Toast to the ones that we lost on the way

Eu vacinei.E isso significa que eu tive que pegar um laudo de comorbidade por obesidade mórbida. Tem algo cruel em ter que subir em uma balança pra um médico fazer uma continha e te contar que você é gorda. Isso sendo que todos os médicos que eu fui desde os meus dez anos, sem qualquer exame clínico, me disseram exatamente que eu sou obesa, com muita precisão.

Meus exames clínicos, todos recém feitos nesse muito longo 2021 – e ao mesmo, que susto de semana que vem já ser junho – são quase perfeitos. Não tenho nada fora uma deficiência de ferro, que com suplemento há dois meses já deve estar quase okay. Mas tenho aparentemente maiores chances de morrer. Inclusive repetido nesse último domingo em uma conversa amorosa com uma prima muito querida que é dessa raça terrível, médico. Aff, pior tipo de gente, mesmo os que a gente ama.

Ela me disse que obesidade é fator de risco pra tudo mesmo e que isso não é gordofobia. E depois por mensagem mandou desculpas caso me tivesse ofendido. Não preocupa, a vida me dá dessas todo dia. Mesmo com exames perfeitos. Por via das dúvidas, comecei a caminhar na piscina do prédio, embora no mesmo dia tenha pedido pizza e milkshake. Ansiedade, vocês sabem. Gula também.

Mas enfim, laudo em mãos, tive que pegar uma fila de cinco horas, porque morar em uma cidade pequena significa ter menos disponibilidade de vacina. Depois de muitas horas de espera e ansiedade – antecedidos por muitos dias de espera e ansiedade – levei a picadinha. Pfizer. A próxima é em três meses. Foi uma vitória, depois que vacinei fechou a vacinação porque não tem mais dose disponível. Eu vacinei segunda e já sexta.

Vacinar, ao contrário do que eu esperava, não trouxe nenhuma felicidade extrema imediata.

Na verdade, imediatamente sofri com a próxima sofreguidão disponível, o braço doeu, tantas horas de sol me deu insolação e todas as dores do meu emprego, que em 2021 tem sido especialmente fonte de ansiedade. Tive um ponto alto da minha chefe vindo tirar satisfações de algo às 22:30 da quarta-feira. Porque aparentemente problemas não podem esperar o dia seguinte.

O emprego lá que eu tava concorrendo aparentemente não rolou. Falaram que a vaga foi congelada. Ou sei lá. Preguiça de dar feedback? Tento não sofrer muito. Dia desses olhei no site de uma outra vaga que me candidatei (era na gringa em home office, me imaginei ganhando muitos dólares e vivendo no Brasil) – nessa teve nem entrevista, kkk (cada k uma lágrima), sequer leram meu currículo. O cara contratado é PHD. Não tem nem como ser PHD no Brasil em gestão de projetos sociais, então vida que segue. Ele é muito mais credenciado que eu.

Fico tentando construir minha auto estima independente da vida. Me acho gata apesar da morte iminente. Me acho ótima no meu trabalho apesar de não ser tão valorizada quanto gostaria. Acho meu currículo ótimo, apesar de já contar nesse 2021 duas vagas que eu não passei.

Comigo é assim, sempre atrás da próxima ansiedade e com pep talks (perdão meu inglês, é tipo conversas de encorajamento para si mesma???) de tempos em tempos.

Eita que não tá fácil ser eu e nem ninguém.

We haven’t spoke since I went away

Dia desses uma Headhunter entrou em contato comigo me oferecendo um trabalho. Sempre fico muito intrigada sobre a existência de headhunters numa economia com tantos desempregados, incluindo muita gente boa. Mas tenho como princípio sempre escutar as propostas de headhunters, desde que estes decidiram que meu currículo é digno de contato – importante dizer que na outras vezes as vagas eram pavorosas.

Eis que essa não. É boa. Paga bem. Clt. Com perspectiva de crescimento. Conversa boa com as recrutadoras – que já me passaram pra ser entrevistada pela gestão.

Tá tudo fluindo. Vai que rola. Vai que não.

Ao mesmo tempo que eu quero muito, me assusta um pouco em plena pandemia mudar de estado outra vez, descobrir outra cidade, ter que viver mil burocracias. Fico também chorosa no pensamento que meus dias de Bahia estariam contados, sendo que sinto que não cheguei a aprecia-la tal qual o merecido.

Há quatro anos eu tava preparando pra vir pra cá, será que em uns dias estarei indo embora?

Enfim. Torçam por mim.

Falando sobre abril

Passei quase um mês na casa da minha mãe. Foi muito bom estar pertinho, é um tanto tranquilizador ter tantos dias bons. Volto mais feliz do que fui.

Durante esse intervalo, muita gente querida perdeu gente importante. Maioria por Covid, mas nem todos. Tenho pensado muito sobre a vida e a morte.

Na última sessão de terapia, que foi há quase 15 dias, a psicóloga mandou eu pensar sobre ranço e como superar rancores.

Fiquei pensando pouco nisso, mas mais na importância de criar momentos e memórias. De repente eu tenho mais medo de não viver suficiente do que de morrer.

Sempre há espaço para novas aflições.

Não me ligue, mas a vida tá meio difícil, não sei o que fazer

Nunca estive tão ansiosa. Tenho insônia de noites inteiras. Estou doente fisicamente, mentalmente e emocionalmente. Tem drama aí também.

Faz quase um ano que estou entre paredes durante uma pandemia, tentando ser responsável enquanto o resto do país parece não sê-lo.

Dia desses fiz a conta e nesses quase 365 dias eu me encontrei com apenas 6 pessoas, sendo a maior parte do tempo com apenas 1.

Trabalho, um caos. Vida pessoal insegura. Sem vida social. Sozinha. Desesperada. Triste. Desesperançosa.

E praticamente tudo isso nem é sobre mim.

I’ll be MINE through all the years

Não sei vocês que já fizeram aniversário na quarentena, mas o peso de virar outro ano com essa pandemia maldita é desesperador. Normalmente eu tenho um senso de conquista, de coisas que fiz, aprendi, lugares que fui e etc. Esse ano minha vida se resumiu a perder a certeza de tudo. E aí é meio louco fazer tanta idade – TRINTA E SEIS!!! – e não ter certeza de nada. Será que meu relacionamento dura? Será que meu emprego continua? Será que em um ano estarei morando nessa casa aqui? Será que todos estaremos vivos? Será que esse país ainda vai existir?

Entre surtos, surtinhos e surtões, vou tentando me recuperar dos golpes e tropeços que levo por aí. Encomendei um bolo e vou comprar uma garrafa de espumante. Pelo menos sobrevivi. Pelo menos a vida persiste. Pelo menos ainda existo.

ME DÁ VACINA AGORAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Quando você menos esperar ela chega

Em 2016 eu trabalhava em uma ong e coordenava projetos em 5 cidades diferentes. Não ganhava muito, mas produzia um montão. E os resultados de impacto social eram imensos. Eu vivia viajando, encontrando com as minhas equipes e festejando sucessos.

Com a crise – e se você se lembra bem ela estourou em 2014, então aí foram dois anos seguidos de problemas – os investidores sociais tinham diminuído. No final daquele ano meu chefe resolveu demitir grande parte das minhas equipes. E aí coube a mim, como gestora, demitir ou comunicar a demissão de várias pessoas. Além disso, tive que acompanhar o desmanche de escritórios inteiros.

Todo esse processo, que pode ser visto em posts desse blog que me acompanha há exagerados anos, foi muito pesado pra mim. Analisando hoje, sei que naquele momento me faltou maturidade, e tive inclusive um dia que discuti com meu chefe aos gritos chorei (fora do escritório) que nem bebê porque não concordava com as decisões. Meio que naquele momento eu decidi que queria sair da ong, e quando a oportunidade surgiu na firma atual, agarrei total. Mudei de cidade e vim. Pensei: quero estabilidade e um lugar que tenha dinheiro pra não sair demitindo pessoas.

PAM – corta pra 2021 quando a firma anuncia a demissão de 5000 pessoas e o fechamento de todas as unidades de produção – essas onde eu circulava desde 2017.

A pessoa pensa que em uma empresa global com 100 anos de país as coisas estarão sossegadas, né. Mas desde meu início eu via que os números da cia não estavam bem, mas sendo ela tão enorme, confiava em investimentos e mudanças de linha pra recuperar aquele legado. Pois bem. Vem mais anos de crise. Vem pandemia. Troca CEO da empresa. 11 de janeiro de 2021 eu descubro por uma notícia, segunda por um email do CEO, que era isso aí mesmo (veja histeria no post anterior),

Desde segunda-feira estou digerindo o fato da maior parte das pessoas com quem eu trabalhava estarem, num estalar de dedos, sem empregos. Imagina o impacto social disso nas cidades? Em toda a cadeia? Multiplica fácil por 5 aí o número de pessoas sem emprego a partir dessa canetada, viu? É o caos.A

A moral da história é que na vida não adianta fugir das coisas. A vida te dá volta. A gente tem é que crescer mesmo e lidar com a realidade, ser resiliente e fazer o melhor. Meu emprego está seguro, mas esse ano (MAIS UM???) será super desafiador, lidando justamente com as consequências dessa mudança. E é o que tem pra 2021.

Já acabou, Jéssica?

‘Tis the damn season

– 2020 foi um ano horrível

2021 DIZ "PERAÍ UM MOMENTINHO QUE É APENAS 11 DE JANEIRO E EU VOU MOSTRAR MEU POTENCIAL"

A FÁBRICA QUE EU TRABALHO E TODAS AS OUTRAS DA FIRMA NO BRASIL VÃO FECHAR.

Mermão

MERMÃOZINHO.

São umas 70 mil pessoas desempregadas contanto todos os diretos, indiretos e cadeia de serviços ao redor. É uma destruição em massa.

Mas calma. Até então meu empreguinho está bastante seguro. LIDANDO COM AS CONSEQUÊNCIA DO ACIMA.

Carta pra Dani

Queria que não houvesse pandemia pra eu poder te dizer vir aqui pra casa e eu te fazer sorrir. Te levar na praia e nos renovarmos no mar. Depois comer uma moqueca e de sobremesa um sorvete de coco verde. A tarde ir no cinema e depois ficar conversando até tarde tomando cerveja e comendo batatinha. Irmos no Pelourinho e ir de bar em bar tomando cerveja. Comer camarão ao molho e óleo e ver o pôr do sol.

Queria poder ouvir suas tristezas e dores e chorar com você. Te contar do meu ano passado horrível e saber que é nada nada perto dessa dor sua. Rir falando mal dos outros e crescer juntas. Compartilhar meus medos e acertos.

Queria poder matar as saudades que eu tenho de você desde abril de 2017. Queria poder curar um pouco dessa dor com o meu amor, minha amiga tão querida.

Eu te amo. Fica bem.