música, pai e sentir.

eu tenho uma mania meio estranha de achar correspondência entre todas as músicas do mundo e a minha vida. como se tudo, de alguma maneira, refletisse o que eu estou sentindo. sempre tem uma frase, um verso, uma rima que cai perfeitamente em mim.

costumo acreditar que o auto-centrismo que me comete é hereditário, meu pai é mestre entre todos os ególotras. quando eu tava lá nos eua eu vi um imã que era assim: my husband and I had religious problems. he thought he was God. quase comprei pra minha mãe, mas não tive certeza se ela ia achar engraçado ou muito triste. agora que eu voltei e vi como ela está bem, ela ia ter achado graça. maior me arrependi de não ter comprado o imã.

hoje eu tava me perguntando quando é que eu vou realmente get over. fui me lembrando de pessoas que passaram na minha vida e que surpreendentemente eu superei. como eu vivo sem essas pessoas, porque elas não fazem mais falta? porque eu não morro de saudades?

Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade

Eu quis te convencer mas chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir
Pode ser a eternidade má
Caminho em frente pra sentir saudade

Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks that i’m sad
I’ll take a ride in melodies and bees and birds
Will hear my words
Will be both us and you and them together

Cause i can forget about myself, trying to be everybody else
I feel allright that we can go away
And please my day
I let you stay with me if you surrender

Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
(I can forget about myself trying to be everybody else)
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
(I feel all right that we can go away)
Pode ser a eternidade má
(And please my Day)
Eu ando sempre pra sentir vontade.
(I’ll let you stay with me if you surrender)

(marcelo camelo)

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Sobre o passado e o futuro (e o agora)

Eu ainda me pego olhando no relógio e pensando que horas são em Washington. Acho que, na verdade, isso é normal, já que hoje faz exatamente uma semana que cheguei no Brasil. Not much has happened, mas mesmo assim, parece bem mais tempo.

Por não ter muito o que fazer, os dias passam lentamente, quase se arrastando, e eu devo dizer que já estou quase completamente descansada de tudo o que passei ultimamente. Tanto a mudança quanto a viagem para a Califórnia já se parecem distantes, acho que eu “moved away” mais rápido que imaginava.

Minha mãe vem sendo compreensiva com a minha atoíce e imobilidade, provávelmente porque ela sabe que essas mudanças são duras e pegam a gente com força. Quando a minha irmã voltou do intercâmbio na Espanha, foi uma semana de cama e depressão. Extranhamente eu não lembro de como foi voltar da Argentina, acho que é porque, justamente, I get over really fast.

Eu ultrapasso e supero situações mas não pessoas. Gostaria que meus amigos dos EUA estivessem me escrevendo mais, sentindo a minha falta mais, principalmente… vocês sabe quem, mas eu devo lembrar que a vida deles tá seguindo lá, ocupada como sempre foi e que se eu estivesse lá e outra pessoa estivesse partido, lembraria dela só um pouquinho, ou até muito, mas não necessariamente ficaria escrevendo porque, oi, eu estaria realmente ocupada.

Eu tenho ido dormir muito tarde, por falta de sono mesmo de não ter feito nada o dia inteiro. Eu também tenho feito aqueles testes online dos incontáveis programas de trainee em que me inscrevi e de boa, já tô se saco cheio. Tô em uns 12 processos e eu sei que as chances de eu conseguir alguma coisa daí são muito pequenas. Igual a TT disse, no total são umas 200 vagas e um número incontável de pessoas.

Sexta eu tenho uma dinâmica de grupo de um desses processos (e devo dizer que tô morrendo de medo) e li por aí que são 200 por vaga. Claro que nisso incluí gente que foi eliminada nas primeira duas vezes, triagem de currículo e as provas, mas de boa, ainda tem uns 75 neguinhos por vaga.

Todo mundo me alertou que as pessoas são extremamente agressivas e competitivas… e eu não sei se consigo competir não, heim? Bem… é aguardar pra ver.

preocupações

eu não sei se você sabe, mas meu futuro me preocupa muito.
por mais que eu saiba das minhas qualidades e qualificações, existe a certeza que todo mundo é igual a mim.
eu sei, eu tenho meus diferenciais, mas mesmo assim…

todo mundo me pergunta meus planos, mas meu plano é só ter um plano.
o que eu quero agora é só poder fechar os olhos e saber exatamente o que estarei fazendo em seis meses.

 

eu gosto sim de ser livre, mas as vezes segurança é fundamental.

eu nunca tinha visto meu pai chorando.

 

eu não sei o que os meus pais faziam na minha infância, mas eles me passavam uma força e uma capacidade de não se abalar incrível. e hoje eu tava lá, vendo o caixão do meu avô ser fechado quando meu pai caiu em lágrimas.

é uma coisa tão intensa, ver uma das pessoas mais fortes da sua vida tão frágil, sofrendo tanto.

=/

… vô Carlos.

O meu avô morreu. O meu avô morreu e eu estou me sentindo muito esquisita.

Talvez seja culpa por não me sentir mais triste, mas ao mesmo tempo sei que estou triste, só que simplesmente não sei reagir. Fazem anos que eu não vejo meu avô que, coitadinho, nos seus últimos anos estava bem doente. Eu lembro que 4 anos atrás ele quase morreu e eu fiquei bastante triste, chorei até. Mas agora ele morreu de verdade e eu não derramei e nem pretendo derramar nenhuma lágrima.

Não é que eu seja fria, veja bem. É que depois dessa quase morte em 2004, eu só vi o meu avô mais uma vez. Ele mal lembrava quem eu era e tava bem doente mesmo. A responsabilidade do não-contato é completamente do meu pai, que digamos de passagem, é bem afastado da minha vida.

Mas quando eu era pequena, era diferente. Eu sempre passava parte das férias com meus avós. Eu dormia na cama com a minha avó e meu avô dormia no sofá. Ele roncava na cadeira de balanço e brigava comigo porque eu queria assistir Carossel bem na hora da novela das oito. Ele dizia que ele era o Carlos Jacaré. Ele passava tanto perfume de manhã, antes de ir na padaria, que até me acordava. Seu Carlos, meu avô.

Ele tinha a convicção que era descendente de imigrantes italianos, mandou um monte de carta pra Itália procurando parentes perdidos, mas o único que respondeu foi pra dizer que ninguém da família dele tinha vindo pro Brasil não. Meu avô fazia um pé de moleque com rapadura e amendoim que era um sucesso e ele era muito querido comigo.

Mas isso faz muito tempo. E agora ele é só uma lembrança. Faz tempo que ele era só uma lembrança distante.

Na minha vida ele já não estava mais.

Espero que ele tenha ido em paz.

Eu te amei, muito, vô. Faz tempo, mas eu amei mesmo. =)

o dia em que júpiter encontrou saturno (minhas partes favoritas)

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto.  (…)Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodca tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.

Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.

(…)

E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every day, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos do moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.

-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.
(…)

(Silêncio)

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Silêncio)

(…)

(Silêncio)

-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
-Natural é encontrar. Natural é perder.
-Linhas paralelas se encontram no infinito.
-O infinito não acaba. O infinito é nunca.
-Ou sempre.

(Silêncio)

-Tudo isso é muito abstrato. Está tocando “Kiss, kiss, kiss”. Por que você não me convida para dormirmos juntos.
-Você quer dormir comigo?
-Não.
-Porque não é preciso?
-Porque não é preciso.

(Silêncio)

-Me beija.
-Te beijo.

Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto.(…)Mordeu a unha junto com a chave, lembrando dela, uma moça magra de cabelos lisos junto à janela. Baixou outra vez os olhos, embora magro também. E suspirou soltando os ombros, pés inseguros comprimindo o piso instável do elevador. Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.

Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.

 

[Caio Fernando Abreu]

Em casa (minha casa?)

Brasil.

 

Enfim já não é plano, mas realidade. Plano é tudo mais. Plano, aliás, é a palavra chave. Cada pessoa que me vê me pergunta quais são meus planos de agora. Tem que ter plano pra viver? Eu não queria viver livre, pra que preciso de plano?

 

Bom, meus tios não concordam comigo. Tem que ter plano. Não tem plano? Ok. Qual é a programação? Não tem? Ok, quando você viaja de novo? Não sabe?

 

NÃO SEI.

 

Eu estou também tendo problemas com essa casa. Eu morei nesse apartamento por 10 anos (descontando meu tempo na Argentina e o dos EUA). Meu quarto era tão meu… mas eu não caibo mais nele. Ele me irrita. Porque eu tenho todos aqueles posters do Che Guevara no quarto? Quem era eu? Porque eu desenhei em todas as caixas? Porque cada gaveta é cheia de coisas inúteis? Quem era euuuu?

 

Eu quero mudar daqui. Quero mudar.

Mas a minha mãe, a minha irmã, o cachorro, meus amigos… Ai que alívio.