Oblivion

Um dia, quando eu tinha já quase meus 21 anos, meu pai chegou em casa (após ficar mais de um mês sem aparecer, passado natal e ano novo) e pediu para eu avisar a minha mãe que ele ia embora e que o amor tinha acabado.  Em nenhum momento ele perguntou como eu tava. Em nenhum momento ele pensou em mim.

Depois desse fato reconstruí e destruí o meu amor pelo meu pai diversas vezes.

Também houve aquele dia, poucos meses depois do primeiro fato, que eu esbarrei com meu pai na universidade e eu disse que queria  jantar com ele. Ele sugeriu que esperássemos a minha irmã voltar do intercâmbio (e faltava um mês para isso).

Fui pra Argentina duas semanas depois da minha irmã voltar, e lá fiquei seis meses. Depois disso retornei pro Brasil, fiquei seis meses aqui  e fui pros EUA, onde fiquei mais de dois anos. Nesse tempo todo o tal jantar nunca aconteceu.

Quando eu voltei, minha irmã estava muito magoada com meu pai, bem mais que eu, cujo afastamento era disfarçado pela distância. Minha irmã era abandonada de pertinho, e isso sempre é o que dói mais. Meu pai se casou com a amante e isso significou, para ele, abandonar a família. Minha irmã e eu estávamos no pacote da minha mãe, e como ele disse, o amor acabava.

Mas mesmo assim, voltei da viagem mais madura, e a gente começou a se ver com alguma frequência, focada mais em datas comemorativas. Rolavam ligações, compartilhamento de planos, reconstrução de relação. Ainda assim não íamos à casa do meu pai, não conhecíamos a nova mulher dele, não nada. Mas eu tinha pai, e isso parecia suficiente. Minha irmã foi mais resistente, mas pouco a pouco voltou também.

Meu pai fez 60 anos, e isso tem 3 anos. Ele pediu com meses de antecedência que nós fossemos na casa dele para o aniversário, e fomos, um pouco com medo, um pouco tímidas, e bastante felizes de voltar a ser família do meu pai. Conhecemos a mulher dele e passamos tempo com a nossa avó, que tinha se afastado da gente em todo esse processo. Mas não vou negar que a visita teve suas tristezinhas, como ver numa foto que meu pai se casou e a gente não foi convidada.

Pouco depois disso meu pai ficou  bem doente, foi parar na UTI e de repente todo o amor veio muito forte. Apesar de tudo, ele era meu pai. Revezei noites com a mulher dele, minha irmã passou tardes estudando para a OAB no quarto de hospital dele. Estávamos lá como filhas, como família.

Um ano depois, meu pai chamou minha irmã e eu para jantarmos e nos contou que tinha tido uma filha com a esposa dele. Isso aí. Fizeram inseminação, passaram por 9 meses de gravidez e só nos contou depois de nascida a filha dele. Nesse tempo, nós víamos nosso pai regularmente, o que significa que, se ele não mentiu para a gente, pelo menos omissão foi das grandes.

Nesse dia eu desejei que meu pai tivesse morrido, porque significou, de novo, que eu não era a família dele. Eu de verdade, desejei que ele tivesse morrido um ano antes para eu não ter que ser abandonada de novo. Ele disse que a mulher dele não queria que soubéssemos, e essa frase ainda significa para mim que aquela criança não é nada minha.

Passado mais de um ano disso, eu ainda não conheço a filha do meu pai. Nem lembro que existe, na verdade. Vi no facebook de uma prima fotos do aniversário da criança, para o qual obviamente minha irmã e eu não fomos convidadas. E agora vejo meu pai falando do dia dos pais bastante feliz.

Eu nunca fui menos família do meu pai do que hoje.

Oblivion no dicionário:
[uh-bliv-ee-uh n]
ob.liv.i.on
n olvido, esquecimento, oblívio. act of oblivion anistia geral. to fall ou sink into oblivion cair em esquecimento.

2 thoughts on “Oblivion

  1. sem querer falar mal do seu pai, mas já falando: eu queria entender, de verdade, o que se passa na cabeça das pessoas pra agirem assim.

    Tenho uma história ruim com meu pai tb e essa a pergunta que me faço sempre.

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