com essa eu vou desabafar meu coração

Tô usando um colar que um garoto comprou para mim em uma viagem para a Amazônia e se deu ao trabalho de pôr em um Sedex e me enviar quando eu morava lá nos EUA. Quase nunca uso o colar, pelo peso todo que ele tem. Sou meio assim. Estigmatizo algumas coisas. Tinha uma blusa que eu usei no meu first date com o gringo ex lindo do meu coração e que eu quase não mais usei, porque né, era a blusa branca de pedrinhas do first date. Não é assim que vocês fazem as coisas? Tem uma outra blusa preta, meio transparente, que foi a primeira vez que o ele reparou meus peitos, bem no dia da independência da Bolívia. Não uso mais. Sério. Primeiro porque eu acho que todo mundo vai ficar reparando meus peitos, segundo que é tão… independência da Bolívia? Aquelas saias todas são completamente o menino da faculdade. Todas as vezes que eu ficava ali, indecisa demais. O brinco vermelho, quando usada com a blusa azul (combinação de roupa estigmatizada) é a cara do dia e do cara de quem em que eu escutei que “queria te namorar, mas a gente brigaria muito, então não”. A blusa que eu tô usando agora, usei algumas vezes com uma companhia certa, meu Voldermort pessoal. Como da última vez que ele veio aqui e a gente foi na Praça do Papa… e por um dia a gente pareceu que seria, mas nunca fomos.

E ai vão. Roupas se tornando momentos, pouco a pouco. E eu comprometendo um guarda roupa inteiro.

E ansiosamente esperando por estigmatizar novas peças de roupa. Com caras diferentes.

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É esse que traz de volta

“O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas;

na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão;

como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão;

às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas;

quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina;

no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero;

nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba;

no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba;

uma carta que chegou antes, e o amor acaba;na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros;

e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo;

na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo;

às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno;

em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.”

Paulo Mendes Campos

write about it, it could be in any tense.

Num cenário em que umas 6 pessoas diziam que se consideravam muito desinteressantes para ter blogs, eu só pensava que devo ser interessantíssima, porque mantenho um há 5 anos. Eis meus 20 anos todos aqui, não tão gloriosos como um sonharia para si (alguns anos inclusive bastante capengas), mas bons. Então foi como muita propriedade que disse “eu tenho um”.

“MAS COMO?”. E me perguntam bem sério “mas sobre o que você escreve?”…  o que me fez bastante confusa, porque do que mesmo eu escrevo?  Sobre meus dramas, amores e dores, basicamente. Quase sempre sem destinatário e sem nome, não pelo mistério, mas mais porque há de se ter um pouco de privacidade até quando se publica em sentido contrário em plena internet.  E contei que sempre me aparece gente que manda por email ou comentário um “mas eu também”, o que me faz às vezes ter um pouco de medo dessas pessoas (haja loserice, heim) ou então só uma sensação bem boa de não estar só nesse labirinto de sentimentos e sensações.

“Mas por quê?”, e eu explico sem saber se vai existir alguma compreensão dos fins altamente terapêuticos de parar numa parte do dia e escrever apenas e sobre tudo que você está pensando naquele momento, simplesmente por motivos de procrastinação ou porque, oras, alguém há de “ouvir” tudo isso. Não é pela exposição, não é por consideração de quem me lê há tanto tempo. É por mim. E é sobretudo para mim.

“Se ninguém lesse, você continuara escrevendo?”. O detalhe é que escrevo para ninguém. Raras vezes termino o post e divulgo para alguma pessoa, em qualquer lugar que o seja. Se o faço, o destino é muito certo, mas quase sempre eu bem preferiria que ninguém lesse linha que fosse daqui. Sem falar que pouca gente comenta, porque também, vai comentar o que? E mais esparso ainda é meu interesse em responder comentários, porque iniciar um debate sobre mim é… bleh.

Escrever para ilustres desconhecidos me faz dotada do poder de me inventar como eu bem quiser,  enquanto escrever para partes da minha vida me submete a um julgamento balizado no que as pessoas pensam de mim e corroborado do que eu de fato sou.

O fato é que quase sempre ambos os lados, desconhecidos e conhecidos, só devem pensar uma coisa, que é inegável: PORRA, HAJA DRAMA.

Enfim, haja sim. E segue indo. Sem planos de parar. Blog querido blog.

(mas sempre fico numa nóia tremenda de  que, numa pesquisa bem feita nesse Google da vida e juntando umas pecinhas, um conhecido ilustre -e stalker- descubra que no fundo, sou assim)

Imagem semi-aleatória sobre um blog de tantos anos assim:

O que tá no ar

Por algum motivo minha psicóloga acredita que se eu levar umas fotos da minha adolescência para nossa próxima sessão, a gente vai atingir algum nível psíquico escondido que, se solucionado, me deixará menos traumatizada na vida. E na realidade, se eu tivesse uma  sessão tão agora logo, a única coisa que eu teria para falar é que estou cansada demais, e não que eu sempre fui gordinha em toda minha adolescência e nunca jamais never me senti muito bonita. Na verdade, agora, isso nem importa muito.

Tô cansada porque desde o meu aniversário, não paro de trabalhar. Daquele jeito sem fim de semana que faz você entender porque é um direito dos trabalhadores terem apenas algum dia de folga. E não bastasse trabalhar no final de semana, ainda foi daquele jeitinho excruciante de entrar às 10 e sair… às 8 da noite! Nos dias de semana ainda completei a rotina com a pós, o que me fazia chegar em casa em vários desses dias às 11 da noite. E ainda tô, no meio disso tudo, mudando de departamento. Sou tipo o Jobson (um jogador de futebol de alta rotatividade que sempre abandona os times por uso de drogas RS mas alguém sempre contrata porque é bom demais – não que eu use drogas ou que minha saída de departamento dessa vez tenha sido traumática como a saída da chefe-mirim) do meu trabalhado, passou 4 meses tô numa área nova.

Mas ai amanhã não tem sessão nenhuma porque é carnaval. E embora o meu bom senso me mandasse ficar em BH – cansaço, bloquinhos, amiga e trabalho da pós – vou para Araxá num senso de aventura que aparente me acomete em carnavais. Não que Araxá ofereça qualquer aventura, mas sair de casa já é se aventurar.

É que tanto cansaço me faz ter a sensação que a vida tem que ser vivida vivendo, e não se escondendo.

Então tchau.

I go crazy cause here isn’t where I wanna be

Outro dia chegou lá em casa a intimação de comparecimento para o julgamento do cara que me assaltou no dia que meu pai fui internado na uti. Quando a intimação chegou, minha irmã achou que eu estava sendo processada por alguém por causa de um projeto que eu tô trabalhando. A vibe atual é essa. Mas não é disso que eu quero falar.

 Olhando para aquele papel entregue pelo oficial de justiça, comentei “ao menos valeu a pena”. Cinco horas em uma delegacia, toda machucada, para fazer um BO num dia que meu pai tinha sido internado em estado grave.

 A grande realidade é que tudo isso ficou meio vazio, porque não sei se vale a pena a pessoa ser presa por ter piorado um dia muito ruim. Parecia meio uma lei de compensação de do universo aquela questão toda que eu tava fazendo no dia do assalto, de pelo menos ter o poder de solucionar um dos meus problemas. Mas já fazem quase 4 meses e meu pai tá muito melhor. Não preciso mais de compensação, a maior solução que eu queria era essa e já veio. E ainda assim vou ser obrigada a ir lá e falar que ele me bateu sim, me jogou no chão sim e me machucou sim, e provavelmente a pessoa vai levar uma sentença qualquer e vai cumprir um 1/5 dela e em um ano e pouco vai estar ai na rua, assaltando mais meninas cujos pais foram internados na uti naquela manhã.

Infelizmente, não tem compensação do universo nesse caso. Não vai ser uma coisa de karma positivo, no qual o moço vai aprender que não tá tudo bem assaltar meninas que estão esperando carona, chorando na rua, e ai depois de ficar preso, ser reinserido na sociedade belamente, talvez até participar do programa de egressos que a moça que senta atrás de mim do trabalho gere. Muito provavelmente não vai ser assim. Ele deve ser preso, cumprir a pena e cumprir um ciclo vicioso guardado para gente que assalta pessoas na rua por causa do consumo de drogas. Eu só vou lá para cumprir uma parte do processo, cumprindo meu papel de “vítima”. Sem solução.

The little things

Hoje, vindo trabalhar, em pleno sábado, fechei os olhos e me imaginei, como estive tantas vezes, andando pelos corredores da organização internacional que eu trabalhava lá em Washington. De um lado a sala do conselho permanente. Lá em cima, o salão principal.  Andando fazedo barulho com o salto, único calçado aceitável para aquele trabalho, carregando alguma impressão inútil que eu fui buscar no escritório da Secretária de Assuntos Internacionais. Piso de mármore carrara em um prédio de mais de 100 anos.

Abro os olhos e tô andando nos corredores de um prédio velho e sujo no centro de BH, fazendo horas extras de graça para um projeto que me dá só trabalho. Tô usando a roupa mais confortável que achei no armário e não passei meio miligrama de maquiagem na cara. O sapato não faz barulho no piso de pedrinhas feias enquanto me dirijo para a ONG. De um lado um sexshop e do outro um monte de lojas fechadas. Piso imundo num prédio decadente da década de 70.

E sorrio satisfeita com as decisões da vida.