Ele não

Eu tento entender porque votar nele. Tem gente que é porque o pastor fala, mas que religião é essa que escolhe alguém que prega o ódio?

Tem gente que é porque tem medo. Mas que medo é esse que arma mais gente, que mata mais gente, não tem plano fora o ódio?

Tem gente que é porque os outros roubam. Mas que honestidade é essa que prega mentiras, promove fake news, duvida de democracia e do processo eleitoral.

Tem gente que fala que é pela economia. Mas que plano econômico é esse que tem nome e sobre nome de um economista, mas mal é apresentado, porém que o presidente mesmo não sabe nada sobre isso.

Tem gente que fala porque é conservador. Mas tem conservadores melhores, que propõe a manutenção dos costumes sem disseminar ódio.

Ele?

Ele é religião com ódio.  Medo com ódio. Mentira com ódio. Ignorância com ódio. Conservador com ódio.

 

Fica minha súplica:

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If the sun don’t shine on you today

Essa é uma carta para você que está bem triste:

Eu tenho uma mania de fazer as coisas sobre mim, mas isso seria injusto porque nunca estive triste assim. Dias difíceis vem e vão, mas me acomete mais ansiedade do que vontade de morrer. A ansiedade parece mais vontade de implodir enquanto existo do que vontade de morrer propriamente. Então não tenho nem lugar de fala. Mas essa fala é sobre você e estar só.

É muito difícil construir um lugar feliz quando se está sozinho. A solitude só é bonita na plenitude, então não dá muito bem para encarar a solidão de peito aberto em um momento de incerteza. Porém a vida não se importa muito se é o momento certo ou errado, ela só acontece.

Eu não sei se você tem medo de isso nunca passar ou vontade que não passe mesmo, porque isso que deve ser a vontade de morrer, achar que é melhor não existir e nem ter esperança que as coisas passem. Eu tenho sempre esperança que vou ser feliz, e é por isso que não sei dizer sobre ser triste assim.

Não existe receita pra melhorar, embora o médico possa te receitar algumas coisas que balanceiem a parte química.

Agora vou ser ousada: faz diferença respirar e faz diferença gritar. Mas é uma respiração que é o centro do mundo que você precisa fazer. Você tem que inspirar e respirar e se concentrar nisso até que a única coisa que exista na sua cabeça seja o foco em respirar. Respirar pesado, super oxigenar o cérebro.

E quando você terminar, você grita.

Você que está bem triste, siga esse conselho acima. Mas não se esqueça de seguir também as recomendações médicas.  Faz diferença falar, mas não é com amigos. Agora vou te dizer uma real antes que a sua depressão faça isso parecer ainda pior: ninguém se importa tanto assim com você.

Seus amigos não vão te dar a atenção que você precisa agora, principalmente eu mesma, que inclusive me importo um tanto muito. Não é que a gente seja ruim, e que gostemos de outros mais do que de você. É que a vida não é nenhuma brisa e tá todo mundo tentando sobreviver. Ninguém sabe também escutar de verdade sem que ecoe por dentro e o risco é sempre no nosso egoísmo virar sobre nós mesmos, e não sobre você. Então faz diferença falar, mas com alguém que te tenha como prioridade te escutar. E nada prioriza mais que uma relação de trabalho. Pague pela sua escuta.

Você que está triste demais, eu não posso te oferecer minha mão ou meu ombro – seria mentira, né, já disse acima. Mas queria te lembrar que estamos todos juntos tentando enfrentar os nossos demônios.

Os meus são diferentes dos seus, mas eu também já me senti sozinha demais. E minha solidão, infelizmente, só melhorou com coragem e esforço. Eu tive que sair de casa, tive que falar mais,  tive que me expor também. Também tive que chorar muito – mesmo não tendo depressão, eu fiquei muito triste (talvez tenha flertado com a depressão).

Te desejo força. E que você consiga um dia ter esperança que vai melhorar.

Essa carta ficou uma bosta, mas como ela é sobre estar só, e não sobre você ou sobre mim, está tudo bem. Sentir solidão é uma bosta.

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Breake all the rules against our freedom

Eu realmente me importo com o direito ao aborto.

É importante para mim que as mulheres tenham direito e acesso ao aborto legal, seguro e livre. Se você não concorda, tudo bem. mas lê aqui:

Toda a responsabilidade de anticoncepção é da mulher. Diu, pílula, tabelinha, e até mesmo “garantir” que o parceiro use camisinha, é da mulher. A sociedade cobra dela isso. “Engravida quem quer, existem mil métodos”. O que pouco se discute é que nenhum deles é 100% efeitivo.

Porque engravida quem quer e anticoncepção é responsabilidade feminina, a gravidez também é só da mulher. Mães solteiras existem aos montes. Pais que nunca registraram não dá nem pra contar, estão em branco centenas de certidões de nascimento.

Não vou nem entrar na discussão dos pais que registraram as crianças mas não são pais. Eles tantos, que sumiram no mundo, não pagam pensão ou tem um papel mínimo. Não preciso nomear exemplos, todos vocês os conhecem.

Então é só dar pra adoação.

Adoação, né. O sistema de adoação, em si, é lento. anos esperando… esperando por um bebê, branco. E adivinha? A maioria já é criança, e preta. Casas lares cheios de crianças nunca adotadas, já que depois que passa dos cinco anos, as chances de adoação são mínimas. Crianças que crescem dentro do sistema e só saem expulsas, aos 18 anos.

O aborto legal, livre e seguro não é prioridade para mulheres como eu, de classe média. Eu, se vier engravidar e escolher não ter a criança, me viro. Tenho dinheiro pra uma clínica que, embora tenha seu risco, pelo preço garante alguma qualidade. Mas e as pobres?

A maior parte das mortes por aborto clandestino são mulheres pretas e pobres. Outro dia mesmo mais uma morreu com um talo de mamona no útero. mãe de 3 filhos já.

O sistema conservador afirma que quer “proteger as duas vidas”, não protege nenhuma. As mulheres pobres morrem em carniceiros, as crianças que nascem, crescem sem um sistema de segurança e qualidade de vida básicos. Tá protegido quem?

Você é contra o aborto? Então talvez o efetivo seja lutar por educação sexual de qualidade e acesso a planejamento familiar.

Porque o aborto nunca vai parar. Quem quer, aborta.

Aborta mesmo que seja colocando a sua própria vida em risco. Isso porquê muitas vezes aquela criança seria um risco para a vida – não por questões de saúde física, mas saúde mental, peso financeiro, impossibilidade de criar e falta de apoio familiar.

O aborto clandestino mata. E é por isso que o aborto é uma questão de saúde pública. E das mulheres.

Porque o homem nesse texto todo só fez uma coisa: foi ausente.

 

Skip the conversations and the “oh, I’m fine”s

Eu tinha um grupo recente de amigas. Ele parecia perfeito. Pertencimento, amor, cumplicidade. Mulheres que queriam amadurecer apoiando-se e construir sororidade. Aí teve um rolê que umas não convidaram as outras, seguido de um ano novo com um pouco de cinismo e terminada com uma viagem que o grupo que rompeu fez junto e selou: as dos grupo original ou eram falsas, ou manipuladas.
Eu lá na Bahia não tive direito nem a opinião própria. Numa amizade que eu alimentava por whatsapp, fiquei assistindo aos conflitos alheios e dores de quem fica (confusas) e quem vai (cheias de certeza) – o ficar e sair nem é metáfora, as meninas foram saindo mesmo uma a uma do grupo de whatsapp).
Passadas todas as saídas, que bom que se foram. Tão ruim conviver com quem não quer ficar. Independente dos motivos, se teve fofoca ali ou fofoca acolá, quem quer ir embora tem que ir e quem quer ficar que abra seu coração para tornar o ambiente saudável novamente (spoiler: ninguém abriu).
Eu tenho um grupo não tão recente de amigas. Ele é imperfeito.

Love was made for me and… BH

Sempre falo que é difícil mudar de cidade quando você ama muito de onde você vem. E eu amo Beagá. Eu amo ver a serra, amo as subidas e descidas, amo o clima quase sempre ameno. Amo ver o Galo quando quiser, amo ter bares e mais bares que gosto a uma caminhada de casa. Amo reconhecer os caminhos e saber as histórias da cidade, amo a comida, amo o gosto de casa. Amo minha casa, amo minha cama, amo minha mãe, amo minha irmã, amo meus gatos. Amo ter a um telefonema as pessoas mais importantes da minha vida, amo o sotaque.

Hora dessas semana que vem eu vou estar com todo o meu amor.

Tão feliz quanto chegar é a expectativa da chegada.

 

Faz de conta que seu coração tem asas e vai voar 

 

Faz de conta que você é da Bahia
Com saudade de casa
Deixa tudo aqui
Pode deixar, pode deixar, pode deixar

Faz de conta que você é da Bahia
Com saudade de casa
Deixa tudo aqui
Pode deixar, pode deixar, pode deixar

Faz de conta que seu coração tem asas e vai voar
Vai voar e vai pousar diretamente no corredor
Toque a campainha que alguém na cozinha deve lhe escutar
Bahia, Bahia, Bahia
Bahia, Bahia, Bahia

Blowing with the wind of the cure

Trigger warning: abuso sexual, estupro.

Eu tinha um segredo enorme. E eu nunca tinha contado para ninguém. Passei por dois processos de tratamento psicológico, tive melhores amigas, construí uma relação de cumplicidade com a minha mãe, mas nunca tinha conseguido contar para ninguém.

Foi só um dia ao fazer uma atividade de respiração cíclica (que eu nem acreditava muito que funcionava) que eu acessei essa memória, que estava lá no fundo, escondida em tantos anos e tantos medos, que veio essa dor imensa, o meu segredo.

Junto disso veio a compreensão que parte das minhas mágoas com minha mãe e irmã estavam em elas não saberem disso e não terem me cuidado e protegido. Eu merecia ser protegida e elas precisavam saber.

Eu sofri um estupro aos 10 ou 11 anos, antes de eu entender o que era aquilo. Foi com um tio que não era muito mais velho, mas que sabia exatamente o que estava fazendo. Foi dentro de casa enquanto meus pais trabalhavam. Eu não deixei ele fazer a mesma coisa com a minha irmã, que era ainda mais nova, mesmo não entendendo bem.

Depois que fui tendo contato com a sexualidade e também conhecimento da violência sexual, as fichas foram caindo em uma descoberta muito dolorosa sobre o abuso. Eu fui estuprada antes de saber o que sexo era.

Não tive voz de contar para ninguém nem antes e nem depois de entender. E isso me impactou de maneiras absurdas: tive sempre problemas de confiança com o sexo oposto, problemas de auto estima, rejeição ao ato sexual. Dezenas de visitas a terapeutas não me deram voz para contar o que eu tão preciosamente queria esconder de mim mesma.

Eu finalmente contei para a minha mãe, meu namorado e minha irmã. E decidi que não quero contar para mais ninguém da minha família, porque mesmo hoje, aos 33 anos, tenho medo de ser exposta, de ser julgada e de ter a veracidade disso tudo questionada.

Tenho medo que as pessoas pensem que houve consenso por eu não ter dito não, quando na verdade eu confiava em uma pessoa da minha família. Hoje eu ainda tenho vergonha.

Eu não tenho mais nenhum segredo, e ao não ter segredo, curo minha dor. Eu encontro, na fala de quem me ama, apoio e compreensão e vontade de me proteger. Eu provavelmente teria sido menos quebrada e mais feliz se tivesse conseguido lidar com isso antes. Mas tudo tem seu tempo. Principalmente as dores.

Acredite nas meninas que têm medo de seus familiares. Se importe com elas e queira saber as razões. Não confie em adultos perto de crianças. Conversa com as crianças. Explique sobre sexualidade e sobre abuso para que caso aconteça, elas saibam identificar e não fiquem caladas.

Se você mesma passou por uma situação assim, se ame, se perdoe e fale a respeito com alguém que você confie. Apesar de eu ter ignorado minhas terapeutas, o consultório pode ser o lugar seguro para você dar voz ao seu silêncio.

 

 

I’m still the one I’m after all these years

Eu sou uma pessoa muito ansiosa. E é difícil viver com isso. Eu fico sem dormir, eu faço mal a mim mesma, eu acabo estragando alguns relacionamentos.

Eu sempre fui muito pressionada dentro de casa, com padrões altos. Nem sempre os alcancei. O preço de pagar trouxe dano emocional. Mas parte da maturidade está em perceber a humanidade dos meus pais e perdoa-los nas falhas da minha criação. Não é parte essencial do meu viver tentar culpabilizar esse tipo de pressão que recebi, mas obviamente contribuiu na minha conta final para me tornar um ser ansioso.

Como quase qualquer pessoa com problema alimentar, que no meu caso é obesidade, eu como como conforto, para controlar minha ansiedade. Meus problemas pessoais e profissionais muitas vezes são confortados por comidas gostosas. Tem toda uma questão da autoimagem que a obesidade me traz e como a sociedade me percebe que acaba também colocando combustível nessa ansiedade.

Eu tenho buscado ser mais generosa comigo, sem necessariamente precisar da comida como primeira ação. Eu tenho buscado valorizar quem eu sou, como eu sou, a mulher que estou me tornando e o meu caminho. Tenho tentando direcionar amor e perdão em minha direção.

Não sei se vocês conhecem o  Ho’oponopono, que é uma técnica de repetição de um comando, tal qual um mantra, para purificar os pensamentos. Você repete: “Sinto muito, me perdoe, eu te amo e sou grato”. Independente de acreditar na capacidade do comando ou não, tão pouco a gente repete de fato essas coisas para a gente.

Não nos desculpamos a nos mesmos dos nosso comportamentos negativos e autodestrutivos, não nos perdoamos e reconhecemos nosso nível de humanidade por termos cometidos essas falhas, não nos amamos e reconhecemos que serem incríveis somos e não somos gratos a nós mesmos e ao universo por tudo que temos.

Um comportamento racional de tentar me valorizar tem sido muito rico para mim nesse combate de ansiedade.