Who kicked a hole in the sky?

Eu tô pensando muito em aborto, principalmente por causa daquelas duas moças no Rio que foram abortar em clínicas clandestinas e desapareceram, mas não só por isso.

(calma, não tô grávida)

Tô pensando muito em aborto porque uma pessoa no facebook escreveu que era quadrada mesmo e que nunca ia aceitar que alguém aborte (como se a opinião dela sobre o corpo alheio importasse muito para qualquer alguém). Tô pensando muito em aborto porque a copeira do meu trabalho, aos 39 anos e com o filho mais novo tendo 18 anos, se descobriu grávida aos 5 meses de gestão e disse que embora fosse um desastre para a vida dela, ela nunca abortaria porque isso é pecado (e aí, infelizmente, uma semana depois ela perdeu o bebê). Tô pensando muito em aborto porque no sábado umas meninas vieram aqui em casa e por eu estar pensando muito em aborto, começamos a falar disso e quando eu disse que abortaria caso engravidasse, na situação em que me encontro hoje, elas me responderam que “Deus me livre, te mato se você fizer um trem desses” (mas pílula do dia seguinte depois de um risco de concepção – sexo sem camisinha – toma sem dó).

Eu estou pensando muito em aborto e sei que não é a opinião de ninguém que vai impedir alguém de abortar. E é a ilegalidade que faz alguém procurar meios alternativos e, portanto, inseguros. Eu estou pensando muito em aborto porque na clínica em que uma das moças, da primeira linha que contei aqui, morreu, encontraram medicamentos veterinários. E que um moço do trabalho lendo isso disse “bem feito, quem mandou matar um bebê”, claramente escolhendo uma vida que não se formou a uma vida de mulher perdida.

Eu tô pensando muito em aborto e tenho certeza que o fato de eu ser favor dele não vai fazer quem é contra abortar. Inclusive, eu sou a favor de aborto e quando eu engravidar, e sentir que seja hora que eu considere certa, eu não vou querer abortar.

E não. Eu nunca abortei. E estou convicta que abortar deve ser uma das coisas mais difíceis que qualquer pessoa pode passar. Assim como uma gravidez que não é bem vinda pode destruir a vida de várias pessoas (ou pode até mesmo ser uma benção, mas nem sempre). Mas adivinha a quem cabe decidir se sim ou se não?

(e eu já fui a favor do aborto, num caso bem específico, aqui, e vou ser sempre. Seja por gravidez de risco, estupro, falta de condições financeiras ou mera escolha).

So now and then I pour my heart out

No intervalo entre o Natal e o Ano Novo de 2012, fiquei sozinha em casa. Naqueles 5 dias de recesso eu me dediquei exclusivamente a jogar The Sims e ver filmes na internet, numa forte prática de “temos vida” (rs).

Na busca por filmes, comecei a ver pelo youtube filmes coreanos bonitinhos, descobrindo um mar de comédias românticas com olhos puxadinhos. Depois voltei a uma rotina saudável e sem muitos olhos puxados, embora deva dizer que imersão me deixou heranças: passei a achar asiáticos bonitos a partir de então.

No início desse ano, num dia qualquer sem ter o que fazer, comecei a ver pelo netflix uma série coreana do mesmo estilo (tudo isso é  kdrama, drama from korea, basicamente)… e não parei mais. Aliás, tenho vergonha nenhuma (mentira) de aos quase 30 (desespero), ter hoje grande parte do meu entretenimento advindo de países asiáticos e desenhados para gente retardada (tipo eu).

A parte que eu quero chegar, após essa auto-humilhação toda, na verdade é que ontem um personagem disse pro outro assim (só que em coreano – ah, assisto com legendas em inglês, porque, né):

– Se você tivesse sentido mais a minha falta, teria vindo me ver mais. E se quisesse mais ouvir a minha voz, teria me ligado mais.

Na hora meio que arrepiei toda. Porque sentimentos a gente mostra de forma concreta assim, ligando, vendo, sendo. E fui lá cheia do novo aprendizado e com a mesma frase para o paciente rapaz do outro lado: não liga tanto. Não vê tanto. Mimimi.

Tem vez assim que saem essas coisas maiores que eu e quase que eu termino tudo sem pensar muito. É absurdo o quão fácil para mim é terminar tudo. Acredito que é porque a certeza do coração partido me traz menos ansiedade que a insegurança do “qualquer coisa pode acontecer”, mas não se preocupem, já estou em tratamento psicológico™.

O rapaz, já encaminhando um processo de canonização, porque só santo para dar conta de tanta loucura, respondeu que provavelmente eu tinha razão. E disse que ia tentar ser melhor. Sem drama. Sem me deixar terminar nada. Sem virar briga.

Tem vez que a vida é melhor escrita que os kdrama (quase sempre, na verdade. Mas difícil mesmo é arriscar-se a viver).

Eu já disse que sempre

Meu cérebro é monotemático. Se meu inglês tá melhor, meu espanhol não desenrola. E se o espanhol tá em voga, o inglês fica aquela beleza. Se eu gostei de uma canção, escuto só ela. E meu cantor favorito da semana reina sozinho no universo. Invento de ver filmes coreanos e só consigo pensar nisso. Até umas palavras na língua já aprendi.  E se me apaixono por um livro troco o sono por leitura. Stalkeio qualquer coisa que me interesse, inclusive a biografia de atores, diretores, personagens e anônimos que apareceram no jornal. Ontem mesmo foram horas ouvindo a voz fina em mil entrevistas de um jogador de 19 anos, porque como é que eu não fico obcecada com alguém que marca dois gols no rival e dá entrevista chorando?

E é por isso que eu passo tanto tempo pensando em você. Porque meu cérebro é monotemático.

Eu pego e te pisco, belisco, petisco, me arrisco e te enrosco.

Me deixa encher sua vida de poesia, música, barulho e cor? Se você deixar eu ponho rima e para não ficar muito brega, vario os sonetos com uns hakais modernistas, que olha, são de dar taquicardia e até mesmo falta de ar. Um pouco de roxo, lilás e rosa do seu lado ficam bem, você não acha? Eu acho que sim, você já disse que gosta das cores em mim. Ponho branco às vezes, é promessa. Deixa eu te mostrar as canções que me fazem pensar em você e te mostrar os versos exatos em que eu te juro, parece que tavam pensando na gente. Sério, olha esse aqui.  Eu quero muito te explicar o contexto político dessas letras do Chico, eu posso? É que a filha do general… Não é ruim, muito pelo contrário, que eu tenha citações e explicações de músicas, livros e poemas para um montão de coisas, não é? Essa intensidade toda que eu gosto do que eu gosto, te assusta? Desliga essa tv que eu quero conversar. Presta atenção só em mim.  E daí que eu rio muito alto, choro muito alto, falo muito alto se o importante é que eu suspiro baixinho? Deixa eu encher sua vida?

Meet my father

Não sei se foram duas semanas ou seis meses, mas eu tinha uma rotina. Como ele me ligava todo final de domingo para saber como tinha sido a rodada do campeonato brasileiro, eu me preparava.

Despertava os domingos lendo os cadernos de esporte de três jornais para me inteirar dos jogos do sábado.  E daí começava uma jornada de acompanhar toda a programação esportiva da televisão e rádio, fazendo inclusive anotações do que achasse importante e atualizando a tabela do campeonato na mão mesmo, isso em épocas que a internet não era tão de fácil acesso assim.

Fazia 5 dias que eu ligava quase que diariamente pro meu pai, tentando agendar um horário para um conversa que eu me devo há tempos. Me enrola horrores. Não tem tempo nunca. Não liga de volta jamais. Me deu um bolo sexta-feira. Ontem a noite o telefone tocou para “dizer que lembrou que tinha esquecido”. Mas na verdade queria saber a quantas andava o jogo do Galo.

Agora que sou um pouquinho maior (tipo quase 20 anos), já me dou conta. And it breaks my heart.

(Jorge Ben diz numa canção que ama a Teresa e depois, mas bem depois, vem o Flamengo. Tá na listinha das juras de amor mais lindas do mundo).

Ya no soy yo?

Uma amiga se casou.

– Meus parabéns, Sra. “sobrenome do marido” – disse a outra.

E meu corpo estremece com mil calafrios.Me assusta quão fácil a gente brinca de ser machista.

Eu tenho um medo muito grande de ser sozinha. Mas tenho um medo maior ainda (e já falei disso aqui), de ter alguém mas não amar ou não ser amada – e daí preferiria ser só. Agora adiciono outro medo: deixar de ser eu por meio do amor.Sabe essa gente que se anula quando ama? Não quero ser. Uma coisa é mudar de sonhos juntos, fazendo novos. Fazendo nossos. Outra coisa é sonhar o sonho do outro. 

Daí justamente quando eu tava tendo ainda mais calafrios infinitos por outra amiga que meteu “agora tem que jantar todo dia na mesa”, li numa chamada prum post do lugar de mulher, melhor lugar da internet atual, uma coisa que queria mandar para as minhas amigas: a importância de buscar o protagonismo de sua própria vida – em vez de ser coadjuvante da vida de seu homem.

Talvez o meu medo maior não seja não ser amada, nem demais ou nem de menos. Mas não amar a mim mesma.