Love was made for me and… BH

Sempre falo que é difícil mudar de cidade quando você ama muito de onde você vem. E eu amo Beagá. Eu amo ver a serra, amo as subidas e descidas, amo o clima quase sempre ameno. Amo ver o Galo quando quiser, amo ter bares e mais bares que gosto a uma caminhada de casa. Amo reconhecer os caminhos e saber as histórias da cidade, amo a comida, amo o gosto de casa. Amo minha casa, amo minha cama, amo minha mãe, amo minha irmã, amo meus gatos. Amo ter a um telefonema as pessoas mais importantes da minha vida, amo o sotaque.

Hora dessas semana que vem eu vou estar com todo o meu amor.

Tão feliz quanto chegar é a expectativa da chegada.

 

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Faz de conta que seu coração tem asas e vai voar 

 

Faz de conta que você é da Bahia
Com saudade de casa
Deixa tudo aqui
Pode deixar, pode deixar, pode deixar

Faz de conta que você é da Bahia
Com saudade de casa
Deixa tudo aqui
Pode deixar, pode deixar, pode deixar

Faz de conta que seu coração tem asas e vai voar
Vai voar e vai pousar diretamente no corredor
Toque a campainha que alguém na cozinha deve lhe escutar
Bahia, Bahia, Bahia
Bahia, Bahia, Bahia

Blowing with the wind of the cure

Trigger warning: abuso sexual, estupro.

Eu tinha um segredo enorme. E eu nunca tinha contado para ninguém. Passei por dois processos de tratamento psicológico, tive melhores amigas, construí uma relação de cumplicidade com a minha mãe, mas nunca tinha conseguido contar para ninguém.

Foi só um dia ao fazer uma atividade de respiração cíclica (que eu nem acreditava muito que funcionava) que eu acessei essa memória, que estava lá no fundo, escondida em tantos anos e tantos medos, que veio essa dor imensa, o meu segredo.

Junto disso veio a compreensão que parte das minhas mágoas com minha mãe e irmã estavam em elas não saberem disso e não terem me cuidado e protegido. Eu merecia ser protegida e elas precisavam saber.

Eu sofri um estupro aos 10 ou 11 anos, antes de eu entender o que era aquilo. Foi com um tio que não era muito mais velho, mas que sabia exatamente o que estava fazendo. Foi dentro de casa enquanto meus pais trabalhavam. Eu não deixei ele fazer a mesma coisa com a minha irmã, que era ainda mais nova, mesmo não entendendo bem.

Depois que fui tendo contato com a sexualidade e também conhecimento da violência sexual, as fichas foram caindo em uma descoberta muito dolorosa sobre o abuso. Eu fui estuprada antes de saber o que sexo era.

Não tive voz de contar para ninguém nem antes e nem depois de entender. E isso me impactou de maneiras absurdas: tive sempre problemas de confiança com o sexo oposto, problemas de auto estima, rejeição ao ato sexual. Dezenas de visitas a terapeutas não me deram voz para contar o que eu tão preciosamente queria esconder de mim mesma.

Eu finalmente contei para a minha mãe, meu namorado e minha irmã. E decidi que não quero contar para mais ninguém da minha família, porque mesmo hoje, aos 33 anos, tenho medo de ser exposta, de ser julgada e de ter a veracidade disso tudo questionada.

Tenho medo que as pessoas pensem que houve consenso por eu não ter dito não, quando na verdade eu confiava em uma pessoa da minha família. Hoje eu ainda tenho vergonha.

Eu não tenho mais nenhum segredo, e ao não ter segredo, curo minha dor. Eu encontro, na fala de quem me ama, apoio e compreensão e vontade de me proteger. Eu provavelmente teria sido menos quebrada e mais feliz se tivesse conseguido lidar com isso antes. Mas tudo tem seu tempo. Principalmente as dores.

Acredite nas meninas que têm medo de seus familiares. Se importe com elas e queira saber as razões. Não confie em adultos perto de crianças. Conversa com as crianças. Explique sobre sexualidade e sobre abuso para que caso aconteça, elas saibam identificar e não fiquem caladas.

Se você mesma passou por uma situação assim, se ame, se perdoe e fale a respeito com alguém que você confie. Apesar de eu ter ignorado minhas terapeutas, o consultório pode ser o lugar seguro para você dar voz ao seu silêncio.