Se seu coração tem buraquinhos

Coração quebra, mas coração sara.

Será? Será que eu vou voltar a me sentir inteira e ter felicidade plena? Será que eu vou poder sorrir pensando no meu amor, sabendo que ele é imperfeito – sendo que perfeito ele nunca foi? Será que eu não vou ter crise de ansiedade iguais as de agora porque é tanto tanto tanto, como não surtar? Será que eu vou poder falar pra mim mesma que confio em você? E em mim? Será que eu confio em mim?

Quero olhar pra 2021, depois desse 2020 completamente desesperado e desesperador e falar: seja gentil comigo.

Coração sara?

If she don’t want your lovin’

Voltando pra casa depois de três semanas de colo de mãe. É engraçado como na vida a gente às vezes se acha en uns lugares de conforto que na verdade sequer são bons, porque tem medo do confronto e de perder. Agora eu vejo mil coisas no meu relacionamento que errei em aceitar (obviamente nenhuma delas ligadas a traição). Depois de tudo que li e ouvi sobre infidelidade, 10 entre 10 psicólogas dizem: pode ser uma chance pra um relacionamento melhor, com maior comunicação.

Porém, confesso que estou indo pra ver o fim. Só não quero terminar sem tentar antes porque tenho amor a mim mesma e a esses seis anos. Espero não sabotar e nem deixar mágoa ou rancor me consumirem. Ele quer tentar esse esforçar em melhorar. Vamos ver.

Como disse minha psicóloga: esse já é o fundo do poço. Não tem como te magoar mais.

Dentro de mim mora pouca esperança.

Paz, eu quero paz

Enquanto isso eu vim pra casa da minha mãe – o que consistiu em uma viagem de avião em plena pandemia. E haja colo, gato, cachorro, comida gostosa e chorinho ao despertar (não música, lágrimas mesmo). Ao mesmo tempo que eu trabalho muito, faço terapia e torturo a mim mesma e a ele.

Em tese estou disposta a tentar reconstruir. Mas será que tenho o suficiente para isso? Amor, luz, paz, confiança? Não quero viver sendo um poço de ranço, ciúmes e insegurança.

Ontem a noite apaguei as mensagens que a amante me mandou, cobertas de fotos e prints, evidenciando tudo ali. Apaguei porque já li mil vezes. Apaguei porque já era autotortura. Apaguei porque quero tentar seguir em frente.

Cansada.

Pergunto pra ele que garante que ele não vai fazer isso de novo. Ele responde que não quer passar por isso novamente. Então não é amor, luz, paz e confiança que vai fazer ele ser fiel a mim. É medo de passar de novo por isso.

Mesmo querendo eu não vou me enganar. Eu conheço meus passos. Eu vejo meus erros.

Essa noite acordei de madrugada com crise de ansiedade. Sentia que não podia respirar, mas respirava normalmente. Senti calor extremo embora o ar condicionado estivesse ligado e minha temperatura estivesse 36.1ºC. Senti uma náusea terrível, mas não consegui sequer forçar o vômito. Entrei no google pra checar se eu tava tendo um infarto, mas depois lembrei de ataque de pânico.

Eu tenho muito trabalho para essa semana, mas nada fora desse mundo. Tive problemas com meu carro, mas nada que eu não tenha dinheiro para pagar. Ontem fiz almoço, vi jogos de futebol e meu time venceu. Mas ainda assim acordo com uma sensação de morte iminente.Eu tenho passagem comprada pra ver minha família, grana o suficiente para pagar minhas contas, capacidade suficiente para exercer o meu trabalho. Mas aí vem o meu corpo e dá um ataque de pânico duas e meia da manhã de domingo pra segunda-feira. Como é que eu explico pro meu corpo que tá tudo bem, que não precisa ter ataque de ansiedade?

Não é a primeira vez, mas é bem raro esse tipo de episódio. Uma vez tive na faculdade em pleno divórcio dos meus pais, que foi terrível. E pra piorar o carro da minha mãe tinha pegado fogo com nós duas em uma avenida movimentada.Cheguei na faculdade, tava em sala de aula e veio dificuldade de respirar, fiquei pálida. Fui pra enfermaria e tudo normal. Pânico.

Depois, tipo em 2015, perdi um vôo que era no dia 4 (uma terça) mas fui pega-lo na quarta-feira (dia 5). Pra entrar na sala de embarque me avisaram "isso foi ontem". Enquanto checava com a empresa área se algo podia ser feito (e podia, era passagem cara comprada na mesma semana porque eu tava indo apagar um incêndio em Recife, então tinha condições especiais), o meu big boss me ligou pra botar a pressão na viagem. Fiz a viagem e fui direto pra uma reunião. Ela foi horrorosa. Cheguei no hotel, deixei minhas coisas e fui sentar na beira da praia. Senti um perigo eminente. Algo ia acontecer comigo. Será que me iam assaltar? Será que eu ia ficar bem? Não podia respirar. Achei que fosse desmaiar. Pânico.

Agora estou em trabalho remoto há 7 meses, trabalhando desesperadamente, sem folga ou férias, lidando com problemas da vida e sem nenhum ponto de escape. Sem mencionar uma pandemia que já matou 140 mil pessoas e que eu tenho que me cuidar para não me contaminar, um governo que pretende acabar com esse país e todas as dores da vida que não pára de passar. Não vejo ninguém desde março. É. Não tá tudo bem assim. Pânico.

But if this ever changing world, in which we live in, makes you give in and cry. Say live and let die.

Hoje é aniversário da minha mãe.

Meu plano era comemorá-lo ao lado dela, já que ontem seria feriado na cidade onde trabalho. Quis o mundo, o universo, a vida, o acaso, a China, a nossa irresponsabilidade, o Bolsonaro, que não. Inclusive ontem sequer foi feriado. Ele foi adiantado lá pra junho, quando achavam que no final de setembro tudo estaria controlado e que faria sentido tirar do trabalhador todos os feriados prolongados que o calendário de 2020 prometia.

Não que hoje eu fosse pra BH num bate e volta, né. Inclusive, saudades, BH. Não a vejo desde o início de janeiro.

Não vejo minha família todo esse tempo também, o que em tempos de internet não parece tão difícil, mas eu, pelos meus planos lá em janeiro, iria pra BH em abril, julho e agora em setembro. Sinto falta das minhas pessoas. Inclusive das pessoas que conquistei aqui. Em 2020 não vivi sequer na Bahia. Estou flutuando em um espaço paralelo, trabalhando por um mundo real, mas minha vida mesmo vai passando entre capítulos de série e noites mal dormidas de ansiedade. É tudo num apartamento pequeno. E idas eventuais no supermercado.

Essa noite eu dormi na cama de hóspedes e acordei com dor nas costas. Ontem tava pensando que essa cama nunca foi tão pouco usada. Minha casa é um destino popular, embora longe de tudo em Salvador. Quando eu voltar a ter hóspedes vou sugerir dormir na cama debaixo do bicama. Muito melhor. Que cama horrível.

Tenho passagem pra BH já pra dezembro. Vou passar o mês todo. Abraça gato, abraça cachorro e abraça mãe. Vou trabalhar também. E ter sonhadas férias. Que também não existiram no meu vocabulário nesse 2020.

Eu tenho saudades de uma vida inteira (menos de acordar todos os dias às 5:20 da manhã).

Talvez por um buraquinho

Muitas das minhas amigas são mães e quando eu as vejo com suas crias, normalmente penso: como é que elas dão conta?

Como dão conta de cuidar de si, de ter um trabalho e ralar tanto, de cuidar da casa, do seu relacionamento e ainda serem responsáveis pela existência completa de serzinhos totalmente dependentes?

Ser mãe é algo que me dá muito medo. Não consigo entender racionalmente porque alguém decide sê-lo. Confesso que nunca sonhei em ser mãe. Vez ou outra, transbordando de amor, tenho curiosidade de como seria uma criança metade eu e metade meu amor. Mas isso passa porque a vida é difícil como é agora. Como voluntariamente adicionar complicações? Minha mãe também me pressiona pela idade. Já tenho 35. A idade seria agora. Isso me apavora completamente. Daí penso que divertido seria criar uma criança bilíngue.

Não sei se tenho medo, se ele vira vontade, se esta é fruto da pressão. Mas o fato é único: por enquanto me falta coragem de trazer uma criança no mundo.

Não é nem pelo o mundo. Ele é péssimo e sempre foi. E ainda assim eu tive uma infância feliz e segura. Não é pelos meus genes. Minha família é até boa da cabeça. Como será que é um bebê 50% andino?

Tenho medo de me arrepender de não ter. Arrepender de ter é certeza. Mas aí já foi feito e acabou chorare.

https://youtu.be/2vQcNKXp-1w

Que pena eu não sou o que você quer de mim

Gastei posts nesse blog, sessões de terapia e muitas lágrimas. Uma amiga, que eu achava que era muito amiga, casou e não me convidou. Escrevedo assim parece até coisa mimada, mas considerando que nossas amigas em comum foram madrinhas, a coisa fica muito séria. Eu não sei o que eu fiz, não sei o que rolou e isso me deixou bem triste. E isso já tem anos. Na época até mandei um email perguntando e nada. Ou seja, assunto passado, não quis responder e eu que lamba minhas feridas. Mas minha amiga não é. Tirei de todas as redes sociais e vida que segue.

Enfim, como éramos, de verdade, muito próximas, sempre me aparece lembrança do facebook com ela. E finalmente esse ano tive o bom senso de deletar assim que aparece. Deus me livre de ficar lidando com esse DEMONHO de memória toda a vida. Mas eis que dia desses eu estava no linkedin e começou a me aparecer as coisas com que essa pessoa interagia. Não pensei duas vezes e deletei.

Eis que hoje essa desgraça me adiciona de novo. ME ADICIONA DE NOVO. DE NOVO!

Será que ela não se dá conta? Isso só me deixa mais puta, como algo que foi tão importante pra mim, não significa nada pra ela.

Mas vai pra puta que te pariu.

Pode avisar que eu não vou

Hoje eu saí com essa roupa somente pensando que estava calor. Há algum tempo abandonei dogmas sobre o meu corpo gordo e o que eu visto, não tapando o que não precisa ser tapado, afinal, meu peso aparece incluso se eu estiver de burca.

Hoje eu estava apressada no supermercado pegando um último item enquanto meu namorado já estava na fila.

Um homem me chama "amiga?" e numa dessas microviolências gratuitas, me entrega um panfleto e diz que a mulher tem um negócio que ajuda "gente que precisa" a emagrecer.

Na hora eu só peguei e saí rápido. Com raiva. Com vergonha. Com raiva por eu ter vergonha do meu peso. Com raiva de eu não ter dito nada.

Imagina só se alguém vai querer entrar em um processo tão íntimo como o de emagrecimento com alguém que te assedia?

Meu senhor, olha bem. Se alguém tão gostosa assim precisa emagrecer. Que você e a sua esposa EXPLODAM.

Choram Marias e Alices no sólo do Brasil

Aviso de gatilho: estupro de menor.

Quem me lê haá muito tempo, sabe porque já contei aqui. Eu sofri um abuso na infância, justamente de um familiar. Idade similar a dessa criança que hoje passou por um aborto. Você que não sabe, hoje em Recife uma criança de 10 anos passou por um aborto após sofrer estupros o longo de 4 anos por um tio e engravidar.

Proporcionalmente, minha dor foi infinitamente menor. Mas foi enorme em mim. Minha relação com meu corpo, sexualidade e etc foram impactadas. E eu só consegui falar disso na vida adulta.

Eu fiquei em silêncio por mais de 20 anos. Nesse silêncio tinha dor, culpa, vergonha, trauma e um esforço danado pra esquecer. Consegui dormir a maior parte das noites sem me lembrar. Porque não sabia sequer lidar com aquela dor.

Só esse ano fui falar disso na terapia. Porque ainda dói. Envergonha.

Essa situação toda me dói tremendamente. E pensar que essa criança entrou no hospital a gritos de "assassina", que tem gente duvidando da "inocência" dela por nunca ter dito nada. Parece que alguém tá tirando uma casquinha de um machucado que mal cicatrizou.

Eu consigo falar disso tudo com maturidade. Mas nossa. Como dói.