Que é pra todo mundo reparar

Sou estou absolutamente desconexa.

Sou um pouco desastrada, e quando trago café pra mesa, sempre deixo cair um pouquinho e a xícara quente vem queimando minha mão. Isso que antes de começar a trabalhar aqui, eu nem sequer tomava café.

Mas eu não tomo muito, no máximo duas xícaras por dia, o que, mesmo não sendo tanto, se reflete na minha mesa, toda cheia de manchinhas de café (e também indica que a copeira daqui não passa um pano na minha mesa faz uns dias).

Agora estou tentando manter meu quarto arrumado, porque o apartamento está a venda e sempre vai gente ver. Ai fico arrumando  – embora seja naturalmente desorganizada – para as pessoas terem uma impressão melhor do apartamento. Em tese, me arrumo para as pessoas terem uma impressão melhor de mim. Ai no ônibus hoje tinha uma menina que tava muito bonita, muito arrumada, e eu pensei que eu não. Tem vários dias que eu até me dou ao trabalho, mas hoje não, por exemplo. Lembro que no dia que eu fui assaltada – e meu pai internado na UTI – eu tava me sentindo bem bonita mesmo e toda maquiada e fiquei muito puta com o pivete de me arranhar toda e de me fazer chorar – além do meu pai, né – porque de repente era só uma moça assustada, chorosa e até mesmo descabelada. As pessoas depois ficaram me dizendo que eu não devia ter enfrentado o bandido, e foi quando eu descobri que eu sou do tipo que enfrenta. O problema é que eles sempre me batem, o que deixa a nota mental de parar de ser assim, porque prefiro ser roubada do que apanhar e ficar chorando descabelada e toda arranhada.

Eu vinha pro trabalho a pé até o dia que perdi a hora – que raramente acontece, serei justa comigo – e saí de casa atrasada. Peguei o ônibus por pressa e fiquei absolutamente maravilhada com os 10 minutos gastos. Imediatamente mudei meu despertador para 20 minutos mais tarde e desde então não deixei de vir de ônibus. Desconexa, desastrada, desorganizada, desarrumada que reage a assaltos, pontual e preguiçosa. Impressão divina estou criando, só que ao contrário.

Mas outro dia li qualquer coisa que dizia que “casas muito arrumadas refletem vidas muito chatas”. Vou transferir pro resto e constatar que sou interessantíssima.

Monstros imaginários ou não

Você é de peixes e eu sou de aquário, e embora os dois tenham associação direta, o horóscopo me disse que não combinamos tanto assim. Talvez já prevendo isso, a gente passe tanto tempo em silêncio um ao lado do outro, o que na verdade só incomoda quando estamos os dois sozinhos. E por esse silêncio que eu te contei do cara que brigou comigo quando eu não sabia indicar caminhos no meu bairro, o que confesso que também fiz para te avisar pra não ficar bravo comigo caso eu te apontasse alguma curva equivocada.

Ainda que eu tenha dado a direção certa, sempre, e você tenha dito que não é obrigação de ninguém ser um GPS, confesso que fiquei um pouco magoada que você tenha dito que eu bêbada falo alto demais. A grande realidade é que isso é verdade, e até mesmo outras pessoas já me disseram isso, o que me inibe um pouco. Eu queria ser uma pessoa elegante e controlada, e não passar a imagem de louca que não sabe lidar com uns muitos mls de álcool no sangue. Acho que contribuí especialmente com a formação dessa imagem, quando, comentando 50 Cores de Cinza, falei, animadamente (quer dizer, aos berros), que a minha maior crítica ao livro é que a menina lá goza rápido demais.

Pensando bem, isso talvez tenha feito você pensar que eu seja um pouco frígida, embora o mais provável é que não, porque acho que você não prestava atenção por ser uma discussão sobre livro. Aí de novo tenho que confessar algo, é bastante muito decepcionante você dizer que não goste de ler, e, embora eu não seja frígida, devo dizer que eu broxei um pouquinho.

A grande realidade é que nada disso importa muito, porque quase todas as linhas aqui acima saíram diretamente da minha cabeça, tentando adivinhar, provavelmente sem sucesso, o que passa na sua cabeça. Daí só me sobra mesmo o horóscopo, que muito alerta, me disse “não há nenhuma identificação para uma relação duradoura”. Pode ser que seja mesmo, ou talvez nossos signos no zodiáco apenas indiquem que eu faça aniversário um mês antes que você.

Só seique assim tá bem difícil, já que nem a minha cabeça e muito menos a astrologia me apóiam.

E o que era sim, dizia não?

“Mas você não é feliz”, disse minha mãe num ato quase de crueldade. Em seguida me passou uma lista de motivos, todos muito razoáveis, para ser bem sincera. Todos reais.

Aquilo foi quase como um soco no estômago.  Um direto na boca do estômago, que te tira o ar. Mas eu não sou feliz. Eu não sou feliz. Não sou feliz.

Felicidade, na verdade, é meio questão de opção: ou você opta por sofrer por tudo e ser mais um coitado nessa vida, ou enfrenta a vida e pega o bom como compensador.

Será meu pai recebendo alta do hospital, a vitória do Galo e a alegria de descobrir que a NEG111 começa amanhã, e não hoje, suficientes para superar, enfim, a infelicidade e deixar um saldo positivo?

Não alcançando o meu melhor

Aquele tipo de pessoa que, ao você contar sobre um emprego novo, te pergunta o quanto você vai ganhar, é o que? No meu caso, essa pessoa é uma tia.

Ela vê como única opção viável de vida o funcionalismo público e seus salários exorbitantes – exploradores da sociedade e até imorais (meu mais novo argumento contrário) – como única opção de vida. Aliás, única chance de se ganhar decentemente nesse país – ah, isso e a medicina, faculdade que a filha dela cursa.

Quando eu entrei em Relações Internacionais, escutei, dela, a clássica “mas pra que estudar num colégio tão bom pra fazer uma particular?”. Fiz porque quis e meus pais permitiram, dá pra me deixar?

Uma vez no curso, vêm a pergunta “mas como alguém que faz RI não quer ser diplomata”. Não quero, uai. Dá pra ser ou tá difícil.

Ai eu fiz aquilo que gerou até horror até nos meus pais: larguei o emprego ótimo nos EUA e voltei pra terras tupiniquins: “mas agora você vai fazer concurso público, né? Você é tão preparada”.

E olha, vou te dizer que até pensei nos 14 mil reais de um concurso do Banco Central como solução pros meus problemas, mas em 3 meses de estudo eu já não encontrava mais motivação pra abrir um livro, nem mesmo o salário. “Mas é fácil falar agora, você não tem família, não tem filho” e eu pouco me importando.

“O mercado privado remunera muito mal, e o terceiro setor, Alice, pra que ir pra um que paga ainda pior?”. Porque a vida não é só isso?

Na verdade eu estou sendo gentil comigo mesma. Raramente, há não ser mais recentemente, tive respostas tão firmes e não fiquei ofendida com quem dizia coisas que nem meus pais se deram o direito de dizer.  Com o tempo eu aprendi que minha tia vê o mundo numa caixinha cujo modelo é o que ela vive, pensa e faz, e olha, se tem alguém quer encaixar nesse molde, sou eu.

“Mas não tô dizendo de certo e errado, Alice, só que sua vida vai ser mais difícil do que precisa ser, desse jeito você não vai alcançar o seu melhor”.

As meninas que vestem 34

Provavelmente, 34 foi uma numeração de calça que eu pulei na minha vida. Quando eu dei por mim, de criança, eu já tinha corpo. E o 34 não vestia minhas coxas, minha bunda, meu quadril. Aliás, nesse sentido, corpo é o que não me falta: peito, bunda, perna, braço, tudo. Tudo aqui. E nada disso cabe num 34.

Inclusive a maior parte das pessoas que eu conheço não cabem em um 34, sendo essa uma numeração que nunca sequer me incomodou. As que cabem, muitas vezes, são convidadas a visitar a sessão infantil, razão ainda maior para o 34 não assombrar.

Então eu tinha essa relação muito saudável com a numeração 34, sobretudo porque calças desse tamanho sequer devem passar dos meus joelhos, até que a uma  menina da minha equipe, que e é muito amiga das meninas do financeiro, me convidou para almoçar com elas. A parte óbvia em comum de todas elas é que, além de serem loiras, vestem 34. Mas isso eu só descobri a partir do dia em que, inocentemente, fui no tal almoço das quintas-feiras.

Elas andam juntas, sempre. Nas quintas têm toda essa cerimônia especial de ir em um restaurante que serve picanha. E comem normalmente, o que é impressionante (e picanha, sem tirar a gordura!).  Talvez a coisa mais interessante das meninas que vestem 34 é que elas não têm que fazer qualquer esforço para serem daquele tamanho. Elas são. Não é dieta. É vida. E elas param de tomar refrigerante porque estão bebendo demais, mas não por contagem de calorias. E nossa, chocolate enjoa, né. Não dá pra comer todo dia. Aham.

Nos almoços das meninas que vestem 34, têm uma quantidade infinitas de conversas íntimas sobre as quais eu jamais emiti qualquer única opinião – justamente por não saber do contexto, a vida das  meninas que vestem 34 parece ser só delas. Mas o mais importante é que nesses almoços eu descobri que duas das meninas34 têm filhos. Pois é, daqueles quadris nº 34 saíram crianças, o que me parece um tanto incrível. Não é a biologia um trem impressionante?

As meninas que vestem 34 também gostam muito de roupas e voltam do almoço gastando o tempo de loja em loja. Pensei até que talvez eu também gostasse dessa rotina, e fosse lá mais consumista, se fosse um cabide e tudo me vestisse bem, mas acontece que a vida das meninas que vestem 34 não é bem assim.  De fato, muito pelo contrário: a maior parte das lojas param no 36, olha que absurdo injusto, e as meninas 34 vêem quase todas as roupas bonitas nos cabides ficarem largas demais nelas. E frustradas comentam “só tinha 36, muito grande”. Que pena, o 36 é grande.

Mas eu não visto 36 também. E nem 38. E nem sequer 40. E podia seguir indo…

E é vendo as meninas que vestem 34 lamentarem por jeans, e shorts e saias que não couberam nelas, minha vontade é sempre apenas dizer: mas vai pra puta que te pariu.

Se a gente não vive, inventa

Eu tive um sonho que um monte de gente que eu gosto fazia uma festa surpresa pra mim e todo mundo ficava me rodeando e me dando carinho. Numa hora encontrei com um cara que nem é meu amigo, mas gosto bastante, e ele me deu um abraço tão apertado, mas tão bom, que eu acho que metade da minha dor passou ali naquele sonho.

Gente, máster de carência é isso: sonhar com colo, carinho e apoio.

(mas muito melhor do que ter qualquer sonho ruim).

com toda nossa raça

Quando eu era bebê, eu tinha muita cólica, e no meu primeiro ano de vida papai perdeu 14 quilos andando de um lado do corredor pro outro, pra me ninar e reduzir minha dor.

Hoje, depois de sair do estádio, fui ficar com meu pai no hospital e enquanto eu ajudava ele a se levantar, o Botafogo fez o gol que pôs o Galo em segundo lugar, e nós paramos o que fazíamos, olhamos pra TV e trocamos um sorriso.

Sei lá. Pode ter tudo errado. Ele pode ter me machucado mais do que ninguém. Mas amor assim, narrado em fatos, é difícil de explicar.

mas dou-te mais uma vez.

“Um passarinho cantou tão triste e tão sozinho…”

Nunca me senti tão vazia e tão pequena (menor que em qualquer poema do Leminski) e tão sozinha quanto hoje.  Porque eu só queria, mesmo, era um colo só meu. E alguém que tivesse pena, pena mesmo, dó, piedade, só de mim. E que ficasse ali do meu lado cuidando só de mim. E pensando só em mim. Mas não tem. Não tem ninguém.

O pior de tudo é que eu sei o que eu estava fazendo ali, sozinha. Eu escolhi enfrentar aquilo até o fim. Toda a burocracia, todo o Estado que na verdade inibe a cidadania. Eu queria ser a cidadã modelo. Aquela que vence o sistema seguindo ele.  Eu queria alguma justiça, algo que encaixasse nessa merda de dia em que 30 minutos sua vida vira de ponta cabeça. Que levasse mil horas, mas eu queria algo, qualquer coisa, um nada, que enfim desse certo. Fiz, tudo. Tudo o que podia. E  sozinha.

E agora eu só queria estar aliviada.

Mas segue não tendo ninguém que vai pensar só em mim.  Nem mesmo eu.