O meu acesso às coisas segundo eu

A internerd toda parece ter lido “A arrogância segundo os medíocres”, sobre o quanto é difícil, sofrido e cheio de percalços a vida da aristocracia cultural. Da segmentação traçada no post referido, parece ter de um lado os medíocres e de outro os cultos, já que não é questão de dinheiro, veja bem. Mas de escolha.

Quando esse texto apareceu no facebook sendo compartilhado contra/compartilhado a favor, serei bem honesta que fui toda cheia de esperanças de me identificar. Porque eu também, às vezes, fico meio com vergonha de ser chamada de arrogante por experiências que tive. E isso é muito chato, porque não é que eu seja metida, mas simplemente que essa é/foi a minha vida.

Só que eu acabei não me identificando. Porque eu não acho que as minhas escolhas, e condições também, coloquem uma bem traçada superioridade, nem mesmo cultural, que eu possa me orgulhar, com relação aos outros. E a razão é simples: tudo que eu tenho, e os outros não têm, não é porque o preço que eu gasto com uma viagem a pessoa gasta em um carro, mas porque foram me dadas escolhas. E não foi a escolha carro x viagem. Foi a de não precisar comprar um carro – porque meu pai me deu, porque eu moro perto das coisas – e ainda sim, quando eu pude, viajar. Não tive que escolher entre aula de língua e academia. Eu pude fazer os dois. E se me faltaram anos de academia e me sobraram as de língua, foi escolha de ter só um quando eu podia ter os dois.

Então o fato de eu estar vestindo agora uma camisa que eu comprei quando morei fora do país não tem nada a ver com ela ter custado menos, provavelmente, da comprada aqui, seja numa loja cara ou mesmo na esquina de casa. E sim tem mais a ver com o fato de eu ter tido acesso à educação, ter tido a oportunidade de aprender várias línguas e ter pais que puderam me ajudar a sair do país quando eu tive a chance de ir. Então o montante de dinheiro que me levou a comprar essa linda camisa roxa é muito maior que o preço da camisa roxa. E eu entendo, sim, o peso que eu vestir essa blusa tem para quem não pode fazer a faculdade que eu fiz, estudar inglês onde, quando e quanto eu estudei, e etc. E por eu ter isso tudo que eu tive, e a outra pessoa não, tive mais acesso à cultura. Assim, o vinho que eu tomo, o design que eu aprecio, o brie e os aspargos que eu como, não importa o preço. Importa é quão caro foi ter acesso a isso.

Quando eu morei nos EUA (referência básica da minha vida que dependendo de onde, eu me sinto desconfortável de mencionar), eu tinha uma amiga que era tão rica, mas tão rica, que eu, que nunca fui pobre, me senti pobre. E ela tinha uma culpa gigantesca dessa riqueza que a família dela possuía. O tempo todo ela se justificava, e sentia, sempre, um senso de responsabilidade de “dar de volta” o que ela tanto tinha. Assim, quando ela se formou em uma universidade fantástica dos EUA, ao invés de cuidar da vida, ela entrou no Teach for the Americas, um programa do governo americano que pega ps egressos fodásticos e põe eles para ensinar nas piores escolas do país por dois anos. E era com essa culpa que essa amiga, quando gastava uma nota em roupa de grife, se justificava com uma voz trêmula e sem que ninguém tivesse questionado “é que o corte é tão melhor”, mas querendo dizer que, se ela tinha dinheiro pra pagar, porque ela se vestiria com algo que não cai perfeitamente simplesmente porque o resto do mundo não pode fazê-lo?. É justo se limitar porque os outros não tem acesso? Daí, não sinto culpa de eu ter morado na Argentina e nos Estados Unidos, falar inglês e espanhol, fazer uma pós-graduação cara.

Mas isso tudo só existe porque eu tive acesso a essas coisas, e as muitas mais, enquanto o dinheiro do pai dos outros pagava o colégio e só (ou nem isso). E se um dia tudo der certo, eu vou poder arcar com 100% dessas despesas enquanto outros não vão. O investimento em mim foi alto, eu tenho quase que uma obrigação de dar retorno.

A conclusão é que eu vou seguir sentindo vergonha de, às vezes, falar que eu moro onde eu moro e de outras coisas que tenho (e hoje mesmo senti vergonha de fazer uma piadinha em que comparava Barão de Cocais ao Chile, porque na hora que saiu da minha boca eu percebi que parecia arrogante). Mas não sinto vergonha das coisas que eu tenho, das experiências que eu tive. É de eu ter podido ter isso tudo e outros não. E também não é eu ter tido tudo isso na minha vida que me faz arrogante, embora eu saber disso não impeça os outros de acharem que eu o sou.

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