O homem que diz “sou”, não é, porque quem é mesmo “é”.

Dia desses tava so-fren-do no trabalho, tentando entender umas paradas que não faziam o menor sentido, alhinhar planejamento, matriz de responsabilidade e um orçamento (MEU DEUS, PORQUE INVENTEI DE VIRAR GESTORA DE PROJETOS?!), quando ouço um zum-zum-zum interrompendo meu raciocínio. Era uma colega conversando lá fora, pertinho da minha janela, com dois aprendizes. Fora o incômodo tudo bem. Mas daí fiz um esforcinho e ouvi o tema: sendo evangélicos, rechaçavam Darwin. Isso mesmo. Coleguinha pregava para adolescentes o criacionismo. VÉI. Naquele momento descobri que existem coisas que me ofendem no discurso alheio (preconceitos em geral e opiniões absurdas), mas tem coisas que FEREM O MEU SER. Tipo, para mim a teoria da evolução é tão fato quanto ao céu ser azul. E tava lá nego dizendo que não acredita na ciência porque é mais seguro aplicar o bom senso que vem da… BÍBLIA.

Minha reação imediata foi abandonar meu trabalho (planilhas q) e meio sem ar e com crise de ansiedade fui procurar gente para compartilhar (eu e minha necessidade de dividir). Cheguei agitada e atropelando as palavras, falando muito rápido, mais que normalmente. Custaram para me entender.

– UAI, ALICE, CÊ NÃO SABIA QUE A MENINAS ERA CRENTE?

Uai, gente. Sabia. Mas porra. PORRA. DESCENDEMOS DIRETO DA COSTELA DE ADÃO ENTÃO???? SER EVANGÉLICO SIGNIFICA ABRIR MÃO DA INTELIGÊNCIA?

Daí o momento de agitação passou quando uma outra colega perguntou quem era Darwin. E chorei um pouco por dentro porque MEU DEUS, percebo que falhamos miseravelmente como sociedade quando nosso sistema educacional é tão ruim. A pessoa em questão tem curso superior e especialização. PERDOAI-NOS.

Depois ainda emendei uma crise, interna, na qual eu, que me acho tão cool, descolada e moderna (nas opiniões), fico pregando liberdade de expressão e diversidade por aí, sendo que a opinião do outro não apenas me ofende, como me faz duvidar da inteligência alheia. Qual a diferença entre eu e o Malafaia (além da óbvia, já que sabemos que eu sou um ser um tanto quanto mais razoável e ele um tanto quanto mais MILIONÁRIO)?

Ainda estou tentando desvendar como me comportar em um mundo em que eu acho que tô mais certa que um monte de gente, mas que pelo que prego tenho que respeitar a opinião alheia (mesmo que ela me dilacere por dentro). Tá difícil.

One thought on “O homem que diz “sou”, não é, porque quem é mesmo “é”.

  1. Senti exatamente a mesma coisa quando uma colega jornalista me perguntou se a Revolução de 30 tinha sido importante pro país. Quase caí pra trás. Oi, queridinha? Essa revoluçãozinha aí (golpe, bem na verdade), SÓ colocou um tal de GETÚLIO VARGAS no poder, onde ele ficou QUINZE ANOS e depois voltou por mais TRÊS. A mesma pessoa depois me perguntou o que era CLT. Ai, gente, sério? E a tipa frequentava a mesma universidade pública que eu, trabalhava no mesmo lugar e estudou em colégios beeem melhores. Ó, céus, ó vida.

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