Passo 1

Num ato de coragem, ou covardia, fui buscar no meu pai ajuda financeira para minha tão próxima mudança. Enquanto eu pisava no meu orgulho – e quem sabe até fazia valer meus direitos como filha – meu pai quis me mostrar foto da filha que ele tem… e que eu não conheço. Nas fotos da menina, uma foto minha criança no meio: “é para mostrar para as pessoas o tanto que ela parece com você”. É meio assustador como, na ausência do meu pai, ele veja alguém todos os dias que se pareça cada dia mais comigo. É absurdo o tanto que eu me reconheci nessa criança que nem nunca conheci, que o nascimento significou o abandono do pai que compartilhamos . Ela, com esses olhos, boca e nariz que vejo no espelho todos os dias.

Eu posso, eu vou

Com o meu namorado eu impus uma regra: é proibido falar de feminismo salvo que isso vá virar uma conversa séria. Não consigo ter com leveza e fazer brincadeiras sobre algo que com o tempo se tornou tão importante para mim. Não existe brincadeirinha e zoação.

É um desafio enorme ter-se como mulher feminista, em constante empoderamento, e aceitar que o cara que tá com você tem traços tão grandes de machismo. Sempre busco lembrar-me que eu também cresci nessa sociedade que tem internalizada e institucionalizada tantas coisas absurdas e que não nasci feminista, mas me tornei. Exige uma paciência tremenda.

E eu tenho. Com ele, que é o meu amor, que me faz ser mais feliz, com quem eu quero viver minha vida. Faz sentido tentar explicar, ir aos poucos, aceitar as limitações e mostrar com exemplo. Faz sentido até escutar absurdos e discordar. Com ele, que eu amo.

Porém… não tenho a menor obrigação de ter paciência com homem barbado que tem medinho de ter seus privilégios diminuídos. Não tenho que eu, como Alice e dona dos 4 sobrenomes que seguem esse nome, baixar minha cabeça e escutar “homi” achando que tá  sempre certo. Não tenho que ter vergonha de me posicionar, de me opor, de não me calar.

Você, mulher, também não tem.

Eu vou é gritar.

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I need a good advice that maybe I just won’t take

Eu estou a um surto de ligar pra minha ex-terapeuta e pedir pra voltar.

E aí você se pergunta: mas porque você não voltou pra terapia ainda? Porque vergonha na cara a gente só tem aconselhando os outros, com a gente, a regra é postergar pra sofrer mais.  E adivinhem: tô sofrendo.

A pior parte do meu sofrimento é que eu sofro muito mesmo tendo muita coisa boa. Então me faço de doida e ingrata com o universo. Mas como é que o amanhã pode ser decidido com tanta incerteza?!

Desde dezembro tenho me lamuriado pelos cantos. Semana passada o RH me chamou pra uma entrevista que era baseada  em “você é uma ótima profissional, como faz pra mais pessoas serem assim?”. Saí de lá frustrada porque do que me servem belas palavras sem $valorização$, mas o aumento veio dois dias depois.  Incríveis quase 18%!!!

Parece ótimo?

Só que quando eu falei do aumento pra minha mãe ela disse “isso é aumento?”.  PÁ NA MINHA CARA.

Nunca pensei que ficaria triste de receber aumento, gente. Me senti um fracasso.

É porque isso aconteceu justamente quando eu tava considerando me inscrever pra uma vaga em outro estado e cometi o ERRO de comentar com a minha mãe.

Explico: uma empresa procurou a gente para uma vaga de terceirizado fazendo gestão dos projetos deles. O dobro de salário, ambiente e desafios novos e a minutos da praia.

Tenho o currículo mais que perfeito pra isso. Mas sei também que não tem ninguém no meu trabalho que possa assumir com tranquilidade minhas funções e meu senso de responsabilidade tá gritando.

Com tanta crise interna, externa e econômica, tenho falado muito mal do meu trabalho. Daí todo mundo acha que eu tinha que ir embora AMANHÃ e pensar só em mim. VAI PRA PRAIA SER FELIZ, MEUAMÔ (mamãe e namorado tavam bem pensando em passar as férias na minha casa Q EU TÔ LIGADINHA).

Quanto à vaga externa, minha chefe me recomendou não me inscrever, mas me deixou livre  para fazê-lo. Disse que pode ser que findo o 1 ano de contrato com a empresa lá, o mesmo não seja renovado e a minha vaga atual esteja bem ocupada. Tem o risco da organização não comportar o meu salário e eu ficar desempregada. Daqui a um ano.

Pensando apenas em estar longe, seria montar apê, usar a grana ~a mais~ praticamente para arrumar uma casa… vale a pena por esse tempo só? Sem carro, sem mãe e só no lerê. Sem amigos, sem Galo, sem Mozão que até disse que mudaria pra ficar comigo, mas o mudaria dele é algo aberto, né. Ele podia estar aqui HOJE e não veio ainda e não tem data pra vir.

Eu quero estar, nesse momento da minha vida, longe de tudo que eu sou? Mas quero ficar? Eu quero mudar ou quero fugir?

Estou perdida. Tenho que decidir até amanhã e talvez no processo tome 2 litros de sorvete de flocos.

 

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Millions of people in the race

Mozão, que mora longe e não manda tão bem português, quer vir morar em terras tupiniquins, mas dá medinho de morrermos de fome e o amor acabar com a adversidade. Eis que surge uma vaga aqui numa empresa legalzona para HABLANTES NATIVOS DE ESPAÑOL e justamente na área dele. Fiquei ANIMADÉRRIMA. Lembro que uma amiga pôs no facebook recentemente que tava trabalhando lá e vou perguntar pra ela qualéqueera, se ela sabe alguma informação, ças coisas.

– NOSSA, MAS 3 PESSOAS JÁ ME PERGUNTARAM DESSA VAGA!!!! DEVE TER JÁ UNS 300 INSCRITOS.

Não tá fácil pros sonhadores apaixonadim.

ps: de onde saíram tantos latino americanos da área de comunicação querendo morar em BH?!

Quiero hacer contigo lo que la primavera hace con los cerezos

São 3 para as 6 da manhã e eu não dormi essa noite. Tenho em poucas horas uma reunião importante de trabalho e ainda assim passei a noite insone no quarto de hotel . Mesmo exausta de um vôo cansativo depois de um dia inteiro de trabalho, não eu consegui pregar os olhos. Acontece que tô com medo.

Essa é a reunião mais difícil que eu já fiz sozinha. Estou indo com uma missão quase suicida.

Ano passado, em dezembro, eu sofri muito por causa do trabalho. Me desenamorei da instituição por me decepcionar com ela e desenvolvi uma pressa de fugir dali. Um dia antes de voltar de férias mandei meia dezena de emails com currículos. Não tive qualquer retorno.

Hoje, pouco menos de um mês mais tarde, tô aqui sofrendo com a ansiedade do puta desafio de fazer uma negociação antecipada como difícil dar certo.

Num livro que eu tava lendo ontem no avião tinha a cliché frase da Friday Khalo “donde no puedas amar, no te demores”. Essa frase tá martelando aqui dentro. Tenho medo de estar demorando demais.

Lembrei que sou de clichês e na parede o meu quarto tem um pôster com a frase “do with passion or not at all”. Vai com paixão mesmo.

Cabe o meu sorriso

Como estou em época muito loser e chorosa, fiz um esforço de elaborar uma lista de felicidade. Abaixo estão coisas boas desse 2016. E pensar em cada um desses itens me fez sorrir.

  1. Fui em cidades praianas 4 vezes esse ano. Como mineira que sou, o mar me causa emoção profunda.
  2. Meu amorzinho passou meu aniversário e o carnaval comigo.
  3. Meu amorzinho passou nosso aniversário de namoro comigo.
  4. Meu amorzinho vem passar o aniversário dele, o natal e o ano novo comigo.
  5. Consegui ir na academia pelo menos 3x por semana quase o ano inteiro.
  6. Como malhei o ano inteiro, minha perna, mesmo com o ligamento rompido, está em ótima forma e quase não sinto dores.
  7. Tenho uma assistente muito legal, que eu gosto muito e tenho muita vontade de ensinar.
  8. Comprei todas as coisas que queria comprar e não me embananei financeiramente mesmo assim.
  9. Consegui viajar com a minha mãe quatro vezes, sendo uma em família e outras três, só nossas.
  10. A minha casa é muito lindinha e eu sou bem feliz lá. É uma delícia amar onde você mora.
  11. O Peri, o gatinho, depois de ter desaparecido por 55 dias, foi achado e se recuperou bem e agora é só MUITO fofo.
  12. A Pequi, a outra gatinha, sabe ser amada do jeitinho frio dela.
  13. Minha irmã foi chamada para o concurso e até já começou a trabalhar (hoje!).
  14. Descobri que não sou tímida, dando entrevistas em jornais e na televisão.
  15. Descobri que sou destemida, fazendo coisas até mesmo estúpidas.
  16. Voltei a amar meu cabelo.
  17. Na maior parte do ano, não cultivei uma relação de ódio com meu próprio corpo.
  18. Fiz amizade com um grupo maravilhoso de mulheres que me fazem bem diariamente.
  19. Reafirmei cada vez mais minha atuação como feminista e consegui com o a Grupa levar para todos os jornais o discussão do machismo no futebol.
  20. Fui reconhecida positivamente muitas vezes no trabalho.
  21. Consegui contar para a minha mãe um dos maiores segredos da minha vida.
  22. Fiz cursos relacionados à minha área de trabalho e me tornei mais qualificada.
  23. Me descobri extremamente fiel aos meus valores e leal aos meus amigos, e gostei de sê-lo.
  24. Minha admiração pela minha chefe cresceu exponencialmente nesses momentos de crise.
  25. Fui a campo ver o Galo todas as vezes que quis ver e nunca me faltou companhia de qualidade.
  26. Estou bem boa em idealizar pequenas coisas e concretiza-las, como uma parede de posteres no meu quarto.
  27. Pude ajudar mais financeiramente mais em casa.
  28. Fui às paraolimpíadas e vivi um pouquinho o meu sonho olímpico.
  29. Voltei a apoiar causas e movimentos que eram importantes para mim antes.
  30. Fiz um pen drive com as músicas que eu mais gosto e sou muito feliz com isso, porque toda vez que escuto, peço que é um afago meu a mim mesma.
  31. Li mais que o ano passado.
  32. Fiz o melhor possível na minha vida profissional. Fui inteira em tudo que fiz e tive o máximo do meu comprometimento.
  33. Me reaproximei de todos os meus tios de parte materna.
  34. Tive momentos extremamente felizes com meus amigos.
  35. Tenho orgulho de ser a mulher que me tornei.

My persuasion can build a nation

Estamos revisando o orçamento para fazer o ano que vem fechar positivo. Isso significa que estamos comprometendo a operação e entregas em nome de um superávit financeiro. O que também é traduzido em demissões. Foram 20 pessoas desde o início de dezembro. Ainda vão uns 20 nos primeiros meses de 2017. Dez dessas, minhas.

Ontem briguei com o meu diretor querendo manter uma pessoa até maio, enquanto ele queria março. Fechamos em abril. No meio do caminho o chamei de antiético por não cumprir as entregas e ele me chamou de rígida e inflexível, o que eu acho que sou na vida mesmo. Tenho valores e os tento defender. Mesmo que a resposta à defesa me machuque.

Na hora do almoço chorei igual uma criança. Coração partido, dor de tudo isso. Dia desses reclamei em um grupo de whatsapp de “amigos” que tava pesado. Alguém que nunca fez nada parecido, nunca foi chefe de ninguém disse “mas é fato da vida, para de reclamar”. Não é fato da vida. E não é sem dor. Ao menos eu não faço sem dor. É ônus de ser gestor. Mas dói sim.

Uma amiga minha vai para Paris. Foi, aliás. Nesse grupo  do whatsapp citado acima, um “ser” postou print  dela dizendo que ia viajar e ficou falando de inveja e que queria aquela vida fácil. Eu falei que não era fácil, que ele não conhecia a vida dela e o que foi bancar essa viagem. Falei que foi dinheiro de rescisão. Ele e a amiguinha que me mandou “parar de reclamar”, falaram que queriam a vida fácil dela. Falei para parar. Pedi para parar porque era minha amiga. Falaram que era problema meu. Saí do grupo. Na vida. Não quero essas pessoas perto de mim. Estou bem definitiva na vida.

Não bastasse todo esse contexto, inventei de ser voluntária de um programa de liderança que já fiz. Tô tentando ajudar pessoas de Guiné, Síria e Serra Leoa conseguirem visto para o Brasil. O evento é nas primeiras semanas de janeiro e estou esbarrando na burocracia brasileira. Meus amigos diplomatas não conseguem me ajudar porque tudo é extremamente separado lá dentro. Continuo tentando.

Em casa contei pra minha mãe tudo isso. Obviamente é mais importante o fato de eu ter brigado com  o diretor. Eu chamei ele de “antiético”. Ele minimizou meu trabalho. Eu tô chorando fácil. Não tinha chorado ainda. Que dia difícil. Eu bati no peito: sou corajosa e burra. Minha mãe me disse que eu sou destemida. E que nem sempre isso é bom porque eu ajo antes de pensar.

A noite  fiquei pensando e perguntei ao maravilhoso google o que é ser destemido. Acho que me descobrir destemida é uma libertação. Talvez seja uma conclusão importante de 2016: o ano que me obrigou a não ter medo.

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