Tudo é melhor agora

Te assusta que a sua mãe me chame de filha e seu irmão me prometa todos os lugares que vamos passear quando eu for visitar esse lugar muito distante de onde você é. E você  bobo nem se dá conta que esse carinho todo é porque eles gostam de mim por te fazer feliz.

Faz um mês que faz um ano que você veio ficar comigo e nem um dia eu me arrependi. A gente se esqueceu de comemorar e com frequência até caímos em uma rotina não romântica. Eu tenho menos medo quando você tá comigo e é incrível poder pedir pra alguém acordar 5:30 da manhã para esperar ônibus comigo porque eu me assusto se esperar sozinha.

Minha mãe diz que tem paz porque você está comigo. Eu sou feliz porque você é meu par.

Acho que eu realizei um sonho quando você me disse “obrigada por me fazer uma pessoa melhor” porque eu, de maneira infantil, sempre tive nisso um ideal de amor.

Parece que todo mundo tá feliz e a gente é uma combinação imperfeita.

 

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E não basta contar consigo

Toda vez que eu choro, eu choro muito mais do que tinha que chorar. Acho que é pelas vezes que não choro, que guardo as lágrimas dentro e só sigo em frente. Mas aí num espacinho de vulnerabilidade eu aproveito e me derramo toda.

Depois de um muito chorar eu sinto até consequências físicas desse maremoto todo. E posso dormir tranquila.

 

Tú puedes decidir los colores

Eu não estou na minha melhor fase, mas a vida não espera a melhor fase. Fora as crises de ansiedade, sempre presentes, um certo ranço com relação ao trabalho e momentos de ajustes no relacionamento, minha orelha resolveu rejeitar minhas bijouterias. Parece a parte menos importante do pacote, mas não é. Brinco para mim é algo muito grande para a minha autoestima, feminilidade e esbarra nos meus conceitos próprios de beleza. E bem, cá estou eu já há semanas vivendo sem brinco.

Aí eu decidi que eu deveria cortar meu cabelo, porque ao menos algo ficaria bom nessa vida. Parte da fase ruim era o cabelo, inclusive. Tava sem brilho, cacheando pouco. E poxa, meu cabelo é meu ponto forte. É a minha parte mais bonita. Tava feia.

O corte, que tem 2 dias, deu certo. Meu cabelo novo tá bonito e veio com alguma energia nova e, ao contrário de Sansão que perde força sem o cabelo, eu ganhei. Tirei várias fotos, mandei pra todo mundo que eu gostava e fiquei feliz com os elogios, fingindo que vai ficar tudo bem na vida.

Me contaram que se passar base na haste do brinco, a parte que fica na orelha, ajuda.

Nossa, já tá tudo dando certo. Tá sim. Olha só.

It’s time to be a big girl

Ultimamente eu tenho mais crises de ansiedade por pensar que não vou conseguir dar conta de tudo do que crises reais de não dar conta das coisas.

Toda dor é inventada. Eu tenho dado conta de tudo, mesmo que não seja fácil, porque sofrer tanto? Me sinto como se fosse uma pessoa que é arrimo de família, mal paga as contas, tem dezenas de pessoas sob sua responsabilidade e estivesse a um fio de perder tudo. Mas não é nada disso. Tá tudo, na verdade, quase ok.

Aí eu respiro e penso: realmente. Tá tudo indo bem.

Óbvio que a vida não é perfeita, tem uma série de coisas, tipo uma questão de saúde e exames invasivos, o carro com defeito e pressões do trabalho.

Sabe, racionalmente eu sei que eu vou dar conta. Eu vou chegar de viagem de trabalho no meio da madrugada, acordar cedo sábado e ir ao médico… e depois ao mecânico… e antes das 13 vou estar em casa. Se precisar tirar um dia de trabalho para fazer home office para resolver a questão do carro eu provavelmente consigo negociar.

Racionalmente assim, é só a vida passando: coisas quebram no mesmo dia que você vai viajar a trabalho e tá cheia de coisas para fazer. Não é nenhuma grande tragédia. Não precisa de nenhum surto histérico.

Perspectiva: tem gente lidando com dor de perder alguém, tem gente lidando com doença… A vida deles segue também.

Respira. Racionaliza. É tudo imaginário. Não sofre por antecedência por um sábado que você não vai poder descansar depois de uma viagem. Acontece.

Sobrevivirei a isso tudo. É a vida. Eles passam. Eu passarinho.

(Postei surtado de autoterapia no avião)

Algo va a quedar adentro tuyo siempre

Voltei para a terapia.

Comecei ontem. No final da sessão, a terapeuta vira para mim e diz: “Alice, você parece um pai de família com 4 filhos que é arrimo de família com toda a pressão do mundo e medo de não dar conta, mas é tudo imaginário”.

Plaf na minha cara.

Meus medos são imaginários. Inventados por mim mesma. Em um querer sofrer, em um gostar de sofrer.

Lembrei de um poema do Leminski:

Bem no fundo
no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

 

Este es pa’ mí

Esse afeto que vem na fruta picada na geladeira, na companhia mesmo quando quero ver futebol, em ouvir minhas fofocas e em ser sua melhor versão quando perto da minha família. Esse afeto sem grandes gestos, fora o maior de todos, que foi mudar de país e dar um salto de fé em nome de um amor que quase só conhecíamos a distância. Esse afeto de beijinhos e abraços e carinhos e afagos e cuidados e tanto riso.

Espero que você sinta que é recíproco. Porque é.

 

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And history books will still forget about us

que ano difícil, 2019. quantos chorinhos aos 43 dias desde 1º de janeiro a gente já derramou por dores gerais, não particulares. a gente chora porque quem tá no poder não liga pra gente, a gente chora porque a lama soterrou, lá pertinho de onde eu vim, a vida e os sonhos de mais de 300 pessoas. a gente chora porque morreram 10 meninos em um incêndio porque um clube de futebol milionário não cuidava bem do alojamento de seus jovens, a gente chora porque o âncora que eu ouvia no rádio de manhã, quando vinha dirigindo pro trabalho, morreu em um acidente.

a gente vai seguir chorando, porque as tragédias parecem ser o destino desse ano. egoisticamente torço para seguindo serem gerais, não particulares.

Não faça papel de louca

eu já contei aqui que passei por um abuso sexual na infância, por parte de um familiar, e foi só depois dos 30 que consegui contar pra minha família, né.

pois bem. minha mãe contou pra minha tia. aí minha prima vai se formar e vai ter festão. decidem não convidar o meio-irmão, que no caso é meu tio.

para me proteger porque afinal de contas ver meu abusador me causaria mal?

não.

 

minha tia disse que álcool e a combinação ele e minha mãe juntos daria ruim, que ela brigaria com ele.

essa minha tia fica criando narrativas de como a vida do meu tio era difícil para justificar o que ele me fez. e eu, mesmo aos 34 anos, não consigo virar pra ela:

 

VOCÊ  COME COCÔ, CARALEO? ESSA BOSTA TEM SÓ UMA VÍTIMA, E FUI EU AOS 10 ANOS DE IDADE.

 

(e sério, de repente não convidar alguém que deve fazer uns bons 10 anos que não vê virou algo muito significativo)

 

TOMARNOCUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU