Um coração partido

Esse povo todo na rua me faz mudar de opinião 20x por dia. A opinião principal que tenho, a que importa, é imutável: MAS GRAÇAS A DEUS QUE EXISTE REAÇÃO NESSE PAÍS.  Porém, a medida que os eventos vão decorrendo, vou mudando de mini opiniões, e no final tenho tantas, e tão contraditórias, que as pessoas me acham uma louca. E talvez eu seja.

Inicialmente, quando começou em SP, e era sobre os 0,20 centavos, eu vi legitimidade inquestionável. Mas defini que iria me posicionar imparcialmente, por não compreender integralmente o sistema político de SP, por ver aquele monte de bandeira do PSTU  e discordar do partidarismo. Mas ai a repressão foi violenta. Vi o absurdo de tanto gás lacrimogêneo e bala de borracha.

Deixei a cada bala de borracha, e a cada policial sem identificação, de ser imparcial. É um direito de todos protestar. A rua é a principal parte da cidade e é lá que o povo tem que estar.  É muito além do direito e ir e vir, é liberdade política. As coisas ficaram mais violentas, mais gente foi a rua. Além de legítimo, deu orgulho. Arrepios múltiplos de ver gente saindo de likes e compartilhamentos e indo pra rua.  E cartazes estilo “verás que um filho seu não foge a luta”, “meu partido é um coração partido, “uma cidade muda, não muda” me causaram total amor e comoção.

O movimento foi se espalhando pelas outras cidades, inclusive chegando à minha. Meus amigos foram a rua e eu não fui porque não concordo com tudo. A eterna busca pelo movimento perfeito, eu sei. Mas é o porém de ser eternamente crítica politicamente. Eternamente insatisfeita. De fato, meu partido é um coração partido e meus inimigos estão no poder. Os movimentos eram liderados por tendências partidárias e isso inicialmente me afastou deles. Porque eu não vejo tucanos ou políticos, direita ou esquerda como certos. Estão todos falidos.

Eu questiono sem tirar a legitimidade. Não tiro o direito do ativista partidário, e sei que quem organiza em BH o é. Óbvio que do monte de gente que tava lá, a maioria, não é. E sei que eles tão vencendo contra os partidários. Que mandam baixar bandeira. E apesar de detestar partidos, fico com um pouco de medo da geração apartidária que toma as ruas, porque a tendência também é de serem apolíticos. São jovens que falam em golpe sem saber do peso dele. Que reagem contra partidos sem saber o quão legítimos são. E que correm o risco de serem massa de manobra de qualquer oposição mais espertinha. E isso também me afasta das ruas. 

Ainda existe outra questão: a violência toda que ocorreu em BH por se invadir áreas da FIFA é mais fruto da nossa omissão que nunca fez nada antes do que, apenas, a polícia reagindo agressivamente. Fomos nós que permitimos à uma organização privada internacional que nossas leis fossem mudadas, fomos nós que deixamos nosso governo oferecer isenção fiscal à uma organização multimilionária. Mas tudo bem.  Não se construiu Roma em um dia. Mas também não vou ser eu que vou tomar gás lacrimogêneo tentando invadir algo que eu deixei acontecer.

Não aguento gente que é petista e acha que o cara que tá na rua tem legitimidade e o “riquinho” que comprou ingresso pra Copa das Confederações e vaiou a Dilma, não é parte do mesmo movimento. Odeio gente de direita que acha que os protestos tiram a realidade dos altos índices de aprovação da presidente e que na verdade é pra derrubar o governo do PT.  Acho absurdo nego que foi omisso no descrito no parágrafo acima torcer agora pra Copa ser cancelada, inviabilizando o retorno mínimo econômico às cidades que tanto investiram (investimento esse já realizado). Detesto, e acho ridículo, gente que eu admiro e gosto, dedando repórter da Globo porque estes vão sem logo cobrir o protesto, achando que uma parte da imprensa é boa e outra é má, sendo que são todas inseridas no mesmo sistema. Acho seríssimo quem acha que o partidário não tem direito de lutar por um país melhor também, sendo que nesse tempo todo que o resto “dormia”, eram eles que faziam algo. E acho igualmente irritante que partidos tentem se aproveitar de uma massa apartidária achando que finalmente conseguiram apelo. No fim, todos os extremos são de uma mesma luta. E me assusta como um tenta tirar a legitimidade do apelo do outro, embora a falta de pauta tenha sido o que levou tanta gente às ruas.

Acho igualmente legitimo se brigar por todas as causas, mas um movimento político só se torna mudança quando passa a ter uma voz só. Falta isso pra chegar lá. Pode ser que aconteça naturalmente, mas hoje, 18 de junho de 2013, ainda não aconteceu. A verdade é que falta uma direção. Seja a Copa, seja a imoralidade, seja a corrupção, seja a inflação, sejam os direitos humanos, seja a reforma política por voto distrital, seja limitar doação de campanha… seja o que for… há de se sobrepor alguma coisa. 

Pode ser que uma hora eu vá na rua. Isso na hora que eu achar que a rua me representa de fato. Ela acontece independente de mim. E mais legítimo, impossível.

Quando eu for, se eu for, vou encontrar por lá gente que eu sei que normalmente CAGA pra política. E acho bonito demais que essas pessoas estejam se envolvendo. Sério. Que se engajem. Que tenha opiniões próprias, que sejam a geração que sonhamos fazer parte.

Enquanto isso, vivo muito em paz com a minha não participação direta, ciente que faço muito no meu dia a dia pela mudança, independente do movimento. Sou politizada o suficiente para saber que sou parte do todo estando na rua ou fora dela. Porque eu já cansei desse sistema faz muito tempo.

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s