Eu sigo pesada, mas bem livre

Eu tenho uma confissão para fazer e talvez você não concorde comigo, mas eu me acho linda. Eu não me importo tanto se você não concordar, porque minha beleza vem de resignificação e autoamor, então se anos atrás eu não me via com os olhos amorosos de hoje, quem é você para me ver, né.

Eu me tornei uma mulher confiante, pacote completo. Eu sou inteligente, tenho uma carreira legal e me acho bonita. Eu também vou completar 35 anos amanhã, então é bom você reparar que levou 35 anos para eu chegar aqui.

Eu não tenho nem idade e nem profissão que me permita virar influencer. Mas se eu pudesse, eu gostaria de poder influenciar toda mulher a se desenvolver no autoamor e autocuidado até alcançar esse momento de plenitude. É o momento do foda-se. É daí que o mundo não acha que você é linda se você na real é um bombonzinho?

Eu sou uma mulher gorda, de cabelo cacheado, braço muito grosso, bunda enorme e barriga saliente. Daí você já parte da premissa que meu caminho até aqui não foi fácil. Obviamente não foi.

Você não precisa ser nenhuma das coisas que eu sou para se amar, e a gente também sabe que também pode ser completamente diferente de mim e se odiar. A gente cresce em um mundo machista, racista e gordofóbico com uma pressão estética ridícula em que inclusive mulheres padrão são diariamente desafiadas. A audácia!

Minha fórmula mágica passou por me cercar de mulheres incríveis tanto na vida pessoal quanto na internet. Ao ter uma rede de apoio construtiva e que não me puxa para baixo, o reforço positivo é constante.

Inserir-me dentro do feminismo também foi libertador. Entender o patriarcado e questões estéticas e como o mundo é mais generoso com a aparência masculina, faz você começar a entender que o problema não é seu. E, por favorzinho, bora fazer sim recorte racial nisso, que se é difícil para uma mulher branca, imagina para àquelas tantas negras, asiáticas, indígenas que têm cada uma seus problemas ao não se enquadrem no padrão racial de beleza vigente e ainda virem com o combo de serem excessivamente sexualizadas.

Também me cerquei um montão de mulheres maravilhosas mais parecidas comigo, e pouco a pouco a normalidade de vê-las tão confortáveis sendo qualquer coisa, e tão bonitas ao mesmo tempo, ainda que diferentes do que é padrão, aos poucos foi resignificando tudo aquilo. Da mesma maneira que a internet oprime, dá para achar um montão de gente foda que ajuda a construir. Cabelo cacheado, gordas, mulher sem peito, tatuadas, carecas, deficientes. Tem muita gente foda acessível para normalizar a beleza que for. Ache quem te faça bem. Não mal.

Depois, é fazer as pazes com a sua história. Entender (terapia ajuda, viu) todas as influências que você recebeu para odiar tanto a você mesma. E perdoar essas coisas. Seja por pressão estética ou mera babaquice alheia, cada comentário sobre você, foi parte desse sistema machista opressor. E a gente tem que se definir além disso.

Ainda, eu parei de fugir do espelho. E das fotos. Nessas, fiz às pazes comigo. Pedi perdão por tanto auto odio. Agradeci meu caminho até aqui. E me amei. Para fazer isso exige coragem de se olhar muito até aprender a se admirar. Achar beleza no que você é nem sempre é fácil, mas traz paz de espírito. Amar quem você é. Cada curva é sua história ou conquista. Resignificar tudo.

Sua aparência não te define. Você não é só ela. Mas é também quem você é. É por onde você expressa sua personalidade. É ela quem te trouxe até aqui.

Foi ela que me fez, aos 35, também ser quem eu sou. Sou muitas outras coisas. Inteligente, destemida, leal. Arrogante também.

Ser assim não resolve os meus problemas com o mundo. Eu viajo de avião com cinto extensor a mala. Não entro em loja que eu não tenho certeza que é plus size. Médico me fala de baixar de peso mesmo não tendo nenhum exame ruim. Tem quem ache meu cabelo feio. Mas é cada foto bonita que eu tiro, rapaz.

Ah. E eu sou muito mais forte e segura para passar por todas essas coisas. Num mundo que pode me ler como qualquer coisa ruim que meu corpo seja para ele, prefiro me autodefinir. Linda.