O dia que eu descobri que não era branca.

Não sei vocês, mas sempre me achei morena. Mesmo que eu olhasse pros meus pais e visse pessoas brancas, eu tinha uma referência própria de ser a pura cor do pecado. Talvez por ter melanina suficiente na pele e na infância gostar muito de sol, sempre tendi mais a bronzeada que a pálida, com a minha pele atingindo tons de morenos dificilmente imaginado por muitos:  sempre pulei do vermelho, por excesso de sol, pro morena tropicana eu quero sabor oooôoo ôoo.

Então vivia ai, com a minha referência morena. No vestibular metia “parda” em todos os questionários, porque como é que um cabelo chacheado, essa pele “morena” e meu nariz de batatinha iam ser outra coisa senão mistura de tudo com tudo? Minha mãe dizia que eu era branca, e eu tinha certeza que era apenas aquele preconceito intrínseco nosso de achar que ser mais pretinho é ruim.

Fui pra gringolândia e minha morenice foi reafirmada: a gente me olhava na rua e me taxava de latina. Vira e volta era abordada em espanhol  por todos, latinos, brancos e negros…e, olha tava tudo bem. Me assumo como latina com facilidade, afinal, somos todos morenos. E a maioria fala espanhol, essa generalização não me ofende.

Em DC, quando morava em um bairro negro, um local me perguntou o que eu fazia ali se era hispânica, o que, safadamente, embora honesta, disse que não era. Sou brasileira, né. Brasileira com quatro sobrenomes portugueses (e uma origem genética provavelmente intraçável – portugueses safadinhos que em 500 anos de Brasil adoraram dar uma misturadinha).

Mas então, eis que de repente, não mais que de repente, de cabelo recém cortado e claramente cara de princesa (coisa que sempre fui \o/), uma criança aponta para mim  na rua e à toda altura diz: OOOOOLHA MÃE, A BRANCA DE NEVE. Morena que sempre me considerei, meti (mentalmente) logo um MAS O QUÊ?

E daí começou pra nunca mais parar, sozinho, com pessoas não relacionadas: “você branquinha assim com o cabelo bem preto” e mil coisas do estilo. Branca. Branca. Branca. E eu confusa. Branca como? Me meti debaixo do sol até tostar para chegar e falar: SOU PRETA FÍIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. E além do mais, tenho o cabelo cacheado (CABELO NATURAL PRIDE). E nem assim as referências de branca pararam.

Até que perguntei pra geral, de uma vez por todas (tanta pergunta só significa dúvida): DE QUE COR EU SOU? E me explicaram: branca. Quer dizer, morena clara, o que, aqui, só pode significar branca.

Ufa. Ainda bem que voltaram pro morena (clara).  Eu já tava jurando que a galera tinha problema com percepção de cor, coisa e tal. Que eu era morena clara eu já sabia. Tudo volta a mais grande paz racial no meu coração.

E além do mais, o IBGE deixa claro que cor é autodeterminada, ou seja, branca? Não.

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