Para sermos mais que iguais

O nome dele é Léo. Quando eu chego, ele sempre fica feliz. Rola aquela troca de olhares básica que diz “estive te esperando” e eu respondo “pois eu cheguei”. Ele me ama, me ama. Faz tempo. Desde os meus quinze anos. Quem liga se veio de um ex rolinho, quem liga? Não eu, nem ele. Desde então ele é o mais importante do mundo todo.

E, aham, estou jurando amor ao meu cachorro.Tudo é muito pequeno perto dos amores de verdade.

e além de tudo, é lindo e charmoso.
e além de tudo, é lindo e charmoso.

Dediquei-me às suas contradições, fissões, confusões

Acho que nunca mais quero vê-lo pelo resto da minha vida. Mentira, quero sim. Oi, você está bem? É sempre tão bom falar com você. Não sabe falar de outra coisa? A gente sempre cai nisso! Ah, então não quero mais saber de você. Eu também tenho um desejo incrível de que tudo fique bem. Mas não vai ficar bem. Não quero mais saber de você. Mas sei. Vou fazer um esforço pessoal para deixar tudo normal. Vai ficar tudo normal. Não, não vai. Você não sabe lidar comigo? Percebe-se. Acho que nunca mais quero vê-lo pelo resto da minha vida…

Vou te contar: vai ser divertido

Era uma vez uma menina que detestava o carnaval. Assim como não se precisa ir em uma micareta pra saber que detesta, ela nunca tinha tido carnaval. Carnaval era no sítio, em uns bailinhos que tinha na sede e que gerou os primeiros beijos. Carnaval era na televisão, assistindo o desfile pra pegar no sono e depois, assistindo a apuração só porque é muito legal escutar: “Estação Primeira da Mangueira: DEEEEEIXXXXXX”.

Ai um dia, fora do país, quando a menina se tornava mais brasileira (quando estamos longe é que somos mais nós mesmos), uma gringa quis vir ver o carnaval. E daí gerou a obrigação de ter carnaval. Falou com uma menina, cochichou com outra e de repente, eram 5. Fora a gringa. Fora a Paulinha. Fora o “ado ado ado, o … é legal”.

O carnaval foi aquilo. As cinco e todas as insides jokes possíveis e imagináveis. Risos, cumplicidades e coisas mil geradas de uma semana 24 horas por dia do lado de quem você, honestamente, não quer desgrudar. Tinha homem? Tinha. Tinha cerveja? Também. Teve axé? Teve. E funk? Até demais.

E o que foi o mais importante? As cinco. Pra sempre.

Depois disso, já morando nos Estados Unidos, pode-se quase dizer que a menina veio só pro carnaval. As cinco, de novo. Mais um convidado especial. Sempre na temporada tem um garoto de fora que vem. E teve tudo de novo. Insides mil, amores mil. Voltaram, as cinco, mais parte repartida do que nunca. Pra sempre, pra sempre. O carnaval eram elas. E só. Bastava. É como se excluisse o resto e durante aqueles dias, só aquela realidade existisse.

Ai, daqui é uma semana, é carnaval. Daqui a uma semana, são as cinco de novo. Sinceramente, a menina está com uma preguiça gigante de cerveja em excesso, homem em excesso, funk e axé em excesso. A menina até preferiria dormir com conforto, tomar banho em um lugar limpo e passar a semana seguinte de pernas pro ar, e não nos agitos de uma cidade histórica.

Mas são as cinco. E ainda tem mais uma vindo. Uma sexta. E depois vem outra, pra ver BH. E ainda tem toda a novelinha do convidado especial da temporada. É carnaval. Pra sempre.

Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar
Deixa o barco correr
Deixa o dia raiar que hoje eu sou
Da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser

Saudades frágeis

No meu último dia de trabalho, lá nos Estados Unidos, coloquei uma flor amarela na cabeça e ia andando pelas ruas de Washington sem tristeza e melancolia alguma. Cheia de coragem, com certeza absoluta das minhas decisões, sorria naquele verão americano. Acho que toda a minha felicidade era visível nos meus olhos. Não achava que ia sentir saudades.

Mas sinto. Não do trabalho, não do que deixei. Nem mesmo do que me esperava naquela noite. Sinto saudades daquele caminho, daquelas 30 minutos que andamos entre risadas e caretas, desde a F até Dupont Circle. Das certezas que tinha, do tanto que me sentia bonita, das coisas que planejava que acontecessem aquela noite. De pensar comigo mesma “se ele não for, vou ficar feliz mesmo assim”. De saber que tanta gente que eu tinha acomulado naquele tempo ali, estava ali pra me ver. Que era o fim, mas um fim bonito.

Sem certeza de nada, só de mim mesma.

preciso de mais dias com flor amarela - e sim, a Jenn é demoniaca.
preciso de mais dias com flor amarela - e sim, a Jenn é demoniaca.

Para me acompanhar

No meu último dia em Cleveland, Ohio, bem no dia 31 de dezembro de 2007, a Margot me deu 3 cds. Cada um foi feito para mim e  nome deles é “Margot’s Mix of Good Music (and some others) for Alice, Volume I, II and III”.  A Margot escreveu em um papel a parte o nome de cada música e quem canta. Ela fez naquela mesma manhã, provavelmente depois de achar o brinco que eu tinha deixado de presente para ela e um cartão com jurinhas de amor eterno e agradecimentos mil.

Naquela manhã já nem nevava mais. Eu ia fechando a minha mala e tentava entender a minha vida. Antes de quatro da tarde eu já estava em DC, ainda tentando entender. Não tinha vazio. Mas tinha incerto. Eu estava indo embora, em tese. Ou não, como não fui.

Por alguma razão bizarra, me parece que eu sempre parei no CD I. Escutei o primeiro centenas e centenas de vez e te juro que cada música ali é uma resposta e um toque da minha gringa mais que favorita. Saudades eternas e amores absolutos pela Margot. Por alguma razão desconhecida no tempo e no espaço, os outros dois cds nunca foram escutados, até que eu os encontrei por coisa do destino (a gatinha nova estava escalado a minha torre de cds, a derrubou e me obrigou a organizar todos meus cds, um por um… e encontrei a caixa).

Então sei lá, achados esses três cds, vou ouvi-los sem parar, sem parar, o um, o dois e o três. Porque, sei lá, preciso de música que foi escolhida pra mim e não pro que eu sinto.

You gotta know when to hold (‘em)
Know when to fold ‘em
Know when to walk away
And know when to run.
You never count your money
When you’re sittin’ at the table
There’ll be time enough for countin’
When the dealin’s done.

“Every gambler knows
That the secret to survivin’
Is knowin’ what to throw away
Knowin’ what to keep.
‘Cause every hand’s a winner
And every hand’s a loser
And the best that you can hope for
Is to die in your sleep.”
 (The Glamber’s song – Kenny Rogers)