Faço promessas curtas tão malucas quanto um sonho sem nome

Eu não sei se vocês sabem, mas na Costa Rica e na Nicarágua não existem endereços. As referências são todas de distância com relação a pontos. “Do cemitério, 200 metros sul, 300 metros oeste, após a linha de trem, na casa branca de dois andares” ou “125 metros a direita da Pizza Hut na casa com colunas amarelas”. As ruas não têm nomes, muitas casas não têm números. Parece louco, mas falam que aquilo estabelece um senso de comunidade. Tem políticas públicas imensas, lideradas sempre pelos correios (pobre correios), que pensam em dar nomes pras ruas, números pras casas, CEPS para as regiões. Custa caro, mas vai economizar dinheiro com a eficiência no futuro (não dizem isso todas as políticas públicas?). Obviamente o trem não saí do papel, porque quem perderia esse charme todo?

Eu não sei se vocês sabem, mas a minha vida hoje não tem qualquer planejamento. As referências são todas de distância com relação a pontos. “Se eu virar liderança da área e tiver aumento” ou “se ele quiser ficar comigo e a gente tiver que decidir em qual país vai viver”. Os sonhos não têm nomes, muitos planos não têm números. Parece louco, mas eu fico me dizendo que aquilo estabelece um senso de continuidade. Tem um monte de planejamentos que eu poderia fazer, liderados sempre pela minha formação de coaching (pobre formação de coaching), que pensa em dar nomes pros sonhos, números pros planos, resposta para as dúvidas. É difícil, mas vai economizar sofrimento e deixa escolher o futuro (não dizem isso todos os planejamentos?). Obviamente o trem não saí do papel, porque quem perderia esse charme todo?

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I can’t stop thinkin’ of the better days

Tem um monte de post privado nesse blog da época que eu stalkeava paquerava o Brian. Tinha achado um blog dele (stalker mesmo, cara)  no qual ele só falava de Cristo e aquilo me dava embrulhos no estômago. Em certo momento, com a coisa mais desenrolada, conversando com a minha mãe, eu disse algo sobre a religião como um porém, e ela me disse que aquilo só lhe dava mais caráter. E era verdade. O Brian é a melhor pessoa que eu já conheci na vida, como já afirmei em infinitos posts por aqui (meus amores são escritos e publicados, como se nas palavras eles fossem se eternizar).

Sete anos depois ele ainda é incrível assim. Mas acho que a parte mais importante de eu ter conhecido o Brian foi ter descoberto que religiões podem ser lindas dependendo de quem as pratica. E o Brian praticava e pratica a dele de uma maneira muito bonita. O cara mora na fucking Bolívia com órfãos.  Sem mais.

Depois disso, fiz um curso por aí e conheci um cara incrível de Omã. Ele sabia sorrir com os olhos e era a bondade em pessoa. O Hassan vestia roupas bem tradicionais e era completamente muçulmano, vindo de um lugar absurdamente diferente do nosso. Essa gente assim, incrível, sempre mostra que a religião pode sim ser bonita. E que cultura é cultura, não adianta tentar colocar um olhar externo e julgar com base nos nossos próprios valores.

Hoje esse cara postou no facebook um texto triste em que contava que um amigo dessas andanças lhe disse “como você consegue viver todos os dias essa religião que a cada dia encontra um novo jeito de matar mais gente?”. Ele ficou todo de coração partido, o que e uma coisa absurda com alguém tão bom.

A real é que o mundo precisa de mais Brians e Hassans e menos gente que fica por aí julgando tudo e todos. Eu mesma preciso ser mais eles (no sentido de amar o mundo e ter valores) e menos nós.

We are only waiting for the moment to be free

Fui convidada para um evento de 10 anos de um grupo. Por meio dele, conheci uma galera muito louca que me deu de presente muitos amigos queridos. Mas também, através do mesmo, desperdicei muita energia em gente que não valia a pena. Hoje, se fosse escolher, teria vivido sem essas interações. Mesmo que significasse abrir mão dos meus amigos.

Parece duro isso, e você lendo isso que é meu amigo a partir de lá, pode ficar até meio que ofendido. Mas foi muita insegurança, muita dúvida, muita encanação e dorzinha. Por lá fiquei mais quebrada que inteira, e não vejo tanta graça em ficar juntando pedaços.

Eu me questiono muito desses ambientes nocivos que nos permitimos estar porque nossos amigos estão. Como se o preço dessas amizades fosse conviver com gente que não te faz bem. E pra cada amigo, é um coração quebrado, uma insegurança criada e um chorinho interno. Claro que isso é um olhar de uma pessoa de 30 anos de idade que tem algum amor próprio, e cobrar isso de uma eu com 20 anos seria injusto.

Talvez seja mesmo parte da vida olhar para trás e ter um olhar crítico. Talvez eu tenha sofrido mais que o resto, me ressentido mais que os outros, essas coisas de quem faz muito drama. Mas me recuso a ter nostalgia de uma época em que fui menos feliz que hoje.

Assim, aviso a todos que não vou.

(mas a Alice loser em mim ainda assim pôs no evento um “não sei”, com medo de parecer amarga àqueles que tanto já me julgaram).

Sobre traumas

No último ano de escola aconteceu uma excursão longuíssima para o sul do Brasil. Em tese aquela seria “a melhor viagem da vida”, onde eu celebraria minha amizade com aquelas pessoas maravilhosas e me despediria do colégio. Combinei de ir com várias colegas de sala, pensando de verdade que seria excelente.

Foi horrível.

Foi tão horrível que na viagem eu tive que dividir o quarto com uma das monitoras porque minhas maravilhosas colegas de sala organizaram os quartos em trios e, imagina só, estávamos em número par. Se um dia algum dia eu for escrever um livro sobre memórias horríveis da minha vida, taí uma. Até hoje fico bolada com essa situação.

Em certo dia dessa viagem, já cansada de tanta humilhação, eu fui até ao orelhão para ligar a cobrar para minha mãe (aos 17 anos o meu celular não fazia interurbano???)  e pedir para ela pagar uma passagem para eu voltar pra casa. Eis que encontrei na fila do orelhão (???) duas meninas que eu não conhecia, para as quais contei chorosa de como as minhas colegas de sala eram filhas da puta (muito) e elas, muito piedosas, não só me convenceram a não ir embora, como também se comprometeram em fazer minha viagem melhor. Hoje as duas são minhas amigas há 13 anos e todos os amigos delas também. A “melhor viagem da vida” acabou por me apresentar todas aquelas pessoas que seriam tão protagonistas da minha vida adulta e me ensinariam o que é amizade de verdade.

Óun.

No trabalho estamos organizando um evento em que teremos que ficar hospedadas no local porque “quem precisa só de 8 horas de trabalho???”. A equipe é de número impar e alguma de nós terá que ficar com uma externa que ninguém conhece.

Adivinha quem foi?

(em defesa do resto do mundo, desconfio que eu seja um pouco chata??? :p)

Oblivion

Um dia, quando eu tinha já quase meus 21 anos, meu pai chegou em casa (após ficar mais de um mês sem aparecer, passado natal e ano novo) e pediu para eu avisar a minha mãe que ele ia embora e que o amor tinha acabado.  Em nenhum momento ele perguntou como eu tava. Em nenhum momento ele pensou em mim.

Depois desse fato reconstruí e destruí o meu amor pelo meu pai diversas vezes.

Também houve aquele dia, poucos meses depois do primeiro fato, que eu esbarrei com meu pai na universidade e eu disse que queria  jantar com ele. Ele sugeriu que esperássemos a minha irmã voltar do intercâmbio (e faltava um mês para isso).

Fui pra Argentina duas semanas depois da minha irmã voltar, e lá fiquei seis meses. Depois disso retornei pro Brasil, fiquei seis meses aqui  e fui pros EUA, onde fiquei mais de dois anos. Nesse tempo todo o tal jantar nunca aconteceu.

Quando eu voltei, minha irmã estava muito magoada com meu pai, bem mais que eu, cujo afastamento era disfarçado pela distância. Minha irmã era abandonada de pertinho, e isso sempre é o que dói mais. Meu pai se casou com a amante e isso significou, para ele, abandonar a família. Minha irmã e eu estávamos no pacote da minha mãe, e como ele disse, o amor acabava.

Mas mesmo assim, voltei da viagem mais madura, e a gente começou a se ver com alguma frequência, focada mais em datas comemorativas. Rolavam ligações, compartilhamento de planos, reconstrução de relação. Ainda assim não íamos à casa do meu pai, não conhecíamos a nova mulher dele, não nada. Mas eu tinha pai, e isso parecia suficiente. Minha irmã foi mais resistente, mas pouco a pouco voltou também.

Meu pai fez 60 anos, e isso tem 3 anos. Ele pediu com meses de antecedência que nós fossemos na casa dele para o aniversário, e fomos, um pouco com medo, um pouco tímidas, e bastante felizes de voltar a ser família do meu pai. Conhecemos a mulher dele e passamos tempo com a nossa avó, que tinha se afastado da gente em todo esse processo. Mas não vou negar que a visita teve suas tristezinhas, como ver numa foto que meu pai se casou e a gente não foi convidada.

Pouco depois disso meu pai ficou  bem doente, foi parar na UTI e de repente todo o amor veio muito forte. Apesar de tudo, ele era meu pai. Revezei noites com a mulher dele, minha irmã passou tardes estudando para a OAB no quarto de hospital dele. Estávamos lá como filhas, como família.

Um ano depois, meu pai chamou minha irmã e eu para jantarmos e nos contou que tinha tido uma filha com a esposa dele. Isso aí. Fizeram inseminação, passaram por 9 meses de gravidez e só nos contou depois de nascida a filha dele. Nesse tempo, nós víamos nosso pai regularmente, o que significa que, se ele não mentiu para a gente, pelo menos omissão foi das grandes.

Nesse dia eu desejei que meu pai tivesse morrido, porque significou, de novo, que eu não era a família dele. Eu de verdade, desejei que ele tivesse morrido um ano antes para eu não ter que ser abandonada de novo. Ele disse que a mulher dele não queria que soubéssemos, e essa frase ainda significa para mim que aquela criança não é nada minha.

Passado mais de um ano disso, eu ainda não conheço a filha do meu pai. Nem lembro que existe, na verdade. Vi no facebook de uma prima fotos do aniversário da criança, para o qual obviamente minha irmã e eu não fomos convidadas. E agora vejo meu pai falando do dia dos pais bastante feliz.

Eu nunca fui menos família do meu pai do que hoje.

Oblivion no dicionário:
[uh-bliv-ee-uh n]
ob.liv.i.on
n olvido, esquecimento, oblívio. act of oblivion anistia geral. to fall ou sink into oblivion cair em esquecimento.

Tampoco fui a la mierda yo

Desde que eu descobri que tinha que vir pro nordeste, estava perdendo o sono. Não era pelos problemas, que já enfrentei maiores. Não era pela equipe, que é a melhor. Não era pela cidade, porque amo esse lugar. Eu tava encanada com qualquer coisa que eu não sabia nomear.

Dormi horrores de mal dias e dias seguidos. Só falava da viagem, de maneira insuportável para qualquer pessoa que conviva comigo. Acordei na hora certa, peguei o ônibus pro aeroporto direitinho, tinha feito check in antes na internet.  Vôo às 9:00,  embarque às 08:30. Cheguei 15 minutos antes do embarque. Perfeito. Na hora de entrar na sala de embarque, minha passagem não passa. Era para ontem.

Mas que merda.

Primeiro quis matar quem comprou a passagem, para depois, ainda ofegante, descobrir que o erro foi meu. Preenchi o dia 4 pensando em quarta-feira e nunca duvidei da data. Ligo pro escritório considerando tentar comprar passagens para semana que vem, mas a responsável pela compra não tinha chegado ainda.

Telefone toca e o diretor me liga para clamar por uma solução urgente pros problemas do projeto. Brada. Urge. O cliente espera por uma resposta. “Meu Deus do Céu, eu tenho que ir hoje!!!”.  Ligo de novo no escritório, a responsável não vai trabalhar de manhã.  Putaquepariu!!!!!!!

Uma alma nobre (a quem devo agora um bolo de rolo) se põe a negociar com a agência de viagens uma passagem que eu chegasse ainda hoje. Consegue.  Saí meio dia e tem escala de duas horas em Brasília, tem problema???

Óbvio que não, eu ia chegar a tempo da reunião às 18:00!!!

Na hora que vou fazer o check in eletrônico, não consigo. Gente, o que eu fiz? Coloquei chiclete na cruz? Comi doritos demais? Fui horrível e universo tá me punindo?

Vou olhar no balcão que vende passagem, porque a fila de check in normal tava longa demais para meu nível de histeria. O 1 na verdade era um i, “e por acaso você quer ir num vôo direto que saí às 10?”. Talvez eu não seja tão pecadora assim, apenas um pouco descuidada com datas. Na hora do check in só tinha poltrona do meio. Eu, gorda, cadeira do meio. Enfim. Quem mandou ser desantenta???

No embarque, se senta ao meu lado uma mulher com uma filha criança sentadas separadas. Troco de lugar, sento no corredor e chego em Recife apenas uma hora mais tarde que o planejado!!! E mais, o vôo que eu perdi gerou um crédito e no fim nem queimei tanto dinheiro assim. No vôo teve altas turbulências, mas a criança com quem eu troquei de lugar aparentemente as achou engraçadas e gargalhou. Por 10 minutos seguidos (tempo de duração das turbulências).

Ok, universo. Ok. Agora menos emoções, por favor.

mas é que eu tenho que manter a minha fama de reclamona

Quando minha chefe e a outra liderança da área tiraram férias, eu fiquei responsável por tudo. Mas o pai de uma colega ficou doente e ela não foi trabalhar vários dias, e em nenhum momento pensou em validar comigo isso. A outra vai em reuniões e não presta atenção, sendo que nesse caso eu sou liderança direta mesmo. E eu fico toda insegura porque na verdade não sei mandar nas pessoas e elas não me respeitam ~naturalmente~.

Em uma cidade deu um monte de pau no projeto e falaram até em não renovar. Minha equipe de lá ficou histérica e eu tentando consertar as coisas. A outra cidade não vai bater meta de novo e quando eu fui perguntar o resultado da semana e me falaram um número bem baixo, eu até gritei com a coordenadora nova.

Vou ter que viajar semana que vem para resolver o problema da possível não renovação.  Ante disso, segunda, oito horas, tenho reunião com o diretor para discutir a meta não batida. Mas, pelo menos, minha chefe e a outra liderança voltam de férias essa semana.

Ufa.