Too much time to waste with myself

Morei sozinha muito tempo em lugares distantes. Olhando pro passado assim, parecia fácil.  Era simplesmente bastante tranquilo andar solitária por ai, me auto descobrindo e me familiarizando, em uma experiência inteiramente única e minha, com coisas que um dia parecerem tão estranhas. Me sentia livre. Me sentia forte. Me sentia independente. Achei que eu fosse assim. Mesmo. Livre. Forte. Independente.

Mas cá estou eu há 3 dias de viajar sozinha, para uma cidade que já conheço, e me vem um embrulho no estômago daqueles que a gente tem nas primeiras vezes. De repente eu tô nervosa de ficar sozinha muito tempo.

Terei eu desaprendido a ser eu?

Quem acredita sempre alcança?

É dever moral meu vir aqui e contar que chefe-mirim pediu demissão.

Após o rufar dos tambores e o soar das fanfarras, conto pra vocês que, na verdade, tenho pensando muito mesmo nela. Não porque tenha passado novos perrengues, não mesmo. Só que é bem ruim você estar indo pra cozinha, ver alguém sentado lá e simplesmente não entrar porque né, conviver com os monstros, não pratico.

Estou fazendo um curso e esse módulo foi sobre “mediação de conflitos” no qual tínhamos que dividir um conflito nosso (pois alguns dos conflitos foram escolhidos pelo grupo para serem trabalhados). Obviamente, escolhi esse sobre o qual vos falo. Meu conflito não foi escolhido por motivos de: ele mora dentro da minha cabeça. Tivemos nossas rusgas, brigas, discussões, enfrentamentos, disputas, fui embora chorando, fiz ela chorar e finalmente mudei de área. Daí existe há quase um ano essa vida de guerra-fria, de gente que não se resolve, mas também não quer se resolver.

E mesmo assim, um ano depois, eu lá contando ainda me deixou sem fôlego, agitada, mexendo muito as mãos e falando alto. E eu terminei o relato com “e eu só queria que ela deixasse de exitir”. Um ano depois e eu ainda reajo assim. É meio decepcionante. Sério. Cadê maturidade?

(a pessoa que chama outra de arqui-inimiga e por uma apelido que 80% das pessoas com quem eu convivo reconhecem querendo maturidade. SINCERAMENTE, ALICE).

Pensei, pensei, pensei. E percebi, finalmente, porque eu faço isso. Porque me prendo tanto nesse rancor gostoso sofrido. Acontece, e muito seriamente falo isso, que eu o fazia por ego, puro e simples. Pois é. Você pode pensar ai que sempre soube. Mas a realidade é que só agora percebi que quanto mais jogava chefe-mirim pra baixo, melhor eu me sentia. E o insucesso dela era um grande “aha, sempre soube, tá vendo?”. E uma auto-afirmação tremenda a cada nova pessoa que entrava na equipe e em poucos meses ia embora PORQUE NINGUÉM AGUENTA ESSE SER HUMANO!!!

Mas a realidade é que para largar esse azedume, devemos humanizar chefe-mirim. Ter 21 anos e ser posta em um cargo de chefia, não reconhecida por seus iguais, sem apoio de um RH, sofrendo preconceitos dos subordinados, pouco capacitada e quase nada experiente. Não foi fácil pra criança. Não foi.

Mas ai ela vai embora. Então acabou drama, acabou churumela .

Crescer, às vezes, não é um caminho tão linear.

Don’t you know it´s over?

Depois de sábado, mais ou menos às 10 horas, a prestigiada escola de negócios passará a ser conjugada no pretérito em minha vida. Dessas coisas que acabam e sobra o alívio de não ter aulas as segundas, terças e quartas (e muitas quintas) até as 22:30 da noite (sem falar em algumas sextas e sábados – esses dias completinhos na sua longuice). Mas ai todo término traz junto essa melancolia do fim: é mais um nunca mais na vida.

As coisas vão passando e deixando de ser sua realidade. Não estudo mais naquele colégio, não freqüento mais aquela universidade, não moro mais naquela cidade, não trabalho mais naquele lugar. Não vejo todos os dias meus amigos, não debato com meus professores, não divido apartamento com o Thiago ou com a Jenn, não tenho como colega o Mauricio. Ficam saudades de gente, essa coisa que existe porque a gente sabe que o mundo é muito grande e as chances de trombar de novo com as pessoas é baixa.

Meu único porém de mudanças é justamente esse eterno deixar pra trás aquilo que por determinado tempo foi seu principal ponto de apoio naquele lugar. Alguns finais são naturais, tipo esse de agora, ou formar no colégio, que a vida vai seguindo e você simplesmente abraça a mudança. Outros foram escolhas, como sair de um emprego ou ir embora de uma cidade (algumas vezes ações relacionadas) o que confere a tudo um peso bem maior.

Saber do fim é ter uma realidade sabendo que ela vai acabar. Vem com uma certa dose saudade antecipada.

Então, pois é. Tchau.

Contei pro cara da pós (de todos os apelidos, o mais genérico) que ele fez uma diferença enorme na minha vida: foi dele que partiu a mudança de brigona para a versão Alicinha paz e amor. Contei que ele me fez perceber que talvez (com certeza) eu era mesmo uma figurinha difícil de relacionar. E a culpa disso era só minha.

O cara da pós disse que eu melhorei muito sim (leia-se, hoje sou completamente adorável*) e que então ele merecia um prêmio por ter me tornado uma pessoa melhor (me poupado uma grana preta em terapia**).

Pfff. Maldito cara da pós. Das realidades, uma das quais sentirei mais saudades.

* interpretação minha, própria e livre.

** palavras dele, ipsi litteris.

To sing ‘em my new song

Hoje vou dormir pela primeira vez no quarto novo, na casa nova. Entre surtos maternos e uma casa cheia de caixas, a vida segue basicamente a mesma, com a diferença que hoje pela manhã saí para trabalhar de uma casa e mais tarde voltarei para a outra.

A casa antiga sempre foi ponto de referência para qualquer pessoa que tenha intimidade comigo. A rua é central, perto do colégio em que eu estudava, depois perto da vida que eu vivia. Sempre o local dos trabalhos, sempre o local dos esquentas. Pela proximidade, pela abertura, pelo tudo.

A casa antiga foi hospedagem para pessoas das mais diferentes cidades e dos mais diferentes países. As portas foram abertas sempre, a quase quem pedisse e nós tivéssemos alguma vontade de abrigar.

O meu quarto, que não era meu desde o início (e virou numa tentativa da minha mãe acabar com as brigas entre irmãs), tinha um tatame, porque eu aos 14 anos achava que era muito moderna dormindo no chão. Depois troquei por uma cama box um tanto quanto mais espaçosa, mas fora essa mudança, foram 12 anos de quarto sem qualquer outra alteração substancial.

É muito fixo isso tudo. Muito igual. Acho que agora a mudança chega na hora certa. Para levar o velho, trazer o novo e deixar a vida seguir normalmente, mas sem que seja igual.

Hoje a noite vou dormir num diferente que passará a ser meu presente.

Timing has never been our strong suit

– Você voltou com sua ex namorada? – pergunto eu acostumada com caras que voltam com ex enquanto estão em processo comigo.
 – Não, não voltamos – responde ele muito sério.
– Tenho te visto marcado em tanta coisa com ela – justifico eu, cheia de defesa.
– Hmm… é. A gente ainda se fala e tal… – e seguem as justificativas, numa conversa pesada.
– Entendo. Não tenho relação próxima com nenhum ex  – emendo numa risada como quem diz “por isso estranhei”.
– Bom eu também não, até o momento. É algo meio estranho – o que cala a minha risada e me faz ficar bem séria.
– Foda, né.
– De leve.
E no final eu só queria que não ter tido a conversa.

não é quando eu me arrisco

Hoje fui colocar uma correntinha – que nem de ouro é, mas é douradinha e linda –  no pescoço e fiquei com medo. Na mesma hora tirei.

A primeira vez que eu fui assaltada, eu estava em Buenos Aires a menos de 15 dias. Tinha ganho aquela máquina fotográfica há poucas semanas, justamente para fotografar o intercâmbio. Deviam faltar ainda todas as parcelas a serem pagas… mas isso não evitou que, em um boliche com música alta e muitos argentinos, pegassem minha câmera de dentro da bolsa – e a bolsa no meu ombro – sem que eu tivesse visto coisa alguma. Chorei desesperadamente, me senti mais pobre (perda de itens, por mais que não sejam seguidos da substituição dos mesmos, sempre me fazem sentir pobre) e a vida seguiu. Meu intercâmbio foi muitíssimo fotografado pela máquina do rommie, que depois também foi roubada (mas eu já tinha voltado pro Brasil). Aliás, todo mundo que eu conheci naqueles meus 6 meses porteños foram assaltados em algum ponto da viagem. Cuidado, meninos, BsAs é sim, perigoso.

Anos depois eu estava no Mc Donalds da Paulista. Bebadinha, um tanto quanto ainda apaixonadinha por um ser babaca e também com a companhia da Camilinha. Passaram e levaram a bolsa, nem vi. Ninguém viu. O detalhe é que eu estava, de novo, em uma cidade que não morava. E ai não levaram um item somente – inclusive levaram também uma máquina, de novo (obviamente nunca mais comprei nenhuma, porque essa era a terceira – a segunda tomou um banho de milk-shake relatado em algum post de 2007 desse blog). Levaram minha carteira, meus documentos, minha passagem de volta, minha dignidade e também o meu amor. Isso porque a reação de outrem foi tão broxante e inanimada que ó, amor acabou ali. E estar sem um centavo furado, e nem documentos, fora de BH não teve graça alguma.

A terceira vez que fui assaltada foi em BH, pra não dizer que onde moro não é perigosíssimo. Domingo, meio de feriado, eu e o semi-irmão. Saindo no meio da madrugada de um lugar e decidindo, equivocadamente, voltar pra casa a pé (afinal, não tava sozinha). Vieram dois e em um mundo que semi-irmão e pamonha são seres semelhantes, no final levaram minha lindíssima bolsa vermelha (também nunca resposta), 10 reais, meu cartão de débito, meu celular e o mais caro de tudo: a carteira de motorista. O celular eu tinha ganho numa promoção da globo.com (e o que vem fácil, vai fácil), mas a carteira de motorista, porra, R$ 53,00 pra renovar. O marmanjo ainda me jogou no chão (por algum motivo eu peço pra pivetes me deixarem ficar com meu chip, coisa que sempre, aparentemente, é recebido com alguma ação agressiva) e eu tive que ficar consolando meu semi-irmão, que pamonha que é, não foi assaltado mas ficou mais assustado que eu. Pamonha. (notal mental: semi irmão nunca pode achar esse blog?)

E a última foi agora. Tem pouco mais de um mês. Parece novela, parece tragédia, parece o pior dia possível, mas foi só minha vida mesmo. Ligaram avisando que papai tava na uti, eu estava na frente do prédio do trabalho esperando carona pro hospital quando veio um pivete e me pediu o telefone que tava na mão. Numa idiotice tremenda, pedi pra ele não levar o celular. Em algum lugar na minha cabeça ele ia ter pena do meu pai no hospital – e da minha necessidade de ser contactável num dia tão assustador – e me deixar escapar ilesa. Mas a disgrama do menino pulou em mim, me arranhou absolutamente toda – com unhas enormes UGH – me jogou no chão e foi pego por pedestres que bateram muito nele. Isso tudo com o celular ainda na minha mão. Não sei se valeu a pena. Ainda me dei ao trabalho de ficar hoooooras na delegacia, tentando ter controle de algo naquele dia. Precisava que aquele menino – mesmo sendo menor – fosse detido. Precisava que o crime na frente do trabalho virasse estatística e tivesse mais policiamento.  E isso me custou 5 horas dum dia em que meu pai estava internado na UTI. Pior dia da minha vida.

O plano atual é não ser assaltada/roubada/furtada nunca mais. Hei de cumprir. Quer dizer, desde que ladrões o permitam.

Um bom poema leva anos

Quando eu morava em DC e tinha orkut (e isso já parece ter sido milhares de anos atrás), tinha como descrição um versinho do Leminski (esse foda, esse lindo, esse incrível) que dizia assim:

Por mais que eu ande

Nada em mim imagina

O que é que tal menina tão pequena

Está fazendo assim

Numa cidade tão grande.

Era meio aquela coisa toda de viver uma vida de gente grande, fora do país e sozinha, por tanto tempo, sem me sentir grande o suficiente.

Não demorou muito pra minha mãe, angustiada, pedir para eu tirar a descrição porque aquilo dava nela uma culpa tremenda. Culpa tremenda de deixar uma menina de 22 anos ir embora correndo o risco de ser para sempre. Mas não foi.

Ai eu voltei, o que, surpreendemente, não trouxe nenhum alegria materna muito específica. Foi  mais aquela contradição básica de “mas não era melhor lá fora?”, mesmo que tão longe . Mas pra mim parecia que o perto era a solução.

Só que eis que BH, de repente, não supria as faltas que DC me trouxe: não trazia grandeza, não trazia companhia, não trazia nem o pequeno e confortável que a cidade precisava ser para eu deixar de ser, comparativamente, tão pequena. E eu fui ficando menor ainda. Eu quase parei de existir.

É muito ruim ver o que você achava que era solução se revelar um belo dum abismo. Porque de repente pára de existir qualquer porto seguro. E a gente segue não tendo nada que imagine na gente como é que é possível ser tão menina e tão pequena enquanto a cidade e o mundo seguem  tão grandes.

Só que resiliência é qualidade, ou então necessidade e aparece na hora H (ou apareceu na hora que se não viesse, ia ser mais fundo que o fundo do fundo e eu tava era ferrada mesmo). E a gente se reinventa e vai voltando a existir. Aos pouquinhos, mas de repente foi rápido. Começa do começo mesmo, um passo depois do outro e de repente vários e fica tudo bem. Tá tudo bem. Não sou mais pequena, a cidade não é mais grande e agora me sobra mais vontade de ir embora do que ficar aqui.

Mas não se preocupem. Ainda existem outros 500 haikais e uns 200 poemas do Leminski para eu me ver exatamente igual. Mas pequena não.

um bom poema leva anos

cinco jogando bola,

mais cinco estudando sânscrito,

seis carregando pedra,

nove namorando a vizinha,

sete levando porrada,

quatro andando sozinho,

três mudando de cidade,

dez trocando de assunto,

uma eternidade,

eu e você, caminhando junto.

só que sem você.

 

Essa coisa esquisita de ficar em cima do muro

Uma vez uma amiga me disse assim “você vai reclamar de algo que te faz tão bem?”. Provavelmente já usei essa citação por aqui, porque vira e volta ela ecoa na minha vida. Volta e meia eu me pergunto a mesma coisa. A gente deve questionar as coisas que nos fazem bem?

Na época em questão, eu era mega hiper ultra apaixonada por uma pessoa e finalmente tava conseguindo me afastar um pouquinho daquele que tanto me fazia sofrer. Mas daí veio, de novo, essa pessoa, naquele dom filho da puta dos caras que nunca te deixam sair deles, e voltou com tudo. Me ligava todo dia, tava sempre lá, constante. Ia eu reclamar, negar, evitar, de algo que, naquele momento, era tudo que eu mais queria? Não ia. Deixei vir com tudo. Parei de resistir. Desarmei a defesa. Como tudo que acontece quando você está apaixonada, você pega aquilo ali, toma como amor e supera as dores todas. O amor é das coisas mais inconseqüentes do mundo todo. Não há racionalidade que alcance.

Mas hoje eu diria não. Nem é por saber que meses depois meu coração – pobre coração –ia ser maltratadíssimo, várias lágrimas e dias de sofrimento que não tinha presença no passado que faria tanto coração partido valer a pena. É porque eu virei extremamente analítica. Eu simplesmente teria preguiça de passar por toda essa sensação de estar completamente entregue a alguém sem ter certeza de coisa alguma.

Essa mudança de modo de ser me deixou bem sem graça. Não vejo mais amor onde não tem. Não vejo nem mais o amor onde pode ter. A grande verdade é que tenho preguiça. Preguiça de me esforçar.  E tenho, também, temor de passar por todo desgaste emocional de novo.  Esses posts abaixo todos sobre garotos foram tentativas de disfarçar o muito monotemática sou e o blog só reflete a chatice das coisas. Sim, penso, como e durmo minha vida profissional.  Só compete com isso o Atlético, que assim como o faz no Brasileiro, lidera meu coração. No meu twitter e facebook eu fico evitando postar tanto sobre o Galo para disfarçar que passa algo a mais na minha cabeça. E aqui evitei falar, mais, do meu trabalho.

O grande lance é: tô aqui fingindo ser a idiota que eu já fui. Sinto falta dela. VOLTA, ALICE.

Não são mais tempos de sonhadores.

A chug-a chug-a motion.

Tranquei meu twitter com medo de alguém ver meus posts e entender tudo errado (ou tudo certo demais). E da mesma maneira já me vi quase postando dezenas de coisas work related por aqui e freei porque, né,  virei dona de uma certa ética profissional atualmente (chamada medo das coisas aparecerem para as pessoas erradas). Mas isso tudo  é bem diferente do que já fui/fiz. Em outras épocas, só comecei esse blog porque queria contar por aqui o quanto sofria – e como sofri!- em terras gringoletes em mãos de pessoas loucas. E era cada coisa que me acontecia que me virava um post, porque era desabafo. Eu era nova demais, sozinha demais, longe de casa demais, e, na verdade, Mrs. Robinson era LOUCA demais.

Agora não tenho desculpas. Mas ficam as memórias.