Eu que tinha nada

Ela fala, fala e fala. E fala mais um pouco. Ai no final alguém diz, “você devia escrever um livro de auto-ajuda”. Não é a primeira pessoa que diz isso. Não é a última. De alguma maneira daquela boca saem conselhos sensatos e dignos. Ensina amigas a se auto-respeitarem, a se porem em primeiro lugar, a terem esperança no mundo, a serem agentes de mudança na própria vida. Aconselha início e fim de namoro, sempre a rainha da razão, a melhor amiga possível. Tá querendo trocar de emprego? Vem conversar. Motivação, valorização, ajuda em decidir. É só treinar pra entrevista, vai dar certo, vai lá. Parece ter todas as respostas. Resolve qualquer problema em três dias. Manda fazer terapia. Ajuda a priorizar valores “uma ferramentinha ali que serve pra risco em projetos que, ó, é uma ferramenta de priorização incrível, vem cá”. Rainha de todas respostas, tanta certeza!

Fala muito mesmo. Mais do que devia, quase sempre. Fala tanto de si que quando o outro de fato interessa, não quero saber nada dele. São horas falando de si, uma egolatria absurda. No final não tem nada. Fala menos. Fala menos. Secretamente desmarcou a terapia porque da lista de do que tinha se comprometido a fazer, não cumpriu nenhum item. O que fez nos últimos 7 dias? Dormiu muito. Trabalhou também. Porque né, se vive uma vida inteira assim e não se faz nada. Não acorda dia nenhum com certeza de ser a mais foda ding ding e nem a mais linda do universo (mesmo porque, risos). Na defensiva o tempo todo, se esquivando de julgamentos alheios e próprios, continuamente. Um desastre para relacionamentos, perita na arte de quase ter e perder no ar, especialista em fugir na hora h de puro pânico com a mera possibilidade de se dividir com mais alguém. A vida profissional dá loops mentais impressionantes e vez ou outra é recheada de pontos que ó, mamãe não aprovou. Um poço de incerteza, o tempo todo. Ansiosa demais!

Muitas em uma, só pode ser. Mas sempre sigo falando demais. Demais.

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C’est une chose comme ça

Uma pergunta retórica: se alguém chuta minha idade muito pra menos do que tenho, é porque eu pareço jovem ou porque sou imatura?

Vamos supor que você tá no trabalho. E estão falando de você. “Nossa, a Alice é uma menina muito inteligente… sabe tanto TÃO nova, eu com 23 tinha outra cabeça”. Eu também tinha outra cabeça. Essa idade é exatamente 5 a menos do que eu tenho hoje.

Nesses 5 anos tem pós-graduação, tem anos de terapia, tem outros empregos, tem um ano inteiro nesse trabalho aqui, tem tanta coisa. Faz as contas aí, aos 23 nem dos Estados Unidos ainda eu tinha voltado. Não dá tempo nem de ter toda minha experiência se eu tivesse 23 anos. Eu não saberia tanto aos 23. Você acha de verdade que eu pareço ter 23 anos?

“Ah, você parece tão menina!”.

É oficial. É imaturidade.

(Eu sei, são elogios. Eu os pego da pior maneira e entendo como quero. Sei disso tudo. Sei que eu pareço, hoje, mais nova do que sou. Do mesmo jeito que mais nova eu parecia mais velha. Good genes, daddy would say. Mas o nome do blog é “sente o drama”, então deixem me fazê-lo em paz – If it were your party you would cry too).

 

folheando (maneira de dizer, já que kindle, te amo) o leminski novo, achei um poeminha até então desconhecido por mim com meu nome.

vibrei antes de ler, antecipando a genialidade e como seria fantástico que todos que lessem o poema de aqui em diante pensassem em mim (centro do universo, euzinha).

 

você me alice

eu todo me aliciasse

asas

todas se alassem

sobre águas cor de ALFACE

ali

sim

eu me aliviasse

 

Pensando bem, não quero que você pense em mim assim não.

Um coração partido

Esse povo todo na rua me faz mudar de opinião 20x por dia. A opinião principal que tenho, a que importa, é imutável: MAS GRAÇAS A DEUS QUE EXISTE REAÇÃO NESSE PAÍS.  Porém, a medida que os eventos vão decorrendo, vou mudando de mini opiniões, e no final tenho tantas, e tão contraditórias, que as pessoas me acham uma louca. E talvez eu seja.

Inicialmente, quando começou em SP, e era sobre os 0,20 centavos, eu vi legitimidade inquestionável. Mas defini que iria me posicionar imparcialmente, por não compreender integralmente o sistema político de SP, por ver aquele monte de bandeira do PSTU  e discordar do partidarismo. Mas ai a repressão foi violenta. Vi o absurdo de tanto gás lacrimogêneo e bala de borracha.

Deixei a cada bala de borracha, e a cada policial sem identificação, de ser imparcial. É um direito de todos protestar. A rua é a principal parte da cidade e é lá que o povo tem que estar.  É muito além do direito e ir e vir, é liberdade política. As coisas ficaram mais violentas, mais gente foi a rua. Além de legítimo, deu orgulho. Arrepios múltiplos de ver gente saindo de likes e compartilhamentos e indo pra rua.  E cartazes estilo “verás que um filho seu não foge a luta”, “meu partido é um coração partido, “uma cidade muda, não muda” me causaram total amor e comoção.

O movimento foi se espalhando pelas outras cidades, inclusive chegando à minha. Meus amigos foram a rua e eu não fui porque não concordo com tudo. A eterna busca pelo movimento perfeito, eu sei. Mas é o porém de ser eternamente crítica politicamente. Eternamente insatisfeita. De fato, meu partido é um coração partido e meus inimigos estão no poder. Os movimentos eram liderados por tendências partidárias e isso inicialmente me afastou deles. Porque eu não vejo tucanos ou políticos, direita ou esquerda como certos. Estão todos falidos.

Eu questiono sem tirar a legitimidade. Não tiro o direito do ativista partidário, e sei que quem organiza em BH o é. Óbvio que do monte de gente que tava lá, a maioria, não é. E sei que eles tão vencendo contra os partidários. Que mandam baixar bandeira. E apesar de detestar partidos, fico com um pouco de medo da geração apartidária que toma as ruas, porque a tendência também é de serem apolíticos. São jovens que falam em golpe sem saber do peso dele. Que reagem contra partidos sem saber o quão legítimos são. E que correm o risco de serem massa de manobra de qualquer oposição mais espertinha. E isso também me afasta das ruas. 

Ainda existe outra questão: a violência toda que ocorreu em BH por se invadir áreas da FIFA é mais fruto da nossa omissão que nunca fez nada antes do que, apenas, a polícia reagindo agressivamente. Fomos nós que permitimos à uma organização privada internacional que nossas leis fossem mudadas, fomos nós que deixamos nosso governo oferecer isenção fiscal à uma organização multimilionária. Mas tudo bem.  Não se construiu Roma em um dia. Mas também não vou ser eu que vou tomar gás lacrimogêneo tentando invadir algo que eu deixei acontecer.

Não aguento gente que é petista e acha que o cara que tá na rua tem legitimidade e o “riquinho” que comprou ingresso pra Copa das Confederações e vaiou a Dilma, não é parte do mesmo movimento. Odeio gente de direita que acha que os protestos tiram a realidade dos altos índices de aprovação da presidente e que na verdade é pra derrubar o governo do PT.  Acho absurdo nego que foi omisso no descrito no parágrafo acima torcer agora pra Copa ser cancelada, inviabilizando o retorno mínimo econômico às cidades que tanto investiram (investimento esse já realizado). Detesto, e acho ridículo, gente que eu admiro e gosto, dedando repórter da Globo porque estes vão sem logo cobrir o protesto, achando que uma parte da imprensa é boa e outra é má, sendo que são todas inseridas no mesmo sistema. Acho seríssimo quem acha que o partidário não tem direito de lutar por um país melhor também, sendo que nesse tempo todo que o resto “dormia”, eram eles que faziam algo. E acho igualmente irritante que partidos tentem se aproveitar de uma massa apartidária achando que finalmente conseguiram apelo. No fim, todos os extremos são de uma mesma luta. E me assusta como um tenta tirar a legitimidade do apelo do outro, embora a falta de pauta tenha sido o que levou tanta gente às ruas.

Acho igualmente legitimo se brigar por todas as causas, mas um movimento político só se torna mudança quando passa a ter uma voz só. Falta isso pra chegar lá. Pode ser que aconteça naturalmente, mas hoje, 18 de junho de 2013, ainda não aconteceu. A verdade é que falta uma direção. Seja a Copa, seja a imoralidade, seja a corrupção, seja a inflação, sejam os direitos humanos, seja a reforma política por voto distrital, seja limitar doação de campanha… seja o que for… há de se sobrepor alguma coisa. 

Pode ser que uma hora eu vá na rua. Isso na hora que eu achar que a rua me representa de fato. Ela acontece independente de mim. E mais legítimo, impossível.

Quando eu for, se eu for, vou encontrar por lá gente que eu sei que normalmente CAGA pra política. E acho bonito demais que essas pessoas estejam se envolvendo. Sério. Que se engajem. Que tenha opiniões próprias, que sejam a geração que sonhamos fazer parte.

Enquanto isso, vivo muito em paz com a minha não participação direta, ciente que faço muito no meu dia a dia pela mudança, independente do movimento. Sou politizada o suficiente para saber que sou parte do todo estando na rua ou fora dela. Porque eu já cansei desse sistema faz muito tempo.

 

 

Don’t you know it´s over?

Depois de sábado, mais ou menos às 10 horas, a prestigiada escola de negócios passará a ser conjugada no pretérito em minha vida. Dessas coisas que acabam e sobra o alívio de não ter aulas as segundas, terças e quartas (e muitas quintas) até as 22:30 da noite (sem falar em algumas sextas e sábados – esses dias completinhos na sua longuice). Mas ai todo término traz junto essa melancolia do fim: é mais um nunca mais na vida.

As coisas vão passando e deixando de ser sua realidade. Não estudo mais naquele colégio, não freqüento mais aquela universidade, não moro mais naquela cidade, não trabalho mais naquele lugar. Não vejo todos os dias meus amigos, não debato com meus professores, não divido apartamento com o Thiago ou com a Jenn, não tenho como colega o Mauricio. Ficam saudades de gente, essa coisa que existe porque a gente sabe que o mundo é muito grande e as chances de trombar de novo com as pessoas é baixa.

Meu único porém de mudanças é justamente esse eterno deixar pra trás aquilo que por determinado tempo foi seu principal ponto de apoio naquele lugar. Alguns finais são naturais, tipo esse de agora, ou formar no colégio, que a vida vai seguindo e você simplesmente abraça a mudança. Outros foram escolhas, como sair de um emprego ou ir embora de uma cidade (algumas vezes ações relacionadas) o que confere a tudo um peso bem maior.

Saber do fim é ter uma realidade sabendo que ela vai acabar. Vem com uma certa dose saudade antecipada.

Então, pois é. Tchau.

Contei pro cara da pós (de todos os apelidos, o mais genérico) que ele fez uma diferença enorme na minha vida: foi dele que partiu a mudança de brigona para a versão Alicinha paz e amor. Contei que ele me fez perceber que talvez (com certeza) eu era mesmo uma figurinha difícil de relacionar. E a culpa disso era só minha.

O cara da pós disse que eu melhorei muito sim (leia-se, hoje sou completamente adorável*) e que então ele merecia um prêmio por ter me tornado uma pessoa melhor (me poupado uma grana preta em terapia**).

Pfff. Maldito cara da pós. Das realidades, uma das quais sentirei mais saudades.

* interpretação minha, própria e livre.

** palavras dele, ipsi litteris.

e o movimento impede de sentir medo

Outro dia, durante uma negociação com um tom mais acalorado, um cara perguntou “qual sua formação?”. O que é uma breve pergunta, no caso, pareceu uma acusação. Questionar a formação de alguém numa discussão técnica significa praticamente duvidar da qualidade/validade dela, ou ao menos meu cérebro com mania de perseguição assim interpretou. Não que eu tenha motivos para me envergonhar da minha formação. Sou muitíssimo bem formada, muito obrigada. Ela não é assim, digamos, seqüencial e lógica e dentro do padrão. Mas é minha.

É igual no trabalho quando alguém me pergunta no que eu sou formada. Do outro lado esperam um sonoro “administração”, e quando vem um claríssimo Relações Internacionais, a única reação que eu colho é: “ah, então é por isso que você fala inglês!”. É. Por isso.

Em algum momento de um passado não tão remoto eu decidi que queria trabalhar na área social. Em outro momento, também de escolha, optei por me formar em gerenciamento de projetos. E as coisas foram acontecendo assim. Não tão seqüenciamento. Não tão logicamente. E fora do padrão.

Hoje em dia o futuro não me é tão claro como já me pareceu. Às vezes parece que quanto mais perto do longe, mais incerto o longe (agora perto) fica. Como se conhecer melhor te qualificasse a assumir que não se sabe porra nenhuma do amanhã. E  tudo bem. A gente era cheio de certezas aos 17. Passados 10 anos, elas são muito menores. Hoje me vejo como uma pessoa com muitas opções. E fico feliz porque ter vários caminhos é melhor que não ter caminho nenhum. Talvez essa seja a verdadeira força de motivação que eu precise: sempre trabalhar para sempre ser uma pessoa com a permissão de escolher.

ps: TI maldito bloqueou tumblr e wordpress no trabalho. É como se tivesse um decreto que dita: “Abaixo a Alice! Viva a chatice!”.

Pra quê crescer?

Tem sempre aquele momento que você questiona o tal do amor inquestionável que você sente pelas pessoas da sua família. Como agora que eu estou aqui todinha planejando vinganças secretas contra a minha irmã que sabe ser com mais frequencia que o necessário uma total bitch mandona e cretina.

Eu pretendo, não secretamente, não dar mais nenhuma carona a ela jamais. E cobrar, literalmente, cada centavo de gasolina que ela gastar no meu carro. Pretendo também ser bem chata com o namorado dela. Pretendo bater na porta do quarto quando ela estiver com ele lá dentro, só pra mandar abaixar o som. E reclamar com a minha mãe a cada coisa errada que ela fizer, que eu sei que o recado chega ao destino. E nunca, nunquinha, deixar ela comer meus miojos. E se comer que reponha com outro.

Mas ai eu lembro que eu tenho 28 anos de idade e deixo pra lá.

 

 

 

Ou não. Quanto tempo será que eu consigo ficar sem falar com ela?

*com vontade agora de contar pra ela como se conta aniversários na Coréia. Meu Deus, sou um caso perdido.