Olha

Um dia aquele ser que não deve ser nomeado (todo bom Harry Potter tem seu Voldermont, que faz a cicatriz doer quando está perto) disse que sempre mantinha uma lista de três coisas sobre as pessoas que as fazia individuais e únicas. No meu caso, a primeira coisa era não comer caroços de maracujá, sempre os separando em sucos, doces ou batidas. O segundo fato único estava em que eu sempre pesquisava assuntos sobre os quais não achava a resposta em conversas e dias depois vinha com a informação, ali, do nada. A terceira coisa única é que toda vez que ele me olhava diretamente nos olhos, eu fazia uma careta.

E isso se tornou verdade (ou refletiu o que era fato). Eu não sabia encarar. Até que um dia numa entrevista de trabalho com feedback, me disseram que eu desviava muito o olhar, o que passava insegurança e incerteza. Como pro entrevistador eu não podia pôr a língua pra fora, fugia da troca de olhares, do olho-no-olho, olhando pra cima pra buscar informação, olhando pra baixo pra tentar achar socorro. E a moça lá deixou bem claro “Alice, ISSO NÃO É BOM”.

A terceira verdade sobre mim era, na ralidade, um defeito. E daí eu fui pra Porto Alegre e avisei pra Bazinha que eu ia ficar encarando para treinar. Mais que isso, eu fiz amizade com um cara nos vôos (tinha uma conexão em SP e nós sentamos um do lado do outro nos dois trajetos) e avisei que ia encarar também porque era ~algo a ser superado~. Deu efeito, o sujeito decorou meu nome e até no facebook me adicionou, viramos super melhores amigos de infância.

A partir daí, tomei que meu problema na vida até aqui era esse. Como é que eu ia estabelecer qualquer relação interpessoal de qualquer gênero se eu não consiguia olhar fixamente nos olhos das pessoas? A minha psicóloga logo sugeriu um truquezinho, que é olhar no meio da sobrancelha da pessoa. Ela nunca saberia que eu não estou olhando pros olhos. Fica ai a dica pros cansados da intensidade do olhar alheio: sobrancelhas.

Comecei a praticar. Olha bem pros olhos do interlocutor. Olha fixo. Olha fundo. Foca. Olha. Sem careta. Sem desvio. Sem fuga. Só olha. Até ficar confortável. Até acostumar. Até ser normal. Até ser eu.

Daí numa tarde, em uma mesa de lanche, olham pra mim e começam a discutir sobre a intensidade do meu olhar. Que ele era profundo, bonito e fixo. Que passava firmeza. Porra, SOU UMA ÓTIMA ALUNA OU O Q. Mal aquelas pessoas sabem que é tudo treino. Que eu sou uma fraude.

Ok, contei pra elas que eu não era assim, mas que agora eu sou, né. Me tornei com a prática. Mudei meu terceiro fato. VOCÊ QUE NÃO PODE MAIS SER CITADO, você agora desconhece minhas pequenas verdades. Não sou mais aquela. Sensação de poder quanto a isso: NÍVEL MÁXIMO.

Fiquei me sentindo um pouco meu pai, que tem um olhar meio 43 (na verdade, um olhar míope), que todo mundo acha intenso. E ele sabe disso, saca? Bem leonino. Me pediram pra tirar os óculos. E falaram que meus olhos são mais bonitos ainda. Tipo, pessoas ao meu redor, me elogiando, de graça. Sem nem querer me comer (espero) ou construir minha auto-estima (tipo, amigas que elogiam sem parar: PAREM). É um mundo muito bom, muito justo, muito bonito. Pessoas do nada elogiando meus olhos: curto.

Agora eu posso tudo, tá me entendendo? Posso te olhar nos olhos a noite inteira e ficar achando que vou te passar a profundidade necessária. Vou tratar de aprender a passar direito delineador só pra poder bancar a gatinha mistério via olhar com a maquiagem mais bem feita. Ok, talvez minha auto-estima quanto ao meu olhar esteja exacerbada. É só um par de olhos castanhos escuros que não dão nem pra ver a pupila de tão escuros. Talvez por isso sejam profundos. E são pequenos, talvez por isso sejam… er, foda-se. Engraçado é que eu nunca tive olhos como ponto forte. Geral diz que homem prefere mulher com olhão. E bocão. Eis eu aqui com a menor boca do mundo e com olhos pequenos. Então tá.

Mas é que você não conhece o meu olhar.

(RÁ. Isso até eu sair de casa e descobrir de novo que, não, meu olhar não seduz ninguém. As pessoas do trabalho só tiveram um surto efusivo de histeria e resolveram falar dos meus olhos – Alice, baixando a própria bola logo após de subir, desde 1985).

ps: Olha é minha música favorita do Roberto Carlos e minha ultimate love song. óun. Ah. Escrevi o post ouvindo minha própria minha mixlist (sou foda DING DING DING). Recomendo.

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