Não me ligue, mas a vida tá meio difícil, não sei o que fazer

Nunca estive tão ansiosa. Tenho insônia de noites inteiras. Estou doente fisicamente, mentalmente e emocionalmente. Tem drama aí também.

Faz quase um ano que estou entre paredes durante uma pandemia, tentando ser responsável enquanto o resto do país parece não sê-lo.

Dia desses fiz a conta e nesses quase 365 dias eu me encontrei com apenas 6 pessoas, sendo a maior parte do tempo com apenas 1.

Trabalho, um caos. Vida pessoal insegura. Sem vida social. Sozinha. Desesperada. Triste. Desesperançosa.

E praticamente tudo isso nem é sobre mim.

I’ll be MINE through all the years

Não sei vocês que já fizeram aniversário na quarentena, mas o peso de virar outro ano com essa pandemia maldita é desesperador. Normalmente eu tenho um senso de conquista, de coisas que fiz, aprendi, lugares que fui e etc. Esse ano minha vida se resumiu a perder a certeza de tudo. E aí é meio louco fazer tanta idade – TRINTA E SEIS!!! – e não ter certeza de nada. Será que meu relacionamento dura? Será que meu emprego continua? Será que em um ano estarei morando nessa casa aqui? Será que todos estaremos vivos? Será que esse país ainda vai existir?

Entre surtos, surtinhos e surtões, vou tentando me recuperar dos golpes e tropeços que levo por aí. Encomendei um bolo e vou comprar uma garrafa de espumante. Pelo menos sobrevivi. Pelo menos a vida persiste. Pelo menos ainda existo.

ME DÁ VACINA AGORAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Quando você menos esperar ela chega

Em 2016 eu trabalhava em uma ong e coordenava projetos em 5 cidades diferentes. Não ganhava muito, mas produzia um montão. E os resultados de impacto social eram imensos. Eu vivia viajando, encontrando com as minhas equipes e festejando sucessos.

Com a crise – e se você se lembra bem ela estourou em 2014, então aí foram dois anos seguidos de problemas – os investidores sociais tinham diminuído. No final daquele ano meu chefe resolveu demitir grande parte das minhas equipes. E aí coube a mim, como gestora, demitir ou comunicar a demissão de várias pessoas. Além disso, tive que acompanhar o desmanche de escritórios inteiros.

Todo esse processo, que pode ser visto em posts desse blog que me acompanha há exagerados anos, foi muito pesado pra mim. Analisando hoje, sei que naquele momento me faltou maturidade, e tive inclusive um dia que discuti com meu chefe aos gritos chorei (fora do escritório) que nem bebê porque não concordava com as decisões. Meio que naquele momento eu decidi que queria sair da ong, e quando a oportunidade surgiu na firma atual, agarrei total. Mudei de cidade e vim. Pensei: quero estabilidade e um lugar que tenha dinheiro pra não sair demitindo pessoas.

PAM – corta pra 2021 quando a firma anuncia a demissão de 5000 pessoas e o fechamento de todas as unidades de produção – essas onde eu circulava desde 2017.

A pessoa pensa que em uma empresa global com 100 anos de país as coisas estarão sossegadas, né. Mas desde meu início eu via que os números da cia não estavam bem, mas sendo ela tão enorme, confiava em investimentos e mudanças de linha pra recuperar aquele legado. Pois bem. Vem mais anos de crise. Vem pandemia. Troca CEO da empresa. 11 de janeiro de 2021 eu descubro por uma notícia, segunda por um email do CEO, que era isso aí mesmo (veja histeria no post anterior),

Desde segunda-feira estou digerindo o fato da maior parte das pessoas com quem eu trabalhava estarem, num estalar de dedos, sem empregos. Imagina o impacto social disso nas cidades? Em toda a cadeia? Multiplica fácil por 5 aí o número de pessoas sem emprego a partir dessa canetada, viu? É o caos.A

A moral da história é que na vida não adianta fugir das coisas. A vida te dá volta. A gente tem é que crescer mesmo e lidar com a realidade, ser resiliente e fazer o melhor. Meu emprego está seguro, mas esse ano (MAIS UM???) será super desafiador, lidando justamente com as consequências dessa mudança. E é o que tem pra 2021.

Já acabou, Jéssica?

‘Tis the damn season

– 2020 foi um ano horrível

2021 DIZ "PERAÍ UM MOMENTINHO QUE É APENAS 11 DE JANEIRO E EU VOU MOSTRAR MEU POTENCIAL"

A FÁBRICA QUE EU TRABALHO E TODAS AS OUTRAS DA FIRMA NO BRASIL VÃO FECHAR.

Mermão

MERMÃOZINHO.

São umas 70 mil pessoas desempregadas contanto todos os diretos, indiretos e cadeia de serviços ao redor. É uma destruição em massa.

Mas calma. Até então meu empreguinho está bastante seguro. LIDANDO COM AS CONSEQUÊNCIA DO ACIMA.

Carta pra Dani

Queria que não houvesse pandemia pra eu poder te dizer vir aqui pra casa e eu te fazer sorrir. Te levar na praia e nos renovarmos no mar. Depois comer uma moqueca e de sobremesa um sorvete de coco verde. A tarde ir no cinema e depois ficar conversando até tarde tomando cerveja e comendo batatinha. Irmos no Pelourinho e ir de bar em bar tomando cerveja. Comer camarão ao molho e óleo e ver o pôr do sol.

Queria poder ouvir suas tristezas e dores e chorar com você. Te contar do meu ano passado horrível e saber que é nada nada perto dessa dor sua. Rir falando mal dos outros e crescer juntas. Compartilhar meus medos e acertos.

Queria poder matar as saudades que eu tenho de você desde abril de 2017. Queria poder curar um pouco dessa dor com o meu amor, minha amiga tão querida.

Eu te amo. Fica bem.

Uma maré ruim

2020 foi um ano de corno. Literalmente. Fui passada pra trás em vários aspectos. Achei que tinha conquistado um monte e me tomaram. E hoje faltando ali 21 dias pra esse ano mequetrefe terminar, me sinto naquele meme já antigo: acabou, Jéssica?

Tô com uma tosse braba que não sei se é coronga ou só o clima de Minas Gerais zoando com meu corpo aclimatado a Bahia. A quantidade de BO que eu tenho pra resolver no trabalho não termina (e olha que só me sobram 6 dias de trabalho até 2021). E meu coração tem tanto remendo que eu não acho que ele nem bate mais, de tão em frangalhos.

Não tenho esperança de nada. De 2021 eu só espero que sobrevivamos, tal como até então sobrevivemos até agora. Tal qual o Atlético em segundo lugar a sétimo pontos do São Paulo. Eu quase fui feliz, mas os outros não quiseram que eu fosse.

Muito vitimada encerro o post. Talvez eu volte antes de 2021. Talvez nem nele.

#dramatica
#perdoaodramaenãodesistedemim

Estamos juntos e misturados.

Uma leitora do blog – e é meio estranho chamar de leitor as pessoas anônimas que vem cá ler meus chorinhos de alguém tão anônima quanto – me recomendou uma autora x que posta na internet crônicas anti-homem. Tal escritora publica (com até relativo grande público) ideias de que o patriarco estabelece que todo homem mente, trai, é um merda e eventualmente, abandonará a mulher quando a mesma não for útil. Embora as minhas expectativas com o gênero oposto sejam extremamente baixas e eu entenda bem o papel nocivo do patriarcado em cada esfera da minha existência, eu fiquei meio boquiaberta com tanta amargura.

Porque o foco ali não é debate das estruturas e papéis, desafiando o patriarcado. Não é um alerta de construção de relações saudáveis rompendo os limites impostos pelo patriarcado – confiança, acesso, diálogo, vulnerabilidade e compromissos. É literalmente ter o homem como ruim, e não como humano, que erra, acerta, aprende e melhora (e inclusive pode crescer melhor criado e com menos traumas – tem gente mais lixo e menos lixo nessa vida). Ela define todo homem como alguém que é intrinsecamente contra a mulher, independente de quem seja, e não como alguém que erra e melhora.

E olha que eu venho de uma parcela de homens lixos. Meu dito pai é um ser difícil e meu namorado acabou de me trair longamente com uma pessoa em outro país – rere. Merda de 2020.

Mas eu também vejo meu pai, imperfeitíssimo, vendo que somos mulheres fortes e se arrependendo – e agora é tarde – de algumas escolhas. Vejo o meu companheiro tentando reconstruir a confiança que ele abalou, está fazendo terapia, estamos conversando mais e tentando entender tudo.

E essa segunda chance não necessariamente me faz uma mulher vulnerável. Eu e ele somos financeiramente independentes e minha vida segue basicamente muito igual, com ou sem ele. Meu “perdão”, que não passa por perdoar a traição, mas por dar uma segunda chance a um relacionamento de seis anos no qual eu fui feliz, é uma escolha. E se eu terminar porque esse relacionamento não funcionou, será outra. Não faz de mim vítima, e nem necessariamente ele vilão, porque o mundo não é preto ou branco. Mulheres inclusive também traem, têm problemas emocionais, enrolam os pares, etc, conheço várias. O trauma nem sempre vem do patriarcado, embora ele seja sim PODEROSO.

Mas um relacionamento é feito de pessoas, únicas, com medos e coragens, personalidades e histórias variadas. E no fim se proteger do lobo-mau tem mais a ver com você sendo mais cuidadosa, se respeitando mais, impondo limites, não confiando cegamente, não sendo ong de homem (alô twitter, essa é direto dos ensinamentos da @naoinviabilze, não se permita ser financeiramente vulnerável a homem safado) e tentando construir com o seu par um relacionamento de diálogo, afeto e confiança, do que em se fechar às possibilidades de ser feliz com alguém.

Enfim, cara pessoa que me recomendou tal “autora”, você escreveu assim “talvez te ajude a refletir melhor”. Ajudou. Reflita também. É mais fácil a autora ser golpista e ganhar nos likes das minas de coração partido do que todo homem querer necessariamente te passar a perna.

Beijinhos da corna que ainda acredita no amor (e talvez eu esteja errada sobre esse amor, mas oh well,faz parte),

Alice

Se seu coração tem buraquinhos

Coração quebra, mas coração sara.

Será? Será que eu vou voltar a me sentir inteira e ter felicidade plena? Será que eu vou poder sorrir pensando no meu amor, sabendo que ele é imperfeito – sendo que perfeito ele nunca foi? Será que eu não vou ter crise de ansiedade iguais as de agora porque é tanto tanto tanto, como não surtar? Será que eu vou poder falar pra mim mesma que confio em você? E em mim? Será que eu confio em mim?

Quero olhar pra 2021, depois desse 2020 completamente desesperado e desesperador e falar: seja gentil comigo.

Coração sara?