E os que viverem saberão

o namorado da minha mãe tem um filho de 16 anos que, ao nascer, sofreu de paralisa cerebral e isso gerou conseqüências graves e eternas para a vida dele. o pedro não anda, não fala, não reconhece as pessoas, não se alimenta sozinho e passa a vida entre a cama e a cadeira de rodas, cujo o destino ele é incapaz de guiar ou sequer escolher. fica doente com freqüência, pois tem a saúde frágil. mas tá aí, há 16 anos.

obviamente, os pais e o irmão do pedro são loucos por ele. nunca seriam capazes de dizer que desejam sua morte, porque amam aquele ser que tanto demanda cuidado.

uma criança anencéfala ainda tem menos que o pedro: tem um prognóstico de vida muito menor. e um desenvolvimento bem mais comprometido. e imagina o peso para os pais de gerar uma criança, por tantos meses, sabendo que ele tem tantas limitações quanto à sua existência? e daí ter que parir a criança, registrá-la, acompanhar aquela existência limitada e todo o sofrimento envolvido, e depois ter que registrar o óbito e enterrar aquela criança? não que decidir abortar um filho gerado dentro de você seja um caminho fácil, mas que de fato é de menor sofrimento.

meus tios perderam trigêmeos, os três nascidos vivos e sobreviventes por 3, 4 horas. foram registrados e… enterrados. a dor daquilo, do fato, é 100 vezes maior do que da simples perda via aborto. porque quando existe nome e resíduo factual daquilo, a memória é mais forte. e ai vem alguém, incapaz de mesurar essa dor, que como tantas outras só entende quem sente (e eu sou ignorante no assunto, porque passo quilômetros de qualquer coisa semelhante) dizer que o sofrimento e a morte são inerentes à situação e que a vida, apesar de ser sub-vida, devem ser mantidos…

me assusta de um tanto infinito imaginar que sou rodeada por gente assim. gente que põe a vida de uma criança que não terá qualquer consciência de sua própria existência sobre a vida e sobrevivência mental da mãe, pessoa formada. gente que cospe e arrota o conservadorismo católico agora, mas vive numa hipocrisia constante em preceitos muito mais básicos que permeiam a religião. é igual a farah, minha amiga libanesa, fala de alguns muçulmanos “não comem presunto, são contra a afirmação feminina mas tão ai, todo dia, deixando de rezar cinco vezes ao dia e fazendo sexo antes e fora do casamento”.

fica ai, ao menos, o consolo da decisão tomada hoje no stf (que como as algumas recentes tanto têm me feito ter esperança na evolução do pensamento para aquele além do conservador hipócrita machista cristão – a união estável entre pessoas do mesmo sexo e a pesquisa com células tronco), fazendo ser de fórum íntimo da mulher, e não do estado, a escolha entre seguir ou não com uma gravidez de risco e com final trágico anunciado. e dai cada um cuida de si. às vezes o libertarismo faz um sentido gigantesco.

me apego à frase do ayres de britto ao peluso “(você) acha que nascemos para morrer. eu acho que nascemos para viver”.

ps: o tanto que eu ligo e me afeto com essas decisões de tendência humanistas do stf comprovam influência jurídica que eu tanto nego, mas que enfim, filha de dois advogados e irmã de uma terceira, infelizmente sempre me pega.

ps2: eu e a minha mania de ser extremamente passional com tudo aquilo que me interessa!

2 thoughts on “E os que viverem saberão

  1. Saudades de vir aqui. Principalmente pq sei que vou vir e ler algo inteligente, algo com o qual me identifico. Nem tenho nada a acrescentar além de palmas! clap clap!!

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