Agora eu vou mudar minha conduta

Uma vez há uns 5 anos (o tempo voa, afinal de contas), estava eu serelepe e feliz contando para um dos muitos gringos lindinhos o tanto que meu amor pelo Atlético era incrível. Enquanto exercia o meu “ser atleticana”, obviamente acabei esbarrando pela rivalidade local, mencionando o time azulzinho (vulgo Cruzeiro) de uma maneira típica. Expliquei que os chamava de Marias, que eram conhecidos pela frescura e todos os clichês futebolísticos que qualquer pessoa familiarizada com futebol reconhecem.

Eis que o gringuete lindinhozinho respondeu, como num soco na boca do estômago: “e essa é você exercendo a homofobia clássica latino-americana?”. MAS HEIM?

Pois é. E essa era de fato eu não apenas sendo conivente, mas exercendo de fato a homofobia. Automaticamente gerei a desculpa, que abracei durante anos a fio, que o ambiente em si meio que escusava a o comportamento pouco humano, porque futebol é bruto e ninguém ali dentro realmente confere o significado de homofobia em xingamentos do estilo “bichinha”, “as meninas”, “as marias”.

Mas o tempo passa, a gente evolui e EPA. Na verdade a ofensa não precisava chegar nem na homofobia, ela pipocava antes: A PORRA DO NEGÓCIO É ANTES DE TUDO MACHISTA MESMO (agora todos clamam: óooo, que novidade, heim. Que bobinha você, Alice).

Menina que sempre gostei de futebol (e sempre fui a campo, levada por pai, tio, avô…), sempre fui julgada por ser “fora da normalidade”. Vezes inúmeras ouvi de meninos imbecis que meus argumentos  futebolísticos– sempre sábios, afinal, rainha da razão bem aqui escrevendo o post – valiam menos porque sou mulher. Mesmo hoje, quando no estádio com minhas amigas – tão ou mais atleticanas do que eu – existe um assombro de quem nos cerca por sabermos escalar o time, não termos homem nos acompanhando e falarmos palavrão (e muito palavrão).

Acontece que o futebol é tão intolerante que ninguém quer assumir que um gay torce pelo próprio time, numa justificativa natural que futebol é “lugar de homem” (o que obviamente exclui a mulher também). E assim a gente “empurra as bichas” no estádio e bate palma achando lindo. Só que não é lindo. Porque a grandíssima realidade é que eu, minhas amigas, os gays fanáticos por futebol, a sua mãe, você e seus amigos héteros lindos e gatos e os horrorosos e chatos somos todos pessoas e temos exatamente o mesmo peso na torcida. Na hora de contar público pagante ou assinante de pay per view, na hora de somar no coro no estádio ou comprar um produto do time, temos todos o mesmíssimo peso.  E você chamar um rival, para diminuí-lo, de Rosana (ou de Maria), ou de franga (ou de menina), ou de Crugayro (ou de Gaylo), apenas coloca como xingamento ser mulher ou gay. E ai, amigs, sou eu, você e um Mineirão inteirinho exercendo nosso machismo e homofobia.  Se você acha isso ai mesmo, gay e mulheres, eca, fica nessa daí. Mas hoje eu vou mudar minha conduta.

ps: meu time exercendo toda a lindeza dele, eis que surgiu um movimento chamado Galo Queer que é contra a intolerância no futebol. Me assustou horrores o tanto que  alguns não tem mínima vergonha de exercer a homofobia.  E foi lindo ver que há esperança, já que a diretoria do time mandou a seguinte quando questionada a respeito: “A diretoria do Atlético-MG afirma que é a favor de qualquer iniciativa que venha a combater qualquer tipo de preconceito.” Vem evoluir comigo e com o Galo, gente!

One thought on “Agora eu vou mudar minha conduta

  1. ai, como eu adoro o tempo passando! :D estou emocionada com a reação dos outros times, criando suas páginas também. E pensar que há pouco tempo, menos ainda que os 5 anos, essa discussão foi tipo bombástica -estilo heteronormatividade deste ano- no nosso grupo de amigos. Essas conquistas tem um começo (posições ‘polêmicas’), um meio (conscientização geral) e uma efetivação (ações práticas que coíbem a realidade anterior). estamos no meio aqui. e temos (todos nós) muito pra aprender.

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