you only live twice

desse post da tt, fiquei pensando na minha versão de mim inventada há anos atrás. porque em 1999 o professor de redação também me mandou escrever uma carta para ler 10 anos depois.

levei muito à sério a incumbência entreguei a carta para minha mãe guardar e só me devolver quanto eu já fosse adulta (já aos 14 anos conhecendo bastante bem meu dom de perder tudo e qualquer coisa). ficou a carta lá, selada, aguardando um amadurecimento que talvez nunca tenha ocorrido.

e 13 anos depois, segue a carta com a minha mãe.

eu poderia muito bem, agora, ir lá e pedir a carta. podia ver e rir as minhas expectativas precoces sobre o que faria da minha vida. aos 14 anos eu não previa crises, nem o divórcio dos meus pais, e muito menos passar tanto tempo morando fora do país. provavelmente pretendia uma vida muito bem resolvida, cheia de realizações. fora os erros crassos – eu queria fazer desenho industrial e mestrado na espanha -, porque é muito difícil aos 14 anos acertar a profissão que você escolheu aos 17 (sem contar os desvios que fez depois disso), meu maior temor é não apresentar pro meu eu de 14 anos nenhuma realização que eu contava ter.

estourando 3 anos o prazo do projeto de vida feito ali, provavelmente não tenho a vida profissional, financeira e sentimental que queria ter. mas meu fantasma nem é esse. errar aos 14 anos quem você queria ser é muito fácil. a tt queria ter uma coleção de mastins e ter a estatua da liberdade (uma vida de realismo fantástico e um puta deboche do seu eu futuro, heim). eu tenho certeza que só queria ser uma vez feliz. e continuo querendo. o fantasma MESMO estará em ter contato com meu eu de 6 meses atrás, porque em uns dias chegará uma carta aqui que eu escrevi em janeiro.

sim, senhor. escrevi uma carta para ser lida seis meses depois. numa jogada genial, chega por correio, pra eu não ter como esquecer, e com postal de algum ponto da europa, porque meu eu de 6 meses atrás se associava com gente mais internacional. e agora é que eu quero ver, como é que eu vou me explicar pro meu eu que ainda sou eu. porque nas expectativas dela, eu seria mais magra e mais realizada integralmente do que eu sou. meu eu de 14 anos não ficaria feliz com tantos desvios. nem a de 26 quase 27 em janeiro. mas minha eu de exatamente agora só manda o recado “só eu sei como sofri e o que tive de fazer, valeu”. numa vida de tanto almejar felicidade, o que constrói é o sofrimento (sente o drama).

essa coisa de prestar contas a mim mesma, ó. pior que auditoria.

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