Um bom poema leva anos

Quando eu morava em DC e tinha orkut (e isso já parece ter sido milhares de anos atrás), tinha como descrição um versinho do Leminski (esse foda, esse lindo, esse incrível) que dizia assim:

Por mais que eu ande

Nada em mim imagina

O que é que tal menina tão pequena

Está fazendo assim

Numa cidade tão grande.

Era meio aquela coisa toda de viver uma vida de gente grande, fora do país e sozinha, por tanto tempo, sem me sentir grande o suficiente.

Não demorou muito pra minha mãe, angustiada, pedir para eu tirar a descrição porque aquilo dava nela uma culpa tremenda. Culpa tremenda de deixar uma menina de 22 anos ir embora correndo o risco de ser para sempre. Mas não foi.

Ai eu voltei, o que, surpreendemente, não trouxe nenhum alegria materna muito específica. Foi  mais aquela contradição básica de “mas não era melhor lá fora?”, mesmo que tão longe . Mas pra mim parecia que o perto era a solução.

Só que eis que BH, de repente, não supria as faltas que DC me trouxe: não trazia grandeza, não trazia companhia, não trazia nem o pequeno e confortável que a cidade precisava ser para eu deixar de ser, comparativamente, tão pequena. E eu fui ficando menor ainda. Eu quase parei de existir.

É muito ruim ver o que você achava que era solução se revelar um belo dum abismo. Porque de repente pára de existir qualquer porto seguro. E a gente segue não tendo nada que imagine na gente como é que é possível ser tão menina e tão pequena enquanto a cidade e o mundo seguem  tão grandes.

Só que resiliência é qualidade, ou então necessidade e aparece na hora H (ou apareceu na hora que se não viesse, ia ser mais fundo que o fundo do fundo e eu tava era ferrada mesmo). E a gente se reinventa e vai voltando a existir. Aos pouquinhos, mas de repente foi rápido. Começa do começo mesmo, um passo depois do outro e de repente vários e fica tudo bem. Tá tudo bem. Não sou mais pequena, a cidade não é mais grande e agora me sobra mais vontade de ir embora do que ficar aqui.

Mas não se preocupem. Ainda existem outros 500 haikais e uns 200 poemas do Leminski para eu me ver exatamente igual. Mas pequena não.

um bom poema leva anos

cinco jogando bola,

mais cinco estudando sânscrito,

seis carregando pedra,

nove namorando a vizinha,

sete levando porrada,

quatro andando sozinho,

três mudando de cidade,

dez trocando de assunto,

uma eternidade,

eu e você, caminhando junto.

só que sem você.

 

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