Não o suficiente

Dia desses dei uma entrevista no rádio. Foi uma coisa mínima, de 5 minutos de duração em que eu divulgava um projeto que eu gerencio, e o entrevistador não me deixou falar. Quando tava indo pra rádio avisei minha mãe e o namorado, e minha mãe deixou a hora do programa passar, distraída, enquanto o namorado, demostrando o compromisso necessário, ouviu minha mini-exposição. Quando saí da transmissão, ele me perguntou por mensagem:

– O que aconteceu que você mal falou?

No trabalho todo mundo foi muito legal, xingando o locutor que não me deixava falar e dizendo que a minha voz, veja bem, essa mesmo de criança/taquara rachada, ficou muito bonita no rádio.

O diretor pediu o áudio, mas a rádio disse que tinha dado problema no sistema bem naquele dia (desculpa padrão ou razão real, nunca saberemos), e eu fiquei bem aliviada de meus superiores (e eu mesmo, numa auto-vergonha-alheia – aquilo que eu não queria que tivesse sido eu) não poderem me escutar durante muito poucos minutos.

À noite, assim, sem muito esforço ou contando nada muito complexo, anunciei em um grupo de whats app de amigos um “dei uma entrevista na rádio hoje”. Fui sumariamente ignorada.

Minha vida pública é um fracasso.

(mentira, a mãe de uma amiga ouviu o programa e ligou pra ela pra contar que tinha ouvido meu nome  na rádio. A amiga me ligou para dar parabéns).

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Are you in the mood for a little drama?

Quando eu era adolescente, imagino que a minha mãe achava que eu era meio burrinha (no sentido de penar para passar de ano mesmo) para perder um ano de colégio por causa de intercâmbio, então ela resolveu trazer o intercâmbio até mim. Quando eu tinha 17 anos desembarcou em terras brasileira uma intercambista neozelandesa, que foi, naquele ano, meu pior pesadelo.

No início eu até brinquei de professora, ensinando-a português e tentei dividir meus amigos com ela, mas rapidamente percebemos que não tínhamos muito a ver e o amor brasileiro por gringos fez com que ela tivesse amigos por todas as partes.

Enquanto eu sofria com toda a tensão vestibulanda, sofria com meu peso, sofria com aulas a noite e provas infinitas, sofria até mesmo tomando recuperação de física APÓS já ter passado no vestibular (ó céus), a gringa saia todo fim de semana, andava por ai toda loira magra de olhos azuis e ainda tinha o fator minha irmã mais nova, na época pentelhíssima com seus 13 anos, que repetia que gostava mais da neozelandesa do que de mim a todos os momentos. Ó vida.

Eu brigava HORRORES com a gringa, coitada. E era grossa com ela e todas essas coisas que uma injustiçada e sofredora de 17 anos se acha no direito de fazer com as pessoas.

Os anos passaram (aleluia) e eis que eu tava morando nos EUA na mesma época que ela. Trocamos e-mails infinitos, ela em Washington (estado) e eu em Washington (cidade) –apesar dos nomes iguais, o google te confirmará: extremos opostos do país. Marcamos que ela viria em um final de semana, ficaria lá em casa, mil planos. Passou sexta, sábado, domingo e absolutamente nada dela. Fiquei mais preocupada do que bolada, e enviei um email “por favor, me diga que você não morreu?!?!?”.

Acontece que naquele fim de semana ela terminou um namoro de 7 anos (eles tinham se conhecido durante o intercâmbio no Brasil!!!) e ela se fechou do mundo. Ok, ok. A vida é uma merda às vezes.

Faz uma data que a gente sabe que ela mexe com Olimpíadas, viajando o mundo todo (o que gerou o mais triste de todos os comentários maternos: “porque o emprego dela é tão legal e o seu é tão ruim?” – obrigada, mãe) e que eventualmente ela chegaria aqui.

Chegou. Semana passada ela divulgou uma vaga para ser assistente dela que paga SETE PAU e exigia como qualificações quase tudo que eu tenho, menos a parte de já ter trabalhado em organização de grandes eventos esportivos (que depois de PAN e Copa devem existir aos montes). Claro que a parte de eu ser gestora de ONG tem nada a ver com isso também, mas o quê que tem?

Eu sabia que não tinha muitas chances, por nunca ter trabalhado em evento megalomaníaco, e que também por saber que o status de irmã de intecâmbio/inferno da vida não eram um plus. Assim, 12 anos depois de infernizar minha vida, a intercambista nem para uma entrevista me chamou.

Blé.

(apenas fatos, sem tanto sofrimento, finalmente – só um orgulhuzinho ferido)

Era para fazer da nossa voz uma só nota?

Um dos meus projetos tem uma cidade específica e toda a equipe de lá está trocando e-mails se parabenizando por terem concluído mais um ano e juntos terem trabalhado por uma sociedade mais justa, menos desigual, um mundo melhor, com mais esperança. É uma grande festa por terem feito a diferença.

Quando fui responder eu parabenizei pelo alcance das metas e falei em feedback positivo, resultados, mensagem de segurança ao financiador, inovação e qualidade.

O QUE EU ME TORNEI?????

(comentei com uma colega a crise e ela respondeu “de sonhadora, você virou gestora”. :/ ).

Será que errei?

Eu sou ciumenta.

Quem lê aqui e me conhece pessoalmente, sabe que é verdade. Tenho ciúmes de família, amigos e coisas. De namorado então? Trabalhamos sim. E ainda trabalhamos tudo na birra, porque né, maturidade, aqui não te temos.

Mas eu também sei que não adianta eu pirar e ser louca e surtar porque né, faz as coisas quem quer e se for bem feita eu não vou descobrir nunca, então tamo aí nessa nave louca chamada relacionamento. Só que por mais que eu tente manter o bom senso, nem sempre ele aparece. E eis que eu consegui o feito de conseguir que o rapaz deletasse do facebook uma moça que curtia tanta santa foto que ele subia.

Ao invés da sensação de vitória que controle do outro poderia ter, senti foi vergonha. Muita. Vergonha de ser louca, de ser abusiva, de ultrapassar os limites e principalmente de assumir que se ele quisesse o oposto, eu acharia absurdo e não deletaria porcaria nenhuma (numa acusação agressiva de POR ACASO VOCÊ NÃO CONFIA EM MIM???).

São tantas contradições que há quem pudesse dizer que eu não deveria ter me auto-dado alta da terapia. ENFIM…