As meninas que vestem 34

Provavelmente, 34 foi uma numeração de calça que eu pulei na minha vida. Quando eu dei por mim, de criança, eu já tinha corpo. E o 34 não vestia minhas coxas, minha bunda, meu quadril. Aliás, nesse sentido, corpo é o que não me falta: peito, bunda, perna, braço, tudo. Tudo aqui. E nada disso cabe num 34.

Inclusive a maior parte das pessoas que eu conheço não cabem em um 34, sendo essa uma numeração que nunca sequer me incomodou. As que cabem, muitas vezes, são convidadas a visitar a sessão infantil, razão ainda maior para o 34 não assombrar.

Então eu tinha essa relação muito saudável com a numeração 34, sobretudo porque calças desse tamanho sequer devem passar dos meus joelhos, até que a uma  menina da minha equipe, que e é muito amiga das meninas do financeiro, me convidou para almoçar com elas. A parte óbvia em comum de todas elas é que, além de serem loiras, vestem 34. Mas isso eu só descobri a partir do dia em que, inocentemente, fui no tal almoço das quintas-feiras.

Elas andam juntas, sempre. Nas quintas têm toda essa cerimônia especial de ir em um restaurante que serve picanha. E comem normalmente, o que é impressionante (e picanha, sem tirar a gordura!).  Talvez a coisa mais interessante das meninas que vestem 34 é que elas não têm que fazer qualquer esforço para serem daquele tamanho. Elas são. Não é dieta. É vida. E elas param de tomar refrigerante porque estão bebendo demais, mas não por contagem de calorias. E nossa, chocolate enjoa, né. Não dá pra comer todo dia. Aham.

Nos almoços das meninas que vestem 34, têm uma quantidade infinitas de conversas íntimas sobre as quais eu jamais emiti qualquer única opinião – justamente por não saber do contexto, a vida das  meninas que vestem 34 parece ser só delas. Mas o mais importante é que nesses almoços eu descobri que duas das meninas34 têm filhos. Pois é, daqueles quadris nº 34 saíram crianças, o que me parece um tanto incrível. Não é a biologia um trem impressionante?

As meninas que vestem 34 também gostam muito de roupas e voltam do almoço gastando o tempo de loja em loja. Pensei até que talvez eu também gostasse dessa rotina, e fosse lá mais consumista, se fosse um cabide e tudo me vestisse bem, mas acontece que a vida das meninas que vestem 34 não é bem assim.  De fato, muito pelo contrário: a maior parte das lojas param no 36, olha que absurdo injusto, e as meninas 34 vêem quase todas as roupas bonitas nos cabides ficarem largas demais nelas. E frustradas comentam “só tinha 36, muito grande”. Que pena, o 36 é grande.

Mas eu não visto 36 também. E nem 38. E nem sequer 40. E podia seguir indo…

E é vendo as meninas que vestem 34 lamentarem por jeans, e shorts e saias que não couberam nelas, minha vontade é sempre apenas dizer: mas vai pra puta que te pariu.

6 thoughts on “As meninas que vestem 34

  1. “Talvez a coisa mais interessante das meninas que vestem 34 é que elas não têm que fazer qualquer esforço para serem daquele tamanho. Elas são. Não é dieta. É vida. E elas param de tomar refrigerante porque estão bebendo demais, mas não por contagem de calorias. E nossa, chocolate enjoa, né.” Hahahaha

    Alice, eu visto 36, às vezes 38 e calço 33. A única dieta que eu fiz na vida foi de engorda porque tenho 1.50m e nunca conseguia passar dos 43kg. Mas eu sou legal, viu? Hahaha. Confesso também que não sou muito chegada em chocolate, mas adoro ir pra cozinha fazer receitinhas doces pros amigos. Quer ser minha amiga?

  2. Bom, eu visto 34 e realmente é difícil encontrar algo que sirva, assim como deve ser pra você, mas poxa você não acha que foi um tanto quanto preconceituosa?! Temos mania de achar que preconceitos são só contra negros, pobres, gordos.. Não é assim!!! Preconceito é quando se julga e generaliza e isso serve pra qualquer “padrão”, abraço.

    1. Não acho que tenha sido preconceito, mas perspectiva mesmo. Eu disse que descobri coisas com elas e entendi a dificuldade de quem veste PP para comprar roupa. Assim como gordinha saí chorando de loja porque as coisas não cabem, descobri que minhas amigas magrelas também sofrem quando o menor vestido da loja fica muito largo. Eu não acho que preconceitos existem só de um lado e apenas na minha última frase eu desabafei, afinal de contas, reclamar da calça ficar larga com alguém que tem 10 numerações a mais é um tanto quanto sem empatia. Se você acha que foi preconceito, tudo bem. Mas eu tava especificamente falando de três garotas que trabalhavam comigo e de como eu me senti num almoço com elas.

  3. Eu visto 34 e bom, me senti muito a vontade com seu texto. Obrigada por entender e escrever sobre as garotas que vestem 34, na maioria das vezes o que escutamos é algo como “você deveria agradecer por isso” “você tem tanta sorte” e é bom saber que há pessoas que compreendem. Obrigada, de todo coração.

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