You gotta give a little, take a little and let your poor heart break a little

O que eu mais gosto do trabalho novo são todas às vezes que me sinto desafiada a fazer coisas que nunca fiz. Tem toda uma magia em dar conta de algo comportamento novo. Uma inexplicável alegria de saber hoje ser mais capaz que ontem.

Já tenho 6 meses de mudança de emprego e finalmente estou eficiente. Já entendi os processos e os limites e tô rendendo meu máximo. No meio do caminho teve uma enorme mudança de contexto cujos os resultados inclusive ainda desconheço, mas nesse mês de novembro cheguei no lugar certo da minha capacidade produtiva.

Já posso falar com segurança que ficarei pelo menos um ano mais na Bahia. Agora resta saber morando onde e com quem.

Na vida pessoal o novo me dá mais ansiedade.

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If I were you, I’d love me too

Meu peso sempre foi uma questão muito séria na minha relação familiar. Inclusive sempre foi mais problema dentro de casa do que fora dela. Minha mãe e minha irmã, “cheias de amor”, sempre me pressionaram muito para emagrecer porque “ninguém me amaria sendo gorda assim”. Hoje eu total entendo que eram crenças delas e que eu sou um ser completamente amável e inclusive amada.

Esse tipo de pressão doméstica obviamente sempre minou minha auto estima e me fazia sentir a mosca do cocô do cavalo. E eu já saía de casa duvidando de mim mesma. Já emagreci várias vezes e voltei a engordar outras tantas, meu peso sempre “tende” para cima. Toda a minha relação com o meu corpo é exaustiva desde sempre, quase nunca baseada no amor próprio e sempre balizada na opinião alheia.

Uma vez a minha irmã, que é 4 anos mais nova que eu, disse que eu já não era muito linda por ter cabelo cacheado, como que eu ainda ia ser gorda? Ainda emendou que na rua as pessoas me olhavam com nojo, e isso foi uma das coisas mais brutais que já ouvi, ainda mais de alguém que suportamente tava ali desejando o meu bem. Eu mesma nunca tinha me dado conta disso, as pessoas tinham nojo de mim?

Num outro momento, quando eu fiquei desempregada e meio perdida na vida, minha mãe já me disse que achava que eu não conseguia emprego por ser gorda. Eu, em minha experiência, nunca tinha sentido tal preconceito. Ainda hoje, nunca senti. Mas sempre me pergunto um: será?

Essas coisas entram na sua cabeça, vão infectando seu sistema de crenças e você passa a se achar sim horrível. Hoje uma senhora em um asilo olhou pra mim e disse “você parece tão saudável, olha que perna gorda”, e mesmo eu sabendo que aquilo saia quase como elogio de uma pobre velhinha abandonada num asilo, ficou ecoando na minha cabeça o “gorda”.

Eu sou gorda. E graças ao feminismo, entre trancos e barrancos fui conseguindo me empoderar e me aceitar. Eita, eu sou bonita assim. Meu corpo é saudável e funciona bem. Eu posso ir na praia de biquíni e usar short, coisa que deixei de fazer toda minha adolescência. E com meu auto amor, fui indiretamente conseguindo fazer minha mãe e irmã aceitarem e me amarem como eu sou. E tenho namorado que me ama, emprego em que ganho bem e não tem peso que me pare.

Minha irmã trabalha na justiça do trabalho e chegou na mão dela um processo de gordofobia. Ela levou o trem tão a sério, me ligou enquanto escrevia o voto, me contou dos detalhes. Ela nunca me conta de tantos detalhes de nenhum outro caso. E o desembargador manteve o voto dela e a pessoa que processou ganhou como assédio moral. Minha irmã me mandou por email o acórdão e sério, eu me senti tão amada. É como se ela estivesse dizendo “olha como eu luto por você”, “olha como seu sei que não tem nada errado com você”.

É uma vitória pessoal que a minha irmã tenha aprendido isso. Amor, de verdade, é assim.