Things I would like to never know

“Escolha não sofrer por isso”, me disseram. Como se fosse opcional apagar algumas informações da mente e simplesmente agir como se não tivesse existido. Como se fosse possível esquecer. Tem muita coisa na vida que passa, dor, por exemplo. Amor, também passa. Mas para passar tem que sentir. Nem anestesia passa indolor, o início sempre vem com a picada da agulha (ui, clichê).

Tinha uma época, quando teve aquele máster terremoto no Haiti, que minha irmã dizia que ia tomar o jornal de mim. É porque eu chorava HORRORES enquanto lia as reportagens, porque sinceramente, que mundo filho da puta que pega gente sofrida e manda desastre natural em cima???!!! Mas ai, nesse caso, dá para “escolher não sofrer por isso”. Essa distância toda facilita manter o distanciamento. Faz com que a sua mente não vá naturalmente ali no primeiro momento que você acorda. Essas coisas.

Até existem sofrimentos opcionais. Mas esse não.

Se eu tivesse um “apagador de memória”, funcionaria no caso. Mas como nos lo hay, bom. Choremos.

Cause my heart healed a little

Com medo de ficar eternamente sozinha e morrer de tédio, levei um caderno. Muito habilmente escrevi apenas 5 páginas, a maior parte delas derramadas no aeroporto e na primeira manhã. Depois minha viagem se encheu de vida e ainda ficou tudo muito bom (com o caderno-querido-diário ficando abandonado em um escaninho do quarto de hostel).

Melhor viagem ever.

No final das contas, eu gosto muitíssimo da minha companhia.    

GAAAAAAAH!!!

A ansiedade é um bichinho que nasce na sua barriga e que só fica mais quietinho quando você come chocolate. Ele fica passeando pelo seu corpo, hora pelos membros, gerando arrepios, hora na nuca, dando calafrios. Tem vez que parece até borboleta, mas a ansiedade é muito mais feia. Quando tem borboleta, você fica é suspirando, mas no caso da ansiedade, o que saí é grito mesmo.

Grito histérico. Grito agudo. Grito do fundo da alma, que na verdade é só a ansiedade querendo sair. Mas a gente vive num mundo em que não é aceitável sair por ai dando berros, então eu só fico aqui morrendo por dentro e sem poder nem comer um mísero chocolatinho.

*conforme os dois últimos posts comprovam, eu tenho muitos mostrinhos morando dentro de mim.

O grande espelho que é o mundo

Sempre fui acima do peso e tenho diversos problemas com isso, como qualquer menina gordinha tem. Insegurança, pressão social e a consciência que, daquele jeito, você não é tão bonita quanto deveria/poderia ser. Na terapia, que não é frequentada por causa desse problema, somente, minha psicóloga tentou achar muito enfaticamente traços de bullying que justificassem o monstrinho que senta no meu ombro vira e volta e diz “não, ele não tá olhando para você, você é horrorosa”. Não existe bullying fora o autoexercido. Eu te juro que, ao menos na minha frente, pouquíssimas vezes fui zoada/criticada pelo meu sobrepeso. Já ouvi gente absurda, mas acontece. Ao menos as pessoas da vida real são definitivamente menos cruéis que as da novela*.

Mas o mostrinho existe. Ele é porreta. Ele vem quando menos se espera atrapalhar a paquera. Ela me faz duvidar se um cara que eu tô saindo tá mesmo interessado em mim. Ela me fez não ter coragem de entrar em aplicativos de pegação que todas minhas amigas usaram por uns meses. Ele me fará pensar duas vezes se vou para a balada ou não, porque né, humilhação social, quem precisa?

E ai vou vivendo a vida com essa autoimagem absurdamente péssima, referendada por uma sociedade inteira. Nunca achando que sou boa o suficiente para cara nenhum. Com dó de mim mesma. Pobre de mim. Vida injusta. Nessa altura você pensa: mas porra, faz um regime. E eu te respondo: mas porra, cala a boca.

 

*se você não sabe, tem uma  gordinha em Amor a Vida que tudo que faz na vida é ser chamada de gorda. Tipo de diálogo entre o marido (que disse que a ama APESAR do peso, porque gosta tanto da personalidade que ignora o peso – afff) e um amigo (dos dois, o filho da puta, interpretado pelo Caio Castro, é amigo dos dois!!!):

“Amigo”: me diz ai como você abraça essa gordinha, seus braços não conseguem nem dar uma volta completa. Abraça uma bola dessas de ginástica que dá na mesma.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH! SOCORRO.

Too much time to waste with myself

Morei sozinha muito tempo em lugares distantes. Olhando pro passado assim, parecia fácil.  Era simplesmente bastante tranquilo andar solitária por ai, me auto descobrindo e me familiarizando, em uma experiência inteiramente única e minha, com coisas que um dia parecerem tão estranhas. Me sentia livre. Me sentia forte. Me sentia independente. Achei que eu fosse assim. Mesmo. Livre. Forte. Independente.

Mas cá estou eu há 3 dias de viajar sozinha, para uma cidade que já conheço, e me vem um embrulho no estômago daqueles que a gente tem nas primeiras vezes. De repente eu tô nervosa de ficar sozinha muito tempo.

Terei eu desaprendido a ser eu?

É contagioso

Não sei se vocês acreditam em feng shui, mas isso não fazia parte das minhas crenças. Sei lá, esse lance de, através de móveis, objetos e cores direcionar energias positivas e  etc não colava. Esoterismo tem limites, né não?

Mas enfim, eis que até o final do ano passado eu trabalhava em uma caixinha de fósforos. Literalmente não tinha lugar para todo mundo do escritório, o que fazia algumas pessoas andarem com o laptop debaixo do braço em busca de um lugar em sala de reuniões vazias (e raramente estão, adoram reuniões por aqui). Até que veio uma luz no fim do túnel com muitos metros quadrados a mais: um escritório novo, lindo, iluminado e espaçoso.

Para coroar a mudança, o diretor contratou a moça do feng shui para vir equilibrar as energias e colocar umas influências positivas. Na sala da diretoria se colocou bons relacionamentos, na área financeira, fertilidade, na área de projetos, criatividade, na área comercial, prosperidade, na operação, ordem, na comunicação, harmonia…

E tá. Tamos lá vivendo a vida. Escritório novo, uhu! De repente, no financeiro, uma grávida. Ok, bebês são ótimos. Um mês depois, outra. Pô, muito novinha, mas né, da própria vida cada um cuida. Opa, mais um mês, outra grávida. E assim, consecutivamente, tivemos 7 grávidas em uma área só. Nascerão a partir de dezembro Lauras, Bernardos, Lucas, Pedros e Alices (muito bom gosto essa última mãe, diz ai).

Começou, por motivos óbvios, a rondar no escritório a lenda do feng shui, que eu confirmaria que era apenas lenda se na primeira semana de janeiro não tivessem me apresentado o plano de aplicação. Tava lá, fertilidade no financeiro. É fato, funcionou. Ali, em olhos vistos, acometendo 80% de uma equipe (e só ela, nenhuma das outras áreas acumulou gestantes – nem sequer uma). Desesperada, a gerente do financeiro chamou a moça do feng shui e mandou um: PAAAARE. Licenças maternidades podem quebrar uma empresa, certeza.

E ai o contra-plano foi imediatamente aplicado: 7 tesouras na sala do financeiro, para N-U-N-C-A saírem de lá e uns forros vermelhos em umas cadeiras, para equilibrar não sei lá o que. Isso tem uns dois meses. E grávida nenhuma mais apareceu.

Feng shui: ciência exata.

ps: Tô criativíssima.