Errado e eu entendo.

Mais forte.

De Cléo Araújo.

Logo ela, que sempre foi assim, tão certinha de tudo.
A moça centrada. Séria. Crítica. Acima.
Era ela quem sabia qual era o remédio para cachorro com caganeira.
Era ela quem informava que o tamanho da pilha para o controle remoto da TV era AAA.
Era ela quem sempre se lembrava do nome daquela música, daquela banda, como é que era mesmo o refrão? E ela sabia. Que jantava franguinho grelhado com saladinha de cenoura ralada e alface americana. Que dormia cedo. Que não gostava de anel entalado no dedo nem de novela das oito.
Logo ela. Tão certa de si. Tão perfeita, depilada, macia, maquiada, esmaltada, perfumada, arredondada e penteada.
Um dia, e foi de uma hora para outra, se deu conta de que não tinha mais certeza de coisa nenhuma nessa vida. De coisas complexas às mais mundanas ações da rotina, ela simplesmente não sabia mais.
Não tinha ideia do que faria no feriado. Logo ela, a rainha dos calendários, a fonte para se saber quando cairia o Carnaval de 2017.
Era incapaz de escolher entre palmito ou aspargo para acompanhar o filé.
Não conseguia decidir se comprava uma bota de esqui, um peixe beta ou uma casquinha do McDonald’s.
Aí, tomou duas pílulas anticoncepcionais no mesmo dia. Levou uma multa de zona azul. E deixou o queijo brie embolorar na geladeira.
Foi quando começou a perder.
Perdeu o celular, o guarda-chuva, o prazo para o pagamento do IPVA, perdeu até a estréia de “Fringe”. Logo ela, a pessoa mais conectada e agendada do planeta.
Buscou análise. Acupuntura. Pilates. Viagem de navio. Aula de canto. Tomou chá branco, tequila, tomou até um passe em um centro espírita. Começou a ler horóscopo. E fez até um mapa astral. Logo ela, que nunca tinha acreditado em nada nem em ninguém, comprou uma vela de sete dias e deixou queimando em cima da geladeira do lado de uma imagem de Santo Expedito que ela comprou em uma loja de macumba.
Mas que nada… Continuava sem si. Continuava acordando suada de um cochilo com a TV ligada em “Caminho das Índias”. E os sonhos? Os mais estranhos. Num deles, Thom Yorke a sequestrava e a jogava algemada dentro de um porta-malas para fazer dela sua escrava sexual.
Nada mais fazia sentido.
Tudo se resumia àquela obsessão.
Tudo se reduzia àquela vontade, àquele desejo esquisito, errado, fora de hora. Logo ela, a pessoa menos mal intencionada que ela conhecia, agora uma moça sem centro. Descontrolada. Inconsequente. Abaixo.
Tudo se traduzia naquele amargo de foi-não foi na sua boca. Tudo se sublimava naquela necessidade de fazê-lo ouvir o que ela não poderia querer dizer. Tudo a sua volta estava completamente fora de ordem, sem pilha, sem remédio, sem música, sem rumo. E foi aí que ela percebeu. As pupilas dilatadas, as mãos suando frio e o abdômen que se contraía com vergonha do que o corpo todo tentava dizer.
Não havia mais nada que ela pudesse fazer.
Logo ela, que se controlava tanto, agora queria se arrepiar. Logo ela, que se bastava tanto, agora queria apresentar a ele suas axilas, seus tornozelos, a parte de trás dos seus joelhos e suas cicatrizes de catapora. Logo ela, que não se permitia nada, agora queria se deixar.
E ela queria muito.
E ela queria logo.

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