. Não pensei duas vezes e deletei.

Eis que hoje essa desgraça me adiciona de novo. ME ADICIONA DE NOVO. DE NOVO!

Será que ela não se dá conta? Isso só me deixa mais puta, como algo que foi tão importante pra mim, não significa nada pra ela.

Mas vai pra puta que te pariu.

Pode avisar que eu não vou

Hoje eu saí com essa roupa somente pensando que estava calor. Há algum tempo abandonei dogmas sobre o meu corpo gordo e o que eu visto, não tapando o que não precisa ser tapado, afinal, meu peso aparece incluso se eu estiver de burca.

Hoje eu estava apressada no supermercado pegando um último item enquanto meu namorado já estava na fila.

Um homem me chama "amiga?" e numa dessas microviolências gratuitas, me entrega um panfleto e diz que a mulher tem um negócio que ajuda "gente que precisa" a emagrecer.

Na hora eu só peguei e saí rápido. Com raiva. Com vergonha. Com raiva por eu ter vergonha do meu peso. Com raiva de eu não ter dito nada.

Imagina só se alguém vai querer entrar em um processo tão íntimo como o de emagrecimento com alguém que te assedia?

Meu senhor, olha bem. Se alguém tão gostosa assim precisa emagrecer. Que você e a sua esposa EXPLODAM.

Choram Marias e Alices no sólo do Brasil

Aviso de gatilho: estupro de menor.

Quem me lê haá muito tempo, sabe porque já contei aqui. Eu sofri um abuso na infância, justamente de um familiar. Idade similar a dessa criança que hoje passou por um aborto. Você que não sabe, hoje em Recife uma criança de 10 anos passou por um aborto após sofrer estupros o longo de 4 anos por um tio e engravidar.

Proporcionalmente, minha dor foi infinitamente menor. Mas foi enorme em mim. Minha relação com meu corpo, sexualidade e etc foram impactadas. E eu só consegui falar disso na vida adulta.

Eu fiquei em silêncio por mais de 20 anos. Nesse silêncio tinha dor, culpa, vergonha, trauma e um esforço danado pra esquecer. Consegui dormir a maior parte das noites sem me lembrar. Porque não sabia sequer lidar com aquela dor.

Só esse ano fui falar disso na terapia. Porque ainda dói. Envergonha.

Essa situação toda me dói tremendamente. E pensar que essa criança entrou no hospital a gritos de "assassina", que tem gente duvidando da "inocência" dela por nunca ter dito nada. Parece que alguém tá tirando uma casquinha de um machucado que mal cicatrizou.

Eu consigo falar disso tudo com maturidade. Mas nossa. Como dói.

Un reste de racine, c’est un peu solitaire

Hoje é aniversário do meu pai. Faz muito tempo que não celebramos juntos. Na verdade, exatamente 7 anos, quando ele teve uma filha com a esposa e decidiu não contar pra gente "porque a Juju não queria que vocês soubessem"(????).

Aquilo ali matou a gente. A gente, como pai e filhas, que tínhamos recém renascido. Pois meu pai também tinha sido péssimo durante a separação e ficamos anos estremecidos, até que ele teve um siricutico e ficou ruim de saúde. Daí não teve amor que resiste a um pai na uti.

Mas aí ele teve uma filha e excluiu a gente do processo, mostrando que não é lá de muita confiança. E é duro e dolorido descobrir uma vez mais que o seu pai não tá nem aí pra você.

Mas a mortalidade bate, né. E durante a quarentena ele liga sempre. Em três anos que moro aqui o telefone nunca tinha tocado. Agora é a cada duas semanas. E junto dele a meia irmã, que tem 6 anos. E enfim, com tanta frequência veio a tal ligação de aniversário.

Pois hoje ela me disse que sou a sua melhor irmã, e anunciou para minha irmã que sou sua favorita. É que somos parecidas e ela deu pra se achar nas minhas fotos de infância.

Minha mini-me é a pessoa cujo nascimento tanto me fez sofrer. Ironias da vida.

Vivió aquella vez como si fuese última

Inspira.Expira.

Você não tem controle nenhum do que vai acontecer no mundo. Não tem plano de férias. De ir pra BH. De fazer passeios. De nada.

É só existir. Acordar todo dia e cumprir uma lista básica de afazares. De segunda a sexta no meu carderno com o nome da firma. Que tá acabando. Não tem como repor. Onde vai a lista?

Respira.

Sábado e domingo deveriamos limpar a casa. Já eu li um livro de 600 páginas entre sexta depois do expediente e domingo a noite. Teve um desses feriados que foram adiantados que eu virei a noite jogando videogame. E teve mil séries assistidas, maratonadas.

Inspira.
Expira.

Eu ligo pra minha mãe quase todo dia, mas fora ela e minha irmã, e incrivelmente, meu pai, não tô falando com muita gente. Acorda, trabalha, almoça, arruma cozinha, trabalha, lancha, vê tv e dorme. Segunda, terça, quarta, quinta e sexta.

Eu ouço música. Coloro aqueles livros velhos que saíram de moda e que na quarentena faz sentido terminar. Jogos joguinhos, leios livros e como. Como muito.

O namorado vira: porque não fazemos dieta?

Dieta na quarentena quando eu estou há segundos e a segundos de uma crise de ansiedade. É cada coisa que a gente escuta.

Em casa, guardada por Deus e contando meus metais

Uma das minhas organizações sociais favoritas acabou. Não resistiu a pandemia. Essa e mais muitas vão falir, projetos paralisados etodo dinheiro da área social indo para combater a pandemia.
Mais de 30 mil pessoas morreram no nosso país de coronavirus. A gente tá trancado em casa desde março, sem saber quando vai sair. Outro dia, numa reunião da empresa, falaram setembro… mas talvez falaram que quem quiser ficar de ficar em casa até dezembro, vai poder.

O ano inteiro sem sair de casa, presa nesse apartamento. Eu moro em outra cidade, que não é a minha. Meu namorado mora em outro país, que não é o dele. A gente não pode ver nossas famílias (quer dizer… nem que mora na mesma cidade da família pode ver, né), mas pegar avião é algo impensável. Eu tenho uma viagem comprada ano passado, para Paris, pro ano que vem, e não sei se vai acontecer.

É muito difícil não surtar. Isso que eu tô falando só dá para pandemia, a gente está vendo essa luta racial florescendo (essa minha branquitude, elas sempre existiram). O racismo fundou nosso país é persiste bravamente. Dia desses morreu uma criança negra, filho de empregada. A patroa colocou ele no elevador sozinho e ele se perdeu no prédio. 5 anos de idade.

Isso aconteceu porque porque o trabalho doméstico é considerado essencial no país escravocrata. Dia desses um menino negro foi morto dentro de casa. A polícia invadiu uma casa cheia de criança e atirou. Lá não tinha droga. Isso aconteceu porque a política de segurança pública do Brasil é baseada em um genocídio negro. Nos Estados Unidos assinaram um homem negro. A polícia ajoelhou no pescoço dele durante 9 minutos e ele morreu. Não podia respirar. Isso aconteceu porque a polícia americana é racista.

Agora, mesmo com coronavirus, tem protestos lá e no Brasil. A gente ainda luta contra o fascismo desse governo. São tempos de desesperadores. Como não desistir? Como não resistir? Como não desesperar?

Eu aguardo, dentro de casa, por tempos melhores. Virão?