Uma maré ruim

2020 foi um ano de corno. Literalmente. Fui passada pra trás em vários aspectos. Achei que tinha conquistado um monte e me tomaram. E hoje faltando ali 21 dias pra esse ano mequetrefe terminar, me sinto naquele meme já antigo: acabou, Jéssica?

Tô com uma tosse braba que não sei se é coronga ou só o clima de Minas Gerais zoando com meu corpo aclimatado a Bahia. A quantidade de BO que eu tenho pra resolver no trabalho não termina (e olha que só me sobram 6 dias de trabalho até 2021). E meu coração tem tanto remendo que eu não acho que ele nem bate mais, de tão em frangalhos.

Não tenho esperança de nada. De 2021 eu só espero que sobrevivamos, tal como até então sobrevivemos até agora. Tal qual o Atlético em segundo lugar a sétimo pontos do São Paulo. Eu quase fui feliz, mas os outros não quiseram que eu fosse.

Muito vitimada encerro o post. Talvez eu volte antes de 2021. Talvez nem nele.

#dramatica
#perdoaodramaenãodesistedemim

Estamos juntos e misturados.

Uma leitora do blog – e é meio estranho chamar de leitor as pessoas anônimas que vem cá ler meus chorinhos de alguém tão anônima quanto – me recomendou uma autora x que posta na internet crônicas anti-homem. Tal escritora publica (com até relativo grande público) ideias de que o patriarco estabelece que todo homem mente, trai, é um merda e eventualmente, abandonará a mulher quando a mesma não for útil. Embora as minhas expectativas com o gênero oposto sejam extremamente baixas e eu entenda bem o papel nocivo do patriarcado em cada esfera da minha existência, eu fiquei meio boquiaberta com tanta amargura.

Porque o foco ali não é debate das estruturas e papéis, desafiando o patriarcado. Não é um alerta de construção de relações saudáveis rompendo os limites impostos pelo patriarcado – confiança, acesso, diálogo, vulnerabilidade e compromissos. É literalmente ter o homem como ruim, e não como humano, que erra, acerta, aprende e melhora (e inclusive pode crescer melhor criado e com menos traumas – tem gente mais lixo e menos lixo nessa vida). Ela define todo homem como alguém que é intrinsecamente contra a mulher, independente de quem seja, e não como alguém que erra e melhora.

E olha que eu venho de uma parcela de homens lixos. Meu dito pai é um ser difícil e meu namorado acabou de me trair longamente com uma pessoa em outro país – rere. Merda de 2020.

Mas eu também vejo meu pai, imperfeitíssimo, vendo que somos mulheres fortes e se arrependendo – e agora é tarde – de algumas escolhas. Vejo o meu companheiro tentando reconstruir a confiança que ele abalou, está fazendo terapia, estamos conversando mais e tentando entender tudo.

E essa segunda chance não necessariamente me faz uma mulher vulnerável. Eu e ele somos financeiramente independentes e minha vida segue basicamente muito igual, com ou sem ele. Meu “perdão”, que não passa por perdoar a traição, mas por dar uma segunda chance a um relacionamento de seis anos no qual eu fui feliz, é uma escolha. E se eu terminar porque esse relacionamento não funcionou, será outra. Não faz de mim vítima, e nem necessariamente ele vilão, porque o mundo não é preto ou branco. Mulheres inclusive também traem, têm problemas emocionais, enrolam os pares, etc, conheço várias. O trauma nem sempre vem do patriarcado, embora ele seja sim PODEROSO.

Mas um relacionamento é feito de pessoas, únicas, com medos e coragens, personalidades e histórias variadas. E no fim se proteger do lobo-mau tem mais a ver com você sendo mais cuidadosa, se respeitando mais, impondo limites, não confiando cegamente, não sendo ong de homem (alô twitter, essa é direto dos ensinamentos da @naoinviabilze, não se permita ser financeiramente vulnerável a homem safado) e tentando construir com o seu par um relacionamento de diálogo, afeto e confiança, do que em se fechar às possibilidades de ser feliz com alguém.

Enfim, cara pessoa que me recomendou tal “autora”, você escreveu assim “talvez te ajude a refletir melhor”. Ajudou. Reflita também. É mais fácil a autora ser golpista e ganhar nos likes das minas de coração partido do que todo homem querer necessariamente te passar a perna.

Beijinhos da corna que ainda acredita no amor (e talvez eu esteja errada sobre esse amor, mas oh well,faz parte),

Alice