Un reste de racine, c’est un peu solitaire

Hoje é aniversário do meu pai. Faz muito tempo que não celebramos juntos. Na verdade, exatamente 7 anos, quando ele teve uma filha com a esposa e decidiu não contar pra gente "porque a Juju não queria que vocês soubessem"(????).

Aquilo ali matou a gente. A gente, como pai e filhas, que tínhamos recém renascido. Pois meu pai também tinha sido péssimo durante a separação e ficamos anos estremecidos, até que ele teve um siricutico e ficou ruim de saúde. Daí não teve amor que resiste a um pai na uti.

Mas aí ele teve uma filha e excluiu a gente do processo, mostrando que não é lá de muita confiança. E é duro e dolorido descobrir uma vez mais que o seu pai não tá nem aí pra você.

Mas a mortalidade bate, né. E durante a quarentena ele liga sempre. Em três anos que moro aqui o telefone nunca tinha tocado. Agora é a cada duas semanas. E junto dele a meia irmã, que tem 6 anos. E enfim, com tanta frequência veio a tal ligação de aniversário.

Pois hoje ela me disse que sou a sua melhor irmã, e anunciou para minha irmã que sou sua favorita. É que somos parecidas e ela deu pra se achar nas minhas fotos de infância.

Minha mini-me é a pessoa cujo nascimento tanto me fez sofrer. Ironias da vida.

Vivió aquella vez como si fuese última

Inspira.Expira.

Você não tem controle nenhum do que vai acontecer no mundo. Não tem plano de férias. De ir pra BH. De fazer passeios. De nada.

É só existir. Acordar todo dia e cumprir uma lista básica de afazares. De segunda a sexta no meu carderno com o nome da firma. Que tá acabando. Não tem como repor. Onde vai a lista?

Respira.

Sábado e domingo deveriamos limpar a casa. Já eu li um livro de 600 páginas entre sexta depois do expediente e domingo a noite. Teve um desses feriados que foram adiantados que eu virei a noite jogando videogame. E teve mil séries assistidas, maratonadas.

Inspira.
Expira.

Eu ligo pra minha mãe quase todo dia, mas fora ela e minha irmã, e incrivelmente, meu pai, não tô falando com muita gente. Acorda, trabalha, almoça, arruma cozinha, trabalha, lancha, vê tv e dorme. Segunda, terça, quarta, quinta e sexta.

Eu ouço música. Coloro aqueles livros velhos que saíram de moda e que na quarentena faz sentido terminar. Jogos joguinhos, leios livros e como. Como muito.

O namorado vira: porque não fazemos dieta?

Dieta na quarentena quando eu estou há segundos e a segundos de uma crise de ansiedade. É cada coisa que a gente escuta.

Em casa, guardada por Deus e contando meus metais

Uma das minhas organizações sociais favoritas acabou. Não resistiu a pandemia. Essa e mais muitas vão falir, projetos paralisados etodo dinheiro da área social indo para combater a pandemia.
Mais de 30 mil pessoas morreram no nosso país de coronavirus. A gente tá trancado em casa desde março, sem saber quando vai sair. Outro dia, numa reunião da empresa, falaram setembro… mas talvez falaram que quem quiser ficar de ficar em casa até dezembro, vai poder.

O ano inteiro sem sair de casa, presa nesse apartamento. Eu moro em outra cidade, que não é a minha. Meu namorado mora em outro país, que não é o dele. A gente não pode ver nossas famílias (quer dizer… nem que mora na mesma cidade da família pode ver, né), mas pegar avião é algo impensável. Eu tenho uma viagem comprada ano passado, para Paris, pro ano que vem, e não sei se vai acontecer.

É muito difícil não surtar. Isso que eu tô falando só dá para pandemia, a gente está vendo essa luta racial florescendo (essa minha branquitude, elas sempre existiram). O racismo fundou nosso país é persiste bravamente. Dia desses morreu uma criança negra, filho de empregada. A patroa colocou ele no elevador sozinho e ele se perdeu no prédio. 5 anos de idade.

Isso aconteceu porque porque o trabalho doméstico é considerado essencial no país escravocrata. Dia desses um menino negro foi morto dentro de casa. A polícia invadiu uma casa cheia de criança e atirou. Lá não tinha droga. Isso aconteceu porque a política de segurança pública do Brasil é baseada em um genocídio negro. Nos Estados Unidos assinaram um homem negro. A polícia ajoelhou no pescoço dele durante 9 minutos e ele morreu. Não podia respirar. Isso aconteceu porque a polícia americana é racista.

Agora, mesmo com coronavirus, tem protestos lá e no Brasil. A gente ainda luta contra o fascismo desse governo. São tempos de desesperadores. Como não desistir? Como não resistir? Como não desesperar?

Eu aguardo, dentro de casa, por tempos melhores. Virão?

Memórias da quarentena

Em um inferno astral fora de época, deu um biziu qualquer no banco e cancelaram meu cartão de débito. Calhou também de eu estar sem acesso ao internet banking e a agência estar fechada devido não ter cumprido regras de segurança durante a pandemia.

Frente a miséria de eu não ter nenhum dinheiro fora o que tenho na conta que eu estou sem acesso, e eu não ter conseguido resolver essa merda depois de uma manhã inteira falando ao telefone com o banco, me encontro no seguinte dilema: preciso fazer coisas que na minha agência e minha agência está fechada. Aparentemente é um problema insolúvel. O banco pretende que eu vire sem teto e morra de fome até o fim da quarentena. Tendo eu feito o devido escândalo nas redes sociais, reclamado no Banco Central e postado no Reclame Aqui, fiz depois o que qualquer pessoa sensata de 35 anos faria: chorei de soluçar.

Mesmo com todo o emblema, todo o problema, todo o sistema

Num dos piores momentos dessa vida, minha chefe ontem me informou que a mudança do post abaixo CAIU.

Simplesmente eles fizeram as contas, depois de terem me proposto, e com cortes no orçamento e falta de previsão de futuro porque não se sabe do que será do mundo pós pandemia, e não cabe a minha mudança de PJ pra CLT.

Eu chorei feito criança. Não com a minha chefe, mas comigo mesma. Eu contei, orgulhosa, da mudança pra vocês no blog. Eu escrevi no twitter. Eu contei pras minhas melhores amigas. Pra minha família. E não vai mais acontecer.

E eu chorei ontem o dia inteiro. São dezenas de sonhos que me permiti sonhar. Não vou mais. Não posso mais. Porque eu sou uma PJ de contrato anual. Meu Deus, que pesadelo horrível. E como minha chefe foi irresponsável de me iludir se não tinha certeza que era possível.

Vida que segue.

Maybe sometimes we feel afraid, but it’s all right. The more you stay the same, the more they seem to change. Don’t you think it’s strange?

No meio dos todos os surtos que eu e a torcida do Flamengo, e todas as outras torcidas do Brasil, estamos sendo durante a pandemia, eu recebi um aumento.

Eu disse aumento? Não, menina! De PJ, eu vou virar CLT l, você pode acreditar nisso? Minha irmã disse que é sorte, mas, pra ser sincera eu trabalho para caramba, trabalho duro, levo a sério e surpresa, surpresa… durante a pandemia nunca trabalhei tanto na minha vida! Faz sentido, né. A pessoa que é responsável pela área social de um continente trabalharia tanto assim. Porém, no futuro de carteira assinada.

Claro que ainda estou mega feliz, considerando que há 40 dias eu tô em casa, e faz 40 dias que a única pessoa que eu vejo é o meu amor… E tamos bem.

No trabalho tá tudo bem, venho dando conta de tudo. Fiquei puta com a maioria dos amigos sem eles nem sabererem, me senti ofendida pelas pessoas porque elas falam mal sobre responsabilidade social (veja surto abaixo).

E no fim, ficar meio maluco ou pra baixo, tá tudo bem… É um tempo difícil… são tempos assustadores.

Bem, agora eu vou ter carteira assinada, décimo terceiro, férias, tudo… mantendo o mesmo na hora que eu tinha como PJ. Bastante incrível, não é. E eu tô boba até agora. Obrigada, universo. Obrigada, mundo.

Por favor pandemia, passe logo e não mate os meus.

Um post indignado – pule se você não quer ler palavrão.

Eu estou completamente furiosa com a maior parte das pessoas que eu conheço, que se acham "esquerda esclarecida". Estou furiosa com os meus amigos. Estou furiosa provavelmente com você que me lê.

Eu estou furiosa porque justamente nesse momento que a responsabilidade social das empresas é mais importante, sobretudo com um governo que não assume um papel real de combate a uma pandemia que hoje, em 14 de abril de 2020, já matou mais de 1500 brasileiros, ela tá sendo demonizada por tanta gente que eu conheço.

Eu estou exausta de gente falando senso comum e errado sobre doações e isenção de impostos, aferindo conclusões erradas sobre o funcionamento de instituições filantrópicas, falseando raciocínios sobre motivações e minimizando o que é o meu trabalho 365 dias por anos, há tantos anos. Eu sei que você alecrim dourado não está falando sobre mim. Só que eu trabalho pra uma megacorporação. Eu faço gestão do programa de responsabilidade social dela. Você está falando sobre mim sim.

Toda uma sociedade que não se engaja na realidade em trazer justiça social, que não doa, que não se voluntaria, que não faz o mínimo. Achando que tudo é pouco, mas especial é o alecrim dourado que finge que é marxista e prega contra o capitalismo no twitter, instagram e whatsapp. Eu tenho vontade de mandar mil palavrões com quem fala que filantropia é só sobre relações públicas e reputação, ignorando o impacto real e o milagre que todos os dias quem tá na ponta faz, multiplicando recursos escassos, otimizando impacto e gerando, todo dia, inovação e justiça social. Se existe cultura, esporte de base nesse país, é mantido por projeto social.

E me sinto especialmente impactada, e ferida, das pessoas que são minhas amigas e fazem isso. E eu tô aqui, toda rancorosa, fazendo uma listinha de pessoas que eu não tô a fim de manter amizade, porque na real talvez nem meu amigo seja, já que acha que o meu trabalho é falso.

Eu escrevo cada linha aqui ciente de um senso de imaturidade tremenda, mas só seu sei do que eu ralo e ralei e ralarei nesse meu trabalho, que é um propósito, de todos os dias com o meu trabalho promover justiça social.

Então pra você que tá me lendo aqui, fica meu grande vai tomar no cu.

Covid-19 Diário de Quarentena – entrada 1

Você está em quarentena?Porque deveria estar. Estejamos todos. Cuidemo-nos todos.

Eu sou uma pessoa que, normalmente, já consume muita informação. Leio jornais o dia inteiro, tô sempre no twitter. Em épocas de coronavírus, isso é péssimo. 100% chafurdada no caos. Pra piorar, ele chegou no meu trabalho. Eu vou liderar um ação emergencial social sobre o coronavírus. Passei ontem o dia lendo sobre o impacto em favelas. É desesperador. Gente sem nem água corrente, sem banheiro adequado, famílias dividindo cômodos únicos.

Ontem chorei. A crise no nosso país será terrível. Tanta pobreza. Tão pouco que podemos fazer, afinal, estamos todos também nos reguardando do alto do nosso privilégio.

A única coisa que podemos fazer e nos comprometer a votar melhor no futuro. Mas o brasileiro tem dado demonstrações tão grandes de burrice, que nem essa esperança eu tenho. São tempos desesperadores, desalentadores.

Fique em casa. Não é sobre os idosos da sua família. É sobre nós. É sobre as pessoas sem acesso a infraestrutura básica para cumprir essas medidas básicas de higiene. É sobre hospitais superlotados sem leitos suficientes. Fique em casa.

Ei, você aí,

Eu uso minha terapia para decidir meus próximos passos da minha carreira. E foi nessas que eu decidi mandar um fatídico email para meus chefes da gringa pedindo um contrato de maior prazo ou virar clt (querendo mesmo virar clt). Para entender o contexto, saiba, eu sou uma pessoa com gestões diferentes, tenho chefes na gringa independentes das chefes brasileiras.

Na terapia decidi que o email tinha que ir pra gringa. Mas desde o início eu tava ciente que as chefes brasileiras ficariam melindradas, toda doídas. Dito e feito. Depois de meses, sofrimento e drama, escrevi o tal email. Esperei dias para eu ter coragem de enviar. E para a minha surpresa, um email enviado em uma terca-feira pré carnaval pros chefes gringos me levou para a sala de uma das minhas chefes brasileiras logo na sexta seguinte (vulgo hoje).

Jamais esperava tal velocidade.

Eis que me ofereceram um contrato mais longo. Lidei com o melindre com carinha de choro explicando que é muito difícil ser responsável por um orçamento que me contém e sofre corter anuais e virar pra quem sofrer esses cortes dizendo "resolve aí meu problema de querer mais estabilidade". Na real eu só achava que os gringos seriam mais generosos mesmo.

Saí da sala meio triste, queria o clt. Mas taí uma garantia de emprego pelos próximos anos. Agora resta-me resignificar essa frustração de ser querida o suficiente pra eles decidirem me manter por anos a fio e ao mesmo tempo não querer mexer no orçamento pra me ter como clt. Eu devo ficar feliz, né. Eu tenho emprego pelos próximos 4 anos.

Pelo menos eu ganho em dólar. Viva o Paulo Guedes.

(brincadeirinha, gente. fora a parte real que o dólar alto é ótimo pra mim).

Eu sigo pesada, mas bem livre

Eu tenho uma confissão para fazer e talvez você não concorde comigo, mas eu me acho linda. Eu não me importo tanto se você não concordar, porque minha beleza vem de resignificação e autoamor, então se anos atrás eu não me via com os olhos amorosos de hoje, quem é você para me ver, né.

Eu me tornei uma mulher confiante, pacote completo. Eu sou inteligente, tenho uma carreira legal e me acho bonita. Eu também vou completar 35 anos amanhã, então é bom você reparar que levou 35 anos para eu chegar aqui.

Eu não tenho nem idade e nem profissão que me permita virar influencer. Mas se eu pudesse, eu gostaria de poder influenciar toda mulher a se desenvolver no autoamor e autocuidado até alcançar esse momento de plenitude. É o momento do foda-se. É daí que o mundo não acha que você é linda se você na real é um bombonzinho?

Eu sou uma mulher gorda, de cabelo cacheado, braço muito grosso, bunda enorme e barriga saliente. Daí você já parte da premissa que meu caminho até aqui não foi fácil. Obviamente não foi.

Você não precisa ser nenhuma das coisas que eu sou para se amar, e a gente também sabe que também pode ser completamente diferente de mim e se odiar. A gente cresce em um mundo machista, racista e gordofóbico com uma pressão estética ridícula em que inclusive mulheres padrão são diariamente desafiadas. A audácia!

Minha fórmula mágica passou por me cercar de mulheres incríveis tanto na vida pessoal quanto na internet. Ao ter uma rede de apoio construtiva e que não me puxa para baixo, o reforço positivo é constante.

Inserir-me dentro do feminismo também foi libertador. Entender o patriarcado e questões estéticas e como o mundo é mais generoso com a aparência masculina, faz você começar a entender que o problema não é seu. E, por favorzinho, bora fazer sim recorte racial nisso, que se é difícil para uma mulher branca, imagina para àquelas tantas negras, asiáticas, indígenas que têm cada uma seus problemas ao não se enquadrem no padrão racial de beleza vigente e ainda virem com o combo de serem excessivamente sexualizadas.

Também me cerquei um montão de mulheres maravilhosas mais parecidas comigo, e pouco a pouco a normalidade de vê-las tão confortáveis sendo qualquer coisa, e tão bonitas ao mesmo tempo, ainda que diferentes do que é padrão, aos poucos foi resignificando tudo aquilo. Da mesma maneira que a internet oprime, dá para achar um montão de gente foda que ajuda a construir. Cabelo cacheado, gordas, mulher sem peito, tatuadas, carecas, deficientes. Tem muita gente foda acessível para normalizar a beleza que for. Ache quem te faça bem. Não mal.

Depois, é fazer as pazes com a sua história. Entender (terapia ajuda, viu) todas as influências que você recebeu para odiar tanto a você mesma. E perdoar essas coisas. Seja por pressão estética ou mera babaquice alheia, cada comentário sobre você, foi parte desse sistema machista opressor. E a gente tem que se definir além disso.

Ainda, eu parei de fugir do espelho. E das fotos. Nessas, fiz às pazes comigo. Pedi perdão por tanto auto odio. Agradeci meu caminho até aqui. E me amei. Para fazer isso exige coragem de se olhar muito até aprender a se admirar. Achar beleza no que você é nem sempre é fácil, mas traz paz de espírito. Amar quem você é. Cada curva é sua história ou conquista. Resignificar tudo.

Sua aparência não te define. Você não é só ela. Mas é também quem você é. É por onde você expressa sua personalidade. É ela quem te trouxe até aqui.

Foi ela que me fez, aos 35, também ser quem eu sou. Sou muitas outras coisas. Inteligente, destemida, leal. Arrogante também.

Ser assim não resolve os meus problemas com o mundo. Eu viajo de avião com cinto extensor a mala. Não entro em loja que eu não tenho certeza que é plus size. Médico me fala de baixar de peso mesmo não tendo nenhum exame ruim. Tem quem ache meu cabelo feio. Mas é cada foto bonita que eu tiro, rapaz.

Ah. E eu sou muito mais forte e segura para passar por todas essas coisas. Num mundo que pode me ler como qualquer coisa ruim que meu corpo seja para ele, prefiro me autodefinir. Linda.