alma mole, vida dura, tanto bate até que cura

Papai, mamãe e irmã são advogados formados justamente pela faculdade de direito rainha nos noticiários essa semana pelos trotes “racistas” e “machistas”. E justamente por isso em casa a discussão sobre minorias está em pavorosa. Não é de se assustar que eu tenha posição 100% distinta da mamãe, que contrariada diz “mas como foi que eu te criei?”.

Ontem mostrei para ela o folheto de um curso que vou fazer – no nível vou mesmo: já negociei com o chefe, já transferi matéria que eu tinha na data, já fiz as continhas pra ter certeza que dou conta de pagar – e ela, mais uma vez, “mas como é que você ficou assim?”.

Fiquei assim, mãe, mais ou menos quando eu tinha uns 11 anos você comprou para eu ler O Diário de Anne Frank e O Diário de Zlata, dois diários de meninas em cenários de guerras. O que pega é que enquanto Anne Frank tava lá na década de 40, numa guerra distante e passada, a Zlata tinha passado aquelas coisas uns 3 ou 4 anos antes de eu estar lendo o livro. E foi ai que eu descobri que tinha gente no mundo sendo impactado por coisa que eu nem sabia que existia – justamente porque não me impactava.

Eu também fiquei assim, mãe, porque você me pôs em um colégio muito bom e sempre me deu acesso à cultura, coisas que me deram um espírito crítico. E foi você também, mãe, que nunca me deu tudo que eu sempre quis, me fazendo dando valor real ao dinheiro, e também sempre foi justa e respeitosa no trato com minorias, o que me fez crescer achando que todos são iguais e devem ser tratados com os mesmos pesos e metidas.

Também influenciou muitíssimo, mãe, quando eu fui embaixadora jovem de uma ONG ambiental num encontro internacional aos 20 anos. Lá eu descobri que o um dos impactos do dano ambiental é social. Ao invés de pensar só em flora e fauna, eu pensei em comunidade ribeirinha. E você era a coordenadora local desse grupo (e realizava atividades em comunidades carentes e escolar ricas da mesma maneira – e eu participava, me mostrando mais uma vez esses valores sociais), e foi via você que eu tive acesso a isso tudo.

Eu fiquei assim, mãe, porque enquanto eu estudava Relações Internacionais focada na Organização Mundial do Comércio e no Fundo Monetário Internacional, eu descobri que existia o fair trade e também e entendi o impacto do aumento de superávit primário no investimento na saúde pública.

Inegavelmente, teve igual importância em eu ser assim eu ir morar fora do país e descobrir que seja nos EUA ou aqui do lado na Argentina, tem problema social e maneiras de transformar isso tudo. E conhecer gente que fazia a diferença. E foi enquanto eu tava lá na organização internacional que eu trabalhava que eu ficava frustrada por, em tese, poder realizar tanta coisa legal, mas aquilo ser freado por burocracia, política e, veja só, diplomacia.

E foi assim, mãe, que eu não só percebi que queria um mundo mais justo, como queria ser parte dessa transformação. Basicamente, mãe, eu fiquei assim porque, apesar de tudo, você sempre deixou eu ser eu.

e no final de tudo, mãe, sou assim porque tenho um propósito.

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