Algo va a quedar adentro tuyo siempre

Voltei para a terapia.

Comecei ontem. No final da sessão, a terapeuta vira para mim e diz: “Alice, você parece um pai de família com 4 filhos que é arrimo de família com toda a pressão do mundo e medo de não dar conta, mas é tudo imaginário”.

Plaf na minha cara.

Meus medos são imaginários. Inventados por mim mesma. Em um querer sofrer, em um gostar de sofrer.

Lembrei de um poema do Leminski:

Bem no fundo
no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

 

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Este es pa’ mí

Esse afeto que vem na fruta picada na geladeira, na companhia mesmo quando quero ver futebol, em ouvir minhas fofocas e em ser sua melhor versão quando perto da minha família. Esse afeto sem grandes gestos, fora o maior de todos, que foi mudar de país e dar um salto de fé em nome de um amor que quase só conhecíamos a distância. Esse afeto de beijinhos e abraços e carinhos e afagos e cuidados e tanto riso.

Espero que você sinta que é recíproco. Porque é.

 

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And history books will still forget about us

que ano difícil, 2019. quantos chorinhos aos 43 dias desde 1º de janeiro a gente já derramou por dores gerais, não particulares. a gente chora porque quem tá no poder não liga pra gente, a gente chora porque a lama soterrou, lá pertinho de onde eu vim, a vida e os sonhos de mais de 300 pessoas. a gente chora porque morreram 10 meninos em um incêndio porque um clube de futebol milionário não cuidava bem do alojamento de seus jovens, a gente chora porque o âncora que eu ouvia no rádio de manhã, quando vinha dirigindo pro trabalho, morreu em um acidente.

a gente vai seguir chorando, porque as tragédias parecem ser o destino desse ano. egoisticamente torço para seguindo serem gerais, não particulares.

Não faça papel de louca

eu já contei aqui que passei por um abuso sexual na infância, por parte de um familiar, e foi só depois dos 30 que consegui contar pra minha família, né.

pois bem. minha mãe contou pra minha tia. aí minha prima vai se formar e vai ter festão. decidem não convidar o meio-irmão, que no caso é meu tio.

para me proteger porque afinal de contas ver meu abusador me causaria mal?

não.

 

minha tia disse que álcool e a combinação ele e minha mãe juntos daria ruim, que ela brigaria com ele.

essa minha tia fica criando narrativas de como a vida do meu tio era difícil para justificar o que ele me fez. e eu, mesmo aos 34 anos, não consigo virar pra ela:

 

VOCÊ  COME COCÔ, CARALEO? ESSA BOSTA TEM SÓ UMA VÍTIMA, E FUI EU AOS 10 ANOS DE IDADE.

 

(e sério, de repente não convidar alguém que deve fazer uns bons 10 anos que não vê virou algo muito significativo)

 

TOMARNOCUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU

Até quando o corpo pede um pouco mais de alma

Comecei esse ano sem nenhum plano concreto de felicidade. Mesmo porque ser feliz é mais estado de espírito que capacidade de realização.

Planejei ler mais livros e estudar francês, porque estou mais focada em fazer coisas pra mim mesma que realizar grandes feitos. Sem ansiedade.

Eu vou fazer 34 anos e obviamente, é o mais velha que já estive. O grande detalhe é que o número, pela primeira vez, me parece ser de alguém não jovem. E isso me assusta. Não sei se tenho maturidade para deixar de ser jovem.

O ano começou tranquilo. Vi muitos amigos nas férias e descansei muito. Dormi bastante e não estou cansada. Tive dias de piscina e sol. Mesmo no trabalho, já passados 22 dias de 2019, tudo muito tranquilo. Que perdure a tranquilidade, que passa perto de paz de espírito, que é o máximo que eu posso almejar para viver feliz.

Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles.

Um conhecido morreu ano passado. A morte dele foi mais próxima que a vida dele, porque uma amiga querida me ligou para contar – mais pedindo colo- logo que aconteceu. Ele escrevia livros e já ganhou prêmios. Apareceu na lista da Forbes de 30 abaixo do 30. Era um moço extremamente bonito.

Numa curiosidade tardia, duma intimidade mais pós morte que durante a vida, li seus dois romances publicados. Terminei o segundo (que era o primeiro) agora. Ele termina em uma carta escrita em 2027. O autor, morto em 2018.

Devastador. E que incrível os livros permitirem existir num futuro em que você não não estará.

Os livros são bonitos. Gostei de lê-los. Tentei achar o Victor em cada página. Achei mais sobre mim.

18 December, 2018 14:45

Eu sonho muito melhor que vivo, sou muito ruim de concretizar os planos perfeitos de sucesso e amor. Planejo tudo certinho dentro da cabeça, mas acabo me atrapalhando seja nas finanças, quanto no amor. E quando dão errado – e dão – porque eu me atrapalho toda, fico por dentro com essa sensação de fracasso, "como é que aos 33 eu ainda não aprendi a seguir minhas receitas imaginárias de felicidade"?

Daqui a pouco serão 34. Aprenderei a ser feliz então?

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito

Perguntei deitada na cama pro mozão: você já teve vontade de deixar de existir?

Não é nem vontade de morrer. É vontade de não ter que lidar com a vida, com o trabalho, com as dores e os dramas, tantas decisões e frustrações.

Veja bem, não é que eu não seja feliz e tenha sucesso. Minhas contas são pagar em dia, o dinheiro que sobra dá pra fazer coisas legais, eu sinto orgulho do meu trabalho e o executo bem.

Mas olha só, eu sou ansiosa o tempo inteiro. Tô sempre pensando no próximo passo, o próximo problema, a próxima solução, o próximo desafio. E vem sempre e a vida é esse eterno resolver coisas.

Cansa, não cansa?

Ano que vem vou fazer terapia. Essa ansiedade está me consumindo.

Não disse nada disso pro mozão, porque ele ignorou a minha pergunta enquanto jogava videogame.

I’m willing and able

Faz quase um ano e meio que mudei minha vida inteira por um emprego. Não foi nenhuma loucura: salário bem maior, multinacional conhecida e um cargo que eu almejava. Vim.

Mas não foi sem dor. No nível pessoal abri mão de todo meu conforto de estar em um lar que só me faz bem. Abri mão dos meus amigos de toda a vida, do conforto de estar cercada de gente que me conhece e que eu tenho sem esforço. Abri mão da minha cidade. Tudo novo.

Mas também já era hora: com mais de trinta anos ainda morava com a minha mãe e com o salário antigo, sinceramente, não tinha como eu sair de casa não. E existia sempre a pressão de querer ser melhor, de querer crescer mais e mais. Tinha sempre aquela vozinha: “você vai se contentar com isso?”.

Falando em salário antigo, vira e volta me dá saudades do emprego antigo. Eu tinha tanto poder, eu tinha uma capacidade tão grande de tomada de decisão, era peixe grande (apesar do salário pequeno). Mas basta eu passar uma hora conversando com alguém de lá e lembro de todas as confusões daquela turminha do barulho e fico com alívio de estar aqui e não lá.

Aqui tudo é grande demais para qualquer pessoa ser peça muito relevante, então tudo é mais impessoal. Aqui é tudo by the book, compliance,  budget, feedback, call e todo o jargão corporativo. De repente virei multinacional. E não acha que foi fácil me acostumar com a cultura. Não foi. Demorei meses para aprender a trabalhar aqui e ser eficiente fazendo-o. A cultura que me dominou aonde eu vim não é a local, é a da empresa.

Vira e volta as pessoas ainda me perguntam se eu estou amando a Bahia. Como se a vida fosse umas férias eternas. Não, não estou. Minha rotina é pesada. O trânsito é péssimo. Não fiz tantas amizades (em 2017 quase-morri-de-solidão). Não vou na praia mais que um punhado de vezes ao ano. Mas é bem bonito por essas bandas, não posso negar. E falta um esforço pessoal também, confesso, em me apaixonar por aqui.

Tinha meio que me prometido fazer isso em 2018, mas ganhei do universo o meu amor aqui comigo. E daí não há Salvadô que me chame quando meu amor tá dentro da minha casa. Às vezes quero mata-lo. Às vezes parece que eu tenho um filho grande. Meu Deus, como é intenso viver tudo isso. Um estado novo só para nós dois. Enfim, viemos. Eu atrás de uma carreira, ele atrás de mim.

Porque agora somos dois nesse lugar novo e todos os sonhos que a gente quiser inventar.