Eu já disse que sempre

Meu cérebro é monotemático. Se meu inglês tá melhor, meu espanhol não desenrola. E se o espanhol tá em voga, o inglês fica aquela beleza. Se eu gostei de uma canção, escuto só ela. E meu cantor favorito da semana reina sozinho no universo. Invento de ver filmes coreanos e só consigo pensar nisso. Até umas palavras na língua já aprendi.  E se me apaixono por um livro troco o sono por leitura. Stalkeio qualquer coisa que me interesse, inclusive a biografia de atores, diretores, personagens e anônimos que apareceram no jornal. Ontem mesmo foram horas ouvindo a voz fina em mil entrevistas de um jogador de 19 anos, porque como é que eu não fico obcecada com alguém que marca dois gols no rival e dá entrevista chorando?

E é por isso que eu passo tanto tempo pensando em você. Porque meu cérebro é monotemático.

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Eu pego e te pisco, belisco, petisco, me arrisco e te enrosco.

Me deixa encher sua vida de poesia, música, barulho e cor? Se você deixar eu ponho rima e para não ficar muito brega, vario os sonetos com uns hakais modernistas, que olha, são de dar taquicardia e até mesmo falta de ar. Um pouco de roxo, lilás e rosa do seu lado ficam bem, você não acha? Eu acho que sim, você já disse que gosta das cores em mim. Ponho branco às vezes, é promessa. Deixa eu te mostrar as canções que me fazem pensar em você e te mostrar os versos exatos em que eu te juro, parece que tavam pensando na gente. Sério, olha esse aqui.  Eu quero muito te explicar o contexto político dessas letras do Chico, eu posso? É que a filha do general… Não é ruim, muito pelo contrário, que eu tenha citações e explicações de músicas, livros e poemas para um montão de coisas, não é? Essa intensidade toda que eu gosto do que eu gosto, te assusta? Desliga essa tv que eu quero conversar. Presta atenção só em mim.  E daí que eu rio muito alto, choro muito alto, falo muito alto se o importante é que eu suspiro baixinho? Deixa eu encher sua vida?

Vos ya te interastes

Começo um grande discurso sobre o feminismo, explico como não é o oposto de machismo, dou exemplos infinitos e digo que me ofendo quando meu chefe me chama de bonita (melhor seria que ele dissesse que gosta de trabalhar comigo porque sou foda). Discuto sobre futebol, explico a rivalidade contra a Argentina, dou razões políticas criadas durante a ditadura e razões emocionais para que meu coração JAMÁS se dobre em uma torcida pelos hermanos quando o assunto é futebol. Eu disse discuto? Eu fico hooooooooras falando disso até que me diga que não vai mais conversar porque os argumentos que passaria a usar seriam ofensivos e não quer que eu fique brava.

– É o meu jeitinho, digo para mim mesma.

E no fim só me convenço que é necessária muitíssima paciência.

Talvez minha mãe esteja certa de pedir para a noiva colocar meu nome, com muita fé, na barra do vestido. No que depender de mim, então, pois é…

Monstros imaginários ou não

Você é de peixes e eu sou de aquário, e embora os dois tenham associação direta, o horóscopo me disse que não combinamos tanto assim. Talvez já prevendo isso, a gente passe tanto tempo em silêncio um ao lado do outro, o que na verdade só incomoda quando estamos os dois sozinhos. E por esse silêncio que eu te contei do cara que brigou comigo quando eu não sabia indicar caminhos no meu bairro, o que confesso que também fiz para te avisar pra não ficar bravo comigo caso eu te apontasse alguma curva equivocada.

Ainda que eu tenha dado a direção certa, sempre, e você tenha dito que não é obrigação de ninguém ser um GPS, confesso que fiquei um pouco magoada que você tenha dito que eu bêbada falo alto demais. A grande realidade é que isso é verdade, e até mesmo outras pessoas já me disseram isso, o que me inibe um pouco. Eu queria ser uma pessoa elegante e controlada, e não passar a imagem de louca que não sabe lidar com uns muitos mls de álcool no sangue. Acho que contribuí especialmente com a formação dessa imagem, quando, comentando 50 Cores de Cinza, falei, animadamente (quer dizer, aos berros), que a minha maior crítica ao livro é que a menina lá goza rápido demais.

Pensando bem, isso talvez tenha feito você pensar que eu seja um pouco frígida, embora o mais provável é que não, porque acho que você não prestava atenção por ser uma discussão sobre livro. Aí de novo tenho que confessar algo, é bastante muito decepcionante você dizer que não goste de ler, e, embora eu não seja frígida, devo dizer que eu broxei um pouquinho.

A grande realidade é que nada disso importa muito, porque quase todas as linhas aqui acima saíram diretamente da minha cabeça, tentando adivinhar, provavelmente sem sucesso, o que passa na sua cabeça. Daí só me sobra mesmo o horóscopo, que muito alerta, me disse “não há nenhuma identificação para uma relação duradoura”. Pode ser que seja mesmo, ou talvez nossos signos no zodiáco apenas indiquem que eu faça aniversário um mês antes que você.

Só seique assim tá bem difícil, já que nem a minha cabeça e muito menos a astrologia me apóiam.

Eu tenho algum problema com amor demais

Uma moça me contou que desde a adolescência é apaixonada por um cara que mora em outro estado. Contou isso com olhos marejados e dizendo que constantemente relê as cartas e fica pensando em como e tanto a vida dela poderia ser diferente e mais feliz. E me perguntou se eu não tinha lamento nenhum de amor perdido.

E eu não tenho. No final eu rasgo as cartas, entregando direto pro lixo aquele amor inteiro. E ainda odeio um pouco não ter controle sobre as cartas que eu escrevi. Queria poder retirar cada palavra, apagar cada letra. De passado de amor, guardado, tenho poucas coisas. A maior parte porque significam pouco amor, por isso nem o cuidado de jogar fora e tirar de mim.

Contando assim, ela me chamou de fria, mas acho que é mais quebrada do que fria. Quebrada por ter mil coisas em mim que mais afastam do que aproximam qualquer cara. E nem é por causa de corações partidos passados, a razão é dessas coisas que nem 10 anos de terapia trariam resultado, e por eu já saber da ineficiência, ali dentro nem chego ao assunto.

 (ou é só uma gaveta que eu não quero mexer nunca. NUNCA.)

Ai acaba que amor é o tema que eu não falo. Posso contar de paquerinha retardada, paixonite aguda, pegação desenfreada sem futuro algum. Mas não falo de amor. E nem acho que eu tenho abertura para amor, por mais que eu tenha aquela aflição retardada de querer ser amada. É tipo aquela música da Karina Buhr – que eu nem sequer gosto tanto, mas ouço porque me identifico com a letra:

Não me ame tanto/ Eu tenho algum problema com amor demais/ Eu jogo tudo no lixo sempre

Desapego corretamente/ Ou incorretamente/ Um sentimento mesquinho/ Que eu sinto por dentro/ Tenso/ Por isso não me ame/ Não me ame tanto

Mas nem é que eu seja uma pessoa fria e gelada. O amor que eu não dei é quase reflexo do amor que eu não recebi. Espero de fato que eu não seja fria. Eu até sei me apaixonar, se eu conseguir deixar. Mas é que amor demais parece que sufoca. Que mata. Que cega. Eu já vi isso, vocês também.  E eu fico sendo essa pessoa que prefere o impossível a qualquer possibilidade de possível, porque, afinal de contas, eu tenho algum problema com amor. E nem precisa ser demais.

Talvez com sorte algo invisível apareça

No primeiro dia ele se sentou ao meu lado. E eu fiquei meio feliz, porque assim que ele passou pela porta, torci para aquilo. Durante a apresentação falamos e rimos. Mas depois se sentou uma outra do lado dele e eles falaram e riram mais e eu desencanei. Tão irrelevante que é do tipo de coisa que não se conta pra ninguém, nem mesmo para si mesma para gravar na memória.

Depois a gente se trombrou, irrelevantemente e principalmente sem importância. Mas finalmente caímos nas mesmas turmas e, procê ver como são as coisas, um dia a plaquinha dele tava do lado da minha, ali, por puro destino ou mera coincidência. Tava muito cool, muito descolada, muito aplicada e completamente nem ligando pra ele. O charme mora quando você não liga. Ou pelo menos comigo funciona bem assim.

Na aula seguinte, ele tava longe. Mas me olhava. Essa vida de auto-estima baixa e total noção das coisas faz com que eu negue essas coisas. É aquela auto-sabotagem diária básica “ele ta olhando pro relógio na parede aqui atrás ou é pra mim mesmo?”, seguida de uma cutucada “véi, mas cê tá comendo tanto que se alguém estiver olhando pra você é pra remeter a um quadro do Botero”.

Só que ele tava. Daí decorei o nome dele e fui procurar no facebook, processo normal, ainda mais sendo eu. Fácil de achar pelo sobrenome diferente.  Tudo fechado. Nem foto de rosto tem. Pronto. Eis o mistério ai. De súbito preciso saber tudo.

Depois teve prova. Ele chegou atrasado. Mas vi bem quando entrou na sala. Tinha vários lugares vagos ao longo da sala. Ele vem sentar atrás de mim. Pode ser nada, pode ser tudo, mas decidi que era sinal e naquele dia mesmo, depois de contar essa história boba para umas 3 amigas, adicionei.

E te juro. Minha vida é tão uneventful que a história termina ai.

Não espera muito dele.

buscando um email entre zilhões na caixa de entrada, apareceram na busca apenas 4 opções, sendo uma delas o email que eu queria. só que um deles era pessoal, o que me pareceu muito bizarro, já que os termos eram “empreendedorismo, oportunidades”, acabando por chamar minha atenção mais do que o objetivo da pesquisa.

eram só umas 15 linhas com muita enrolação, mas o final dizia

“ser sempre o idiota que vive a vida sem maiores preocupações mas não se arrisca a coisa nenhuma em relacionamentos esperando por uma pessoa que pode ser que nem a existência dele note mais”.

tava ali, sabe. tudo que eu passei depois tava ali, bem no início. não me lembrava de jamais ter lido nada daquilo, mas provavelmente eu peguei as 13 linhas iniciais, nas quais ele falava do tanto que gostava de mim e do tanto que eu era importante, abracei, fiz virar amor e ignorei a final, que tinha um enfático “só que não”.

ignorei que no final ele dizia que “não se arrisca a coisa nenhuma”, se referindo diretamente a nós, e provavelmente até peguei aquilo como desafio. e fica essa história básica de ler as coisas como a gente quer e não como elas são. tivesse sido eu esperta, morria bahia ali e eu me era poupado 1 ano em que eu, em ataques masoquistas ad eternum, corria atrás de quem, desde início, dizia que por mais que se importasse, não era eu o foco.

por uma vida em que a gente leia mais as linhas e tente imaginar menos as entrelinhas.

(adoro escrever entrelinhas porque sempre vejo na palavra estrelinhas).

I think of him when I´m doing the dishes

os dentes, definitivamente os dentes. e o sorriso. as espinhas no pescoço, já falei que são horrendas? os olhos verdes que quase não tem rasguinhos castanhos ou pretos, sendo dum verde excessivamente intenso. incomoda esse olhar, cara. ainda mais pra quem não é boa em contato visual direto. e a meditação? os mapas astrais? o cristal no pescoço! a atitude mística, no geral. ele dançando…

peraí, eu já disse que ele não me atraí?

mas daí vem aquela amiga, a que conhece cada história, das importantes às irrelevantes, e pergunta: o problema são todos esses ou porque não foi você quem escolheu primeiro?

bom, pergunta difícil essa, só as muito espertas sabem reconhecer.
sim.

e porque não dar uma chance, embora a distância seja enooooorme, e simplesmente não deixar ele tentar?
pois é. vai que a resposta está justamente em não ir pelo impulso inicial (que seria RUN FOREEEEEST). isso. vou dar uma chance. vai que ele é genial, agradável, tudo que eu sempre quis nessa vida? se eu mudar pra indochina a culpa é sua.

poucas horas depois decido comprar uma passagem pra bolívia pra ir ver o brian enquanto ele ainda está lá.

ps: fora a última linha, todas as outras não se referem ao brian.

´God help the girl, she needs all the help she can get.